Avatares, drones, carros e motos telecomandados. Forças Armadas preparam batalhas do futuro

Proteger os soldados e mitigar riscos nas operações militares mais perigosas é o objetivo principal de uma equipa das Forças Armadas que está a planear a "robotização da guerra".

O general Rui Pedro Tendeiro reflete nos olhos os sonhos que tem nos papéis à sua frente. É o comandante do recém-criado Departamento de Inovação e Transformação (DIT) do Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA) e, com o entusiasmo, quase atropela as palavras quando fala dos projetos que está a coordenar.

Estamos a falar de planos de futuro, para as guerras do futuro, "pensados para, em primeiro lugar, proteger a vida dos soldados", como nos assinala este oficial-general, piloto-aviador da Força Aérea Portuguesa, mas também para suprimir algumas dificuldades identificadas de falta de pessoal.

Um avatar - produto de inteligência artificial, com imagem humana e comportamentos humanos - baseado nas características dos instrutores, para dar formação e treino; um autogiro (mini-helicóptero) transformado em drone telecomandado para transportar material de guerra e de apoio, como comida e medicamentos, a militares deslocados; um drone com capacidade de voo de 16 horas para fazer todo o levantamento de zonas, em várias etapas, onde os militares vão fazer operações; óculos de descanso para regularizar o sono através de ultrassons e ações passivas, que ajudam os militares a descansar quando precisam; e também uma moto 4 telecomandada para usar como guarda avançada em zonas de risco, que entra e verifica os espaços nas aldeias, avalia se há armamento e eventuais presenças hostis e tem capacidade de fogo, é anfíbia, fala, ouve e desmonta minas.

Estes são alguns dos 15 projetos que estão em desenvolvimento no DIT, um departamento que conta com a orientação estratégica do vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, um experiente submarinista da Marinha, perito em inovação, que o atual chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA), António Silva Ribeiro, chamou para adjunto para o Planeamento e Coordenação com a tutela desta área.

Da necessidade à ideia

Rui Tendeiro explica que, neste momento, "a prioridade dos projetos está focada nas necessidades das Forças Nacionais Destacadas, designadamente, na República Centro-Africana [RCA]", onde está concentrado o maior número de militares, com cerca de 200 soldados na missão das Nações Unidas MINUSCA - United Nations Multidimensional Stabilization Mission.

Ao todo, as Forças Armadas têm 759 militares em 13 missões no estrangeiro, distribuídas por 11 países diferentes - mais de metade na RCA e no Afeganistão onde estão 180 militares numa operação da NATO. A dinâmica operacional na RCA, onde têm sido notícia várias ações de combate dos militares portugueses, obrigou a repensar meios de apoio.

"Todas as ideias que estão a ser trabalhadas, quer com universidades, quer com o tecido empresarial do setor, nasceram de lacunas, de necessidades que os nossos militares sentiram no terreno"

"Todas as ideias que estão a ser trabalhadas, quer com universidades, quer com o tecido empresarial do setor, nasceram de lacunas, de necessidades que os nossos militares sentiram no terreno. Daí a necessidade de inovar", salienta o oficial-general da Força Aérea.

Dá um exemplo: "Foi identificada na RCA uma lacuna na capacidade de movimentação na área dos nossos militares - o apoio das forças estrangeiras não é suficiente. Esta situação surge quando queremos transportar material e equipamento de apoio às operações. Não tendo helicópteros disponíveis para enviar para a RCA, está a ser pensado adaptar um autogiro, com capacidade de transportar cerca de 100 quilos em carga e combustível, transformando-o num veículo telecomandando que pode chegar a qualquer ponto, levando munições, alimentos, medicamentos, o que for preciso."

O projeto da moto 4 telecomandada com todas as capacidades já descritas, "tem a grande vantagem de evitar que se exponham as vidas humanas em cenários de risco", e os drones com autonomia de 16 horas "partiram da necessidade de conhecer com pormenor as zonas para onde estão programadas operações, tarefa essa que, com uma conjugação de voos simultâneos de drones, com câmaras de filmar de alta definição, permite criar um mapa a três dimensões e identificar alterações nos vários ângulos".

Militares mais seguros

Sobre os avatares-instrutores, Rui Tendeiro afiança que "a ideia, a ser desenvolvida também noutros países, surgiu da necessidade de colmatar prováveis faltas de recursos humanos".

"São tutoriais virtuais criados pela inteligência artificial, reproduzindo características humanas e substituindo na íntegra o formador. Permite maximizar os recursos humanos, pois um só avatar pode proporcionar múltiplas ações de formação a muitos mais formandos. Foi um sucesso o contacto que já fizemos com a comunidade académica para o desenvolvimento deste projeto", diz.

Juntando a isso as limitações da Lei de Programação Militar (LPM), a saída tem mesmo de ser inovar, como salientou, em declarações ao DN, o próprio CEMGFA.

"Não podemos ficar limitados aos equipamentos da LPM. Há projetos que podemos desenvolver com as verbas disponíveis para investimento e operação e que nos dão capacidades acrescidas. É por isso que no EMGFA e nos ramos das Forças Armadas estamos a desenvolver capacidades de inovação. Para poupar e garantir a segurança dos militares, estamos a desenvolver alguns protótipos, que serão devidamente testados e, depois, quando estiverem em condições, serem empregues nas nossas Forças", destaca Silva Ribeiro. Foi por sua ordem que o DIT foi criado no EMGFA.

Marco Serronha, tenente-general do Exército que esteve 14 meses na RCA como segundo-comandante da missão militar, aponta, do ponto de vista operacional, duas vantagens na "robotização através de veículos não tripulados."

A primeira é mesmo "a maior proteção da vida dos militares, que não são expostos; a segunda é que todos estes sistemas são dificilmente detetáveis porque são elétricos, o que os torna praticamente invisíveis e inaudíveis".

Que diferença poderiam fazer se, neste momento, pudessem ser usados na RCA? O oficial-general, que atualmente está à frente do Comando Conjunto para as Operações Militares, responde: "Sem dúvida que haveria uma capacidade muito maior de aquisição de informação no terreno, com muito menos risco para os militares".

"Com estes aparelhos não tripulados pode-se chegar muito mais próximo do objetivo e não são detetáveis"

Afiança que "quando agora se quer fazer algum reconhecimento de um cenário, para se preparar uma operação, tem de ir uma viatura com militares e nunca se pode aproximar muito do alvo. Com estes aparelhos não tripulados pode-se chegar muito mais próximo do objetivo e não são detetáveis. Estes meios têm capacidades até para operarem à noite, com visão noturna e, especialmente, imagem térmica - hoje apenas utilizados como equipamentos individuais dos soldados."

Avanços tecnológicos

Num documento de enquadramento sobre a robotização da guerra, o EMGFA assinala que "os avanços tecnológicos permitem a utilização massiva de robôs na frente de combate, evitando a exposição do ser humano ao risco e permitindo multiplicar as capacidades militares de um determinado país", podendo "beneficiar destes avanços potências tecnológicas ou países de média/pequena dimensão, mas com elevadas competências tecnológicas".

""Portugal, enquadrando-se numa tipologia de país com fortes competências tecnológicas, desenvolvidas nos últimos 30 anos, deverá aproveitar esta capacidade para, de forma assimétrica, minimizar o fosso existente com outras potências militares"

Para os estrategas das Forças Armadas, "Portugal, enquadrando-se numa tipologia de país com fortes competências tecnológicas, desenvolvidas nos últimos 30 anos, deverá aproveitar esta capacidade para, de forma assimétrica, minimizar o fosso existente com outras potências militares com capacidades superiores e conseguir produzir efeitos que permitam colmatar a falta de massa crítica relacionada com a dimensão humana do país".

Simultaneamente, é salientado neste documento, "esta capacidade permitirá operar, vigiar, explorar e defender os seus interesses, nomeadamente nos grandes espaços marítimos, sob soberania e jurisdição nacional".

O EMGFA está convicto de que "estas capacidades multiplicam a componente militar portuguesa, garantindo, simultaneamente, a proteção desta em teatros de operações típicos do século XXI, relacionados com os conflitos assimétricos (terrorismo, insurgências) e combate às ameaças híbridas".

Além de que "a edificação destas capacidades robotizadas permite, ainda, o desenvolvimento da tecnologia nacional e constitui um grande impulso para uma economia mais competitiva e digital".

Entre as "áreas de excelência" destas capacidades robotizadas "estão os drones (terrestres, marítimos e aéreos), com capacidade de observação e produção de efeitos nos teatros de operações".

Estas "capacidades robotizadas", sublinha o EMGFA, "são mais uma garantia de sucesso das operações militares, contribuindo fortemente para a proteção dos homens e mulheres que servem nas Forças Armadas".

O plano é que "sejam desenvolvidas transversalmente aos ramos das Forças Armadas, ou seja, de forma conjunta, garantindo assim, à partida, a interoperabilidade, uma única cadeia logística e, consequentemente, eficiência e economia de escala".

E conclui: "As capacidades robotizadas são um instrumento de desenvolvimento de uma economia mais tecnológica e digital, traduzindo-se numa verdadeira economia do conhecimento. Se forem bem aproveitadas, permitirão uma revolução tecnológica no seio das Forças Armadas e serão um motor de investimento e desenvolvimento da economia nacional. Quando conjugado com outros sistemas militares mais tradicionais, serão um extraordinário multiplicador da capacidade destes últimos, contribuindo para uma maior soberania tecnológica e digital".

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