Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.

Ljubomir Stanisic possui vários dos atributos necessários para pertencer a esta nobre linhagem: há uma sombra misteriosa nos seus olhos que revela quão fácil seria matar-nos, e um desenho secreto nas suas tatuagens que sugere os instrumentos com que o faria.

O primeiro episódio leva-o à zona da Ericeira, onde há algo de podre na marisqueira Ribamariscos. Ostras, ao que parece. A cozinheira pergunta alarmada: "Quem é que pôs os alhos ali dentro?" Ninguém sabe. Ninguém sabe o lugar correto das coisas nem a razão de as coisas estarem noutro lugar. Um dos empregados de mesa diz: "Cheguei um bocadinho atrasado", descrevendo de forma exemplar o facto de ter chegado atrasado. É hora de abrir para o almoço. Entram os primeiros clientes. Os problemas a sério começam aqui. Os empregados reagem com perplexidade. Quem são todas aquelas pessoas a sentarem-se às mesas e a pedirem comida? Como agir perante este fenómeno, tão estranho ao dia-a-dia de um restaurante? Uma dessas pessoas é Ljubomir, que veio perceber a dimensão do problema antes de o ajudar a resolver. Ljubomir pede uma das especialidades da casa, enigmaticamente chamada "vieiras à casa". Explicam-lhe que vai demorar muito tempo. Ele insiste. Algumas décadas depois, uma terrina chega à mesa. "Onde é que estão as vieiras?" Aparentemente, o prato designado "vieiras à casa" não inclui vieiras. A cozinheira explica: "Pois não, por isso é que são à casa."

A imagem seguinte é de Ljubomir com uma gigantesca cana de pesca na mão, informando o espectador: "Preciso de relaxar, vou à pesca!" A frase é obviamente verdadeira: nunca ninguém, em toda a história da televisão ou da culinária precisou tanto de relaxar. A imagem seguinte é de Ljubomir a regressar da praia ao fim da tarde, informando o espectador: "Agora estou muito mais relaxado." A frase é obviamente mentira; continua tenso. As imagens que não nos mostraram da pescaria foram provavelmente censuradas por serem demasiado violentas: Ljubomir a largar a cana de pesca na areia e a mergulhar aos gritos no oceano para espancar robalos e tainhas com as mãos nuas.

Antes do jantar, inspeciona o armazém. Na arca congeladora encontra um balde sem rótulo, sem data e sem qualquer identificação, contendo uma substância avermelhada que tanto pode ser um molho esquecido como o sangue de animais sacrificados no Paleolítico Inferior. Um dos empregados é admoestado pela sua falta de humildade. "Eu sou humilde!", protesta. "Tenho humildade para dar e vender!" Na cozinha vai-se preparando o jantar. O cozinheiro anuncia a intenção de colocar natas numa cataplana de marisco. Ljubomir solta uma gargalhada eufónica, que atinge a frequência exata onde o desespero se transcende e dá lugar a uma resignada paz interior. Olha à sua volta com um cansaço não totalmente desprovido de ternura, enquanto recapitula em silêncio versões de um provérbio antigo: se dou um peixe a um homem, alimento-o por um dia; se o ensino a pescar, alimento-o para a vida toda; mas, se o assassinar à porrada, não tenho de me preocupar mais e posso ir relaxar para a praia.

O episódio chega ao fim com uma dose moderada de progresso. Toda a gente sabe onde se arruma o alho, e as ostras. Alguns dos empregados chegam mesmo a levar à mesa aquilo que os clientes pediram. Há abraços, há lágrimas, ouvem-se violinos. Ljubomir regressa a casa, com um inaudível suspiro de alívio e a sensação do dever cumprido: conseguiu deixar toda a gente a respirar e com os sinais vitais estáveis.

Quem precisasse da sua própria sessão de relaxamento depois de toda esta tensão tinha ao seu dispor o primeiro episódio de Lodge 49 (AMC), forte candidata a série mais descontraída atualmente em exibição. O protagonista é "Dud" (um Dude Lebowski com uma letra a menos), ex-surfista em decomposição que foi mordido por uma cobra durante uma viagem à Nicarágua e que agora coxeia a a sua ferida pelas areias de Long Beach como uma versão intoxicada do Rei Pescador, até encontrar fortuitamente a Antiga e Benevolente Ordem do Lince, uma sociedade secreta que parece ter degenerado num clube recreativo, mas que ainda esconde a promessa de algo mais.

Às primeiras impressões, a série conjura elementos suficientes para ser confundida com o produto de outra categoria: a série-puzzle, em que ficar sentado à frente do ecrã é apenas metade da experiência e o resto decorre na internet - nos fóruns, nas wikis, no Twitter - onde co-obcecados se dedicam a partilhar teorias, decifrar pistas e localizar ovos da Páscoa. Há simetrias, ecos e duplicações. Há sonhos crípticos. Há nomes que ameaçam tornar-se simbólicos. Há citações de Paracelso e alusões a uma figura misteriosa conhecida apenas como "O Capitão". Mas tudo isto é mais ou menos decorativo, e não um mecanismo para reter atenção.

O título é uma alusão deliberada a um título de Thomas Pynchon, mas a série não emula a sua densidade, e o investimento cognitivo que exige é residual. O que partilha é a mesma ethos de contracultura (chamemos-lhe "anarquismo hippie sentimental", à falta de melhor), e o mesmo talento para extrair comédia ao dissipar de esperanças radicais, não porque trata essas esperanças como frívolas, mas por tratar como frívola a realidade que não lhes permitiu a concretização. E há aqui algo também do seu universo, onde as personagens não descobrem a ordem secreta das coisas, mas onde certamente a procuram.

Em 1990, o crítico Anthony Lane elogiou nas páginas da The New Yorker um filme de Woody Allen dizendo que o que Hollywood mais precisava não era grandes filmes, mas sim bons filmes, e um diagnóstico semelhante poderia ser feito sobre a era de ouro da ficção televisiva, que alternou entre obras-primas, fracassos ambiciosos, projetos de "culto" por decreto e lixo irredimível, mas cuja escala sempre foi maximizada. Lodge 49 não é uma meditativa distopia tecnológica, nem nos mostra uma panorâmica de uma cidade inteira, nem tenta fixar uma década ou autopsiar uma cultura, nem nos apresenta um anti-herói com uma trajetória apocalíptica transbordando complexidade moral, nem tem zombies nem dragões. Satisfaz-se em exsudar a relaxada modéstia das suas ambições, e uma tranquila e competente qualidade.

Mas se não há diagnóstico com solene carga sociológica, há pelo menos uma paisagem económica em que o presente pós-recessão é inescapável. Os primeiros 15 minutos estão repletos de lojas de penhores, empréstimos manhosos, juros exorbitantes, fábricas encerradas e vendas em hasta pública. "Dud" fala melancolicamente numa tribo índia que ocupou aquele lugar durante três mil anos; na sua imaginação, foram três mil anos a pescar e a passear na praia, e os limites da sua nostalgia são assim fixados: não a ânsia de recuperar um passado mítico, mas o desejo de um futuro com o mesmo tempo livre.

A maior proeza técnica de Lodge 49 é conseguir recondicionar-nos a aplicar esse desejo ao próprio ato de ver televisão, oferecendo precisamente aquilo que a realidade não oferece às suas personagens, e que (numa extrapolação que a série parece timidamente encorajar) o sistema atual não oferece a ninguém: a oportunidade de benefícios mínimos e um prazer descomplicado sem exigir total dedicação, conhecimento de regras misteriosas e um permanente estado de alerta.

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