O direito de Serena a não ser mansa

Acusada de usar o sexismo como álibi, Serena Williams e a sua fúria estão a ser usadas como álibi por todos os que negam a existência de sexismo e racismo.

Sabemos isto: é comum que uma vítima de violência doméstica só assuma sê-lo, perante outros e perante as autoridades, ao fim de muitos anos, por vezes décadas. O mesmo sucede a vítimas de abusos sexuais, ou até de violação.

É também um clássico que se questione por que raio alguém leva tanto tempo a aperceber-se e a reconhecer que foi vitimizado. Não é raro aliás desconfiar-se de quem denuncia "passados tantos anos" - para quem olha de fora parece impossível que alguém "aguentasse tanto" em silêncio. E quanto mais brutal o abuso e a violência denunciados mais se desconfia.

Paradoxalmente, então, quanto mais tempo as pessoas resistem à ideia de ser vítimas mais são acusadas de se estar a vitimizar. E quanto mais pareçam "fortes" mais é provável que tal suceda. Fazemos então, coletivamente, uma coisa terrível: vitimizamos mais as vítimas, ao descredibilizar as suas experiências.

Isto, que sucede em relação a crimes tipicamente ocultos, como os mencionados, e que a maioria das pessoas (já) não negará existirem, tem a ver com coisas muito simples. Primeiro, o óbvio: temos sempre dificuldade em acreditar no que não vimos ou sentimos. Depois, achamos que, se uma coisa é narrada como óbvia, foi sempre percecionada como óbvia. A ideia de que é preciso um processo de consciencialização para alguém se dar conta de estar a ser brutalizado não é evidente. Se leva pancada não vê logo que isso é inadmissível? Se teve sexo contra a sua vontade não está na cara que foi violado?

A coisa complica-se ainda mais quando a violência em causa sucede em função de uma característica da vítima da qual não comungamos. Como há de um homem, por exemplo, empatizar automaticamente com a violência a que as mulheres são submetidas, desde crianças, nessa tradição tão inofensiva e engraçada que é a do "piropo de rua"? Se nunca passou por isso, se nunca teve receio de passar na rua por um grupo de homens, se nunca entrou num transporte público em alerta contra encostos, roçadelas e apalpões, se não se habituou a ver o espaço público como um lugar onde está sempre na defensiva e em inferioridade, como há de entender?

É bem provável que Serena não tenha razão na sua fúria contra Carlos Ramos. Mas tem-na, toda, imensa, quando denuncia sexismo no ténis, no desporto e na vida em geral. E em não ser mansa: mansas, meus caros, são as vítimas. E isso, queiram ou não, acabou.

E, mais pungente ainda, como há de entender, se conseguir empatizar com a situação, que as vítimas disso - todas as mulheres sem exceção - tenham sido desde tão cedo imersas nesse estado de coisas que seja necessário passarem por um processo de consciencialização, ou de "desnaturalização", para se rebelarem?

Esse processo é tanto mais difícil quando implica lidar com uma enorme contradição: a de que uma vítima só deixa de ser vítima, só se autonomiza e fortalece, quando reconhece ter sido vítima, ou seja, quando reconhece ser ou ter sido a parte fraca numa relação de forças.

Se acrescermos a tudo isto a noção que a vítima tem de que desvendar a sua posição de fraqueza a porá necessariamente num lugar em que vai ser questionada, e muitas vezes atacada e vilipendiada -- mais fragilizada, portanto -- começaremos a ter uma ideia da determinação e força necessárias para assumir essa posição.

E da forma como alguém nessa situação se pode sentir acossado, e passar a ler tudo o que lhe sucede em função do seu processo de consciencialização, adotando uma postura inversa à de vítima, ou seja, atacando e expondo por sistema em vez de calar e acatar por sistema.

Não significa isso que devamos aceitar sem questionar situações em que alguém - por exemplo uma mulher negra, digamos uma atleta de alta competição milionária e muito poderosa, como Serena Williams - nos parece estar a, sem razão (e nesse caso prejudicando incomensuravelmente o acusado), invocar vitimização. Nada disso. Mas se a reação a essa atitude for uma onda triunfante e raivosa de acusações não só à pessoa em si como àquilo que é descrito como "um vício de vitimização" das minorias e das feministas, uma onda que mais do que afirmar que "não é tudo sexismo" escarnece da mera alegação da existência de sexismo, temos de saber que não estamos perante um debate civilizado sobre o que se passou numa final do US Open mas de mais uma desesperada manifestação de negacionismo. Da reação furiosa de quem não admite sequer que há vítimas, quanto mais que é natural que as vítimas estejam zangadas.

É bem provável que Serena não tenha razão na sua fúria contra Carlos Ramos. Mas tem-na, toda, imensa, quando denuncia sexismo no ténis, no desporto e na vida em geral. E em não ser mansa: mansas, meus caros, são as vítimas. E isso, queiram ou não, acabou.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG