Hoje apetece-me fazer de ardina

Nos anos 1940, os ardinas apregoavam em certos dias, ao vender o jornal República: "Fala o Rocha! Hoje fala o Rocha!" Era a homenagem de garotos quase analfabetos, armados, e bem, em fazedores de manchete. O homenageado era Rocha Martins, jornalista de pena afiada e o gosto pela liberdade que levava-o, sendo monárquico, a escrever num jornal titulado República. Rocha Martins escrevia com o que se chama de estilo e pertence àqueles raros que têm voz única.

Hoje, se tivesse o talento para o que um pregão encerra - isto é, para a definição perfeita -, eu ter-me-ia armado em ardina e chamaria para a capa (capa, não este lugar mais modesto) desta edição do DN: "Hoje fala o Rogério Casanova!" E: "Hoje reporta o Ricardo J. Rodrigues!" E: "Hoje declama o Ruy Castro!" E: "Hoje expõe o André Carrilho!"... Gosto de letras e traços com cara.

Infelizmente, não tenho o Arturo Pérez-Reverte. Ele é aquela opinião que de cada vez se faz ouvir em Espanha, crónica sim, crónica sim, no El País (pelo menos é lá que o leio) parece o furação Florence a entrar pelas Carolinas. Por acaso, Pérez-Reverte também está nesta edição do DN, mas como entrevistado e na condição de romancista, o que me interessa menos. No entanto, mesmo numa resposta, do entrevistado saltou-lhe a voz única, e voltou ao cronista que conheço. Espanha, ao que parece, rasga-se sobre a exumação de Franco, expulso do Vale dos Caídos. Resposta do meu admirado Pérez-Reverte: "Franco deixou de me interessar há 40 anos." Bom prólogo. Uma das forças daquele cronista espanhol é o inesperado que lhe sai da garganta, não embarca em indignações de moda. E, logo, tungas, arrumou o assunto: "Tanto me faz que seja cremado ou que façam croquetes dele!"

"Hoje fala o Rogério Casanova!" E: "Hoje reporta o Ricardo J. Rodrigues!" E: "Hoje declama o Ruy Castro!" E: "Hoje expõe o André Carrilho!"... Gosto de letras e traços com cara

Na nossa opinião publicada, vozes assim, fortes, são geralmente previsíveis. Por cá, há temas que indignam à esquerda e outros que indignam à direita, cada uma à sua vez. Há semanas, a nossa direita tem feito uma, legitimíssima, aliás, campanha pela recondução, prolongamento, repetição, ou lá o que é juridicamente, da PGR. Invoca-se o balanço do seu mandato, embora não se discuta, surfa-se a ideia do combate que ela terá feito aos políticos poderosos, banqueiros e clubes de milhões de portugueses. À esquerda o assunto é menos assumido, e suspeito que seja assim por oportunismo: além dos perseguidos não o merecerem, não dá votos qualquer sintonia com políticos poderosos, banqueiros ou clubes, talvez com milhões de adeptos mas qualquer deles com mais desafetos.

E é sobre essa questão que sinto também a falta de uma voz como a de Arturo Pérez-Reverte que me surpreenda. Já o disse, admito que se queira insistir em Joana Marques Vidal, admito, porque o seu balanço, apesar de muito surfado, muito acusação e pouca uva, tem uma aparência de combate a um mal. Seja. Mas à nossa direita, durante a sua legitimíssima, aliás, campanha pela recondução, prolongamento, repetição, ou lá o que é juridicamente, da PGR, nunca lhe surgiu a cara do ex-ministro Miguel Macedo, do PSD, a ser intimamente abusado pelas imagens do seu interrogatório a serem tornadas públicas? É que esse não é um dos hipotéticos balanços que se podem fazer ao mandato da PGR. É um, por todos nós visto, abuso. Deste mandato. Provadíssimo. Facto. Nada a dizer? Ninguém para o dizer?

É por isso que me dá prazer armar em ardina e gritar deste meu jornal: "Hoje fala o Rogério Casanova!" Ou: "Hoje reporta o Ricardo J. Rodrigues!" Ou: "Hoje declama o Ruy Castro!" Ou: "Hoje expõe o André Carrilho!"... Reparem, sei que uns proclamam (andam há semanas a fazê-lo, o que vai nas respetivas almas e nos pormenores dos encontros dos dois protagonistas, Costa e Marcelo, sobre o momentoso destino da PGR). O meu jornal, confesso, não sabe.

Para a troca, tenho o humor e a inteligência do Casanova. Tenho o repórter Ricardo J. Rodrigues que vai sempre fundo, desta vez até foi longe, à última fronteira da Europa. E sabem como ele o faz? Perguntando. O truque é fácil, revelo-o, é o seu ingénuo respeito pelas pessoas que leva as pessoas a falar com ele, até na fronteira turco-búlgara. Para a troca, tenho a lição semanal de Ruy Castro sobre como se escreve uma crónica escorreita e sábia. Pode haver cursos martelados, mas ninguém se pode queixar do mestrado que é ler o brasileiro Ruy Castro, um serviço público vindo do lugar onde os jornais melhor escrevem a nossa língua comum. E em cima desta minha crónica, tenho a vernissage semanal de Carrilho. Vozes únicas, como eu ia dizendo...

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