Identitarismo

A afirmação de uma identidade coletiva pressupõe uma construção, uma demarcação. Há sempre um lado de lá, um outro; e é por isso que nessa afirmação se pressente um certo antagonismo: não nos afirmamos no nada, no vazio, mas perante alguém, na face de alguém. Não é que essa natureza conflitual seja exuberante, soletrada, como se quiséssemos fazer dela o tambor que acompanha a infantaria. Mas há nela uma vocação excludente, mesmo que não interiorizada. Podemos não querer excluir quando afirmamos uma identidade coletiva, quando procedemos à afirmação de uma nacionalidade, de um país, de uma identidade sexual, de uma origem étnica ou de um orgulho histórico, mas não há forma de essa afirmação não implicar um certo cotejo.

É por isso que, consoante os casos e as sensibilidades e os preconceitos, há quem olhe para a construção dessas identidades como um ataque, uma inibição para sobressair um grupo e desconsiderar os restantes, um "este é o nosso lugar"; ou então como uma defesa, um derradeiro instrumento de permanência ou de sobrevivência num contexto adverso, um "também temos lugar aqui" - processo natural em busca de aceitação, acolhimento.

Surgirá a alguns contraditório que confirme essa vocação excludente nos casos em que a afirmação da identidade coletiva se posiciona como mecanismo de defesa: como podemos reconhecer exclusão quando tudo o que a pessoa quer é ser incluída, que a acolham na sua diferença étnica, de género, religiosa, sexual, etc.?

Sucede que não estamos a falar de identidade individual, da nossa dignidade enquanto pessoa. A afirmação da nossa condição de pessoa, de indivíduo, não está nunca contaminada de exclusão, porque nos afirmamos como iguais. Estamos aqui a falar de outra coisa, da afirmação de uma identidade coletiva, de adicionar ao nosso estatuto de indivíduo um outro, coletivo.

Há como que um colocar da identidade no lugar nuclear onde antes estavam a igualdade e a liberdade. De alguma forma, a identidade fornece uma legitimidade reforçada, reparadora, que por isso exige uma atenção particular. Assim, porque demarcadora, e nessa demarcação exigindo uma especialidade, essa afirmação identitária convoca esta sensação conflitual.

É que a humanidade é, felizmente, capaz de multiplicar por milhões as nossas características identitárias. E de cada vez que acharmos que há uma identidade ultraminoritária, logo vemos que essa mesma se pode dividir em outras ainda mais minoritárias. Se assim é, o potencial de conflitos de legitimidade é infinito.

Não sei, porque percebo pouco do jogo, se Serena Williams foi bem ou mal punida no desafio de ténis que acabou por perder. Mas sei que invocou condições identitárias para explicar ou contextualizar as decisões do árbitro. Sucede que do outro lado, do lado que beneficiou das decisões do árbitro, estava uma outra mulher capaz de invocar um outro conjunto de características identitárias legitimadoras se acaso as decisões a tivessem prejudicado. Em que contribui a identidade aqui, enquanto critério de compreensão do real, senão para um conflito inútil, para uma categorização da sociedade? Seja qual seja a decisão, ela será sempre contestável por questões de identidade...

Tem sido escrito que Trump ergueu a voz contra este chamado identitarismo, superando a ultracategorização da sociedade americana. Antes fosse. Estou em profundo desacordo. Trump apenas responde com mais identitarismo, instigando o conflito, não o resolvendo. É um caminho perigoso e contraproducente, que conduz ao choque de identidades. Não é o meu. Eu prefiro pugnar pela nuclearidade da igualdade e da liberdade, condição essencial para um mundo mais aberto, menos discriminador.

Advogado e vice-presidente do CDS

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