Resistência e saúde mental

As imagens chocantes das filas de espera de ambulâncias com doentes com covid-19 nos principais hospitais públicos, em várias zonas do país, despertam sentimentos de revolta, impotência, culpabilização ou - pior, para algumas pessoas - até de banalização, dada a repetição destes acontecimentos, ao fim de quase um ano, mas agora de forma especialmente cruel com as urgências e os cuidados intensivos dos hospitais portugueses no limite da capacidade.

Afirmam especialistas, alguns políticos e empresários que, perante esta pandemia, tal como noutras crises, os portugueses têm sido resilientes. Todavia, resiliência não é um sinónimo de indiferença ou de sociedade amorfa perante as imagens das salas, corredores e parques de estacionamento dos hospitais a transbordar de infetados a necessitar de ajuda imediata.

Ao invés de resiliência - conceito importado da física para definir a capacidade de adaptação dos materiais perante choques ou mudanças -, prefiro invocar o conceito de resistência. Uma árvore ou um humano podem abanar ou moldar-se perante um temporal, mas o importante é não quebrar. Mais do que os significados, por exemplo na medicina ou na eletricidade, o conceito de resistência que aqui interessa, neste convite à reflexão, é a capacidade de um ser ou sistema aguentar (sem partir) esforços físicos, ataques ou contrariedades.

Portanto, a questão para as próximas semanas está em saber por quanto tempo resiste o Serviço Nacional de Saúde e a sociedade portuguesa a esta terrível terceira vaga de covid-19. Além da resistência física dos profissionais e do sistema de saúde, é fundamental, nesta altura, não descurar o tema da saúde ou da sanidade mental dos cidadãos - um problema que se agrava no novo confinamento e que não afeta só as ditas pessoas frágeis, pois é um fenómeno psicossocial da maior importância. Nos bastidores da entrevista ao DN e à TSF, o antigo ministro da Saúde e ex-presidente do Conselho Económico e Social mostrou-se preocupado com esse impacto na saúde mental dos concidadãos.

As imagens das filas de ambulâncias às portas dos hospitais remetem-nos para a urgência da vacinação e para a ação de prevenção e combate a esta doença através do reforço do sistema imunitário. E também nos recordam que expressões como capacidade de superação das adversidades, motivação das equipas, autoconfiança e otimismo não são conceitos fúteis de "literatura ligeira", sobretudo no atual contexto. São ferramentas úteis e há muito conhecidas de que quem gere negócios e pessoas. Agora, a sua utilidade é transversal e vários autores refletem sobre a sua relevância nesta conjuntura comparável a uma guerra.

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