A Síndrome do Peloponeso


Depois da guerra franco-prussiana (1870-1871), dois europeus anteciparam o futuro catastrófico do Velho Continente. Ainda em 1870, o nosso João de Andrade Corvo profetizava que os nacionalismos invocando "argumentos" raciais estavam condenados a mergulhar a Europa numa desordem sangrenta que acabaria por levar os EUA a intervir militarmente para restaurar a paz.

Também Nietzsche - um defensor de um "homem europeu", resultado de uma mestiçagem cultural profunda - temia que a sua ideia de uma Europa unida, onde os Estados se tornassem uma espécie de grandes e pacíficos cantões suíços, acabasse por ser vencida pela repetição da maldição que levara os gregos da Antiguidade, no auge do seu poder e da sua cultura, a devorar-se sem dó nem piedade nas guerras do Peloponeso.

O último discurso sobre o Estado da União do presidente Juncker ecoa a presença inquietante desse gene da discórdia helénica no ADN europeu. Juncker, como é seu costume, apresentou as premissas corretas, mas sem daí extrair a conclusão lógica que lhe é inerente. Lamentou a deriva britânica, por sinal o país que mais instabilizou a vizinhança próxima da União Europeia com o seu belicismo no Iraque, na Líbia e na Síria. Aludiu à expansão de um nacionalismo agressivo, que, de acordo com um estudo de política comparada recente (projeto V-Dem) já afastou quatro países da União do clube das democracias liberais (Hungria, Polónia, Lituânia e Eslováquia), sem falar na Roménia e em Malta. Referiu a necessidade de a UE ter capacidade própria e coordenação na área da defesa, como se esse não tivesse sido um desígnio original, patente no ambicioso projeto da Comunidade Europeia de Defesa (1952), logo esmagado pelo nacionalismo gaulês em 1954.

Evocou a urgência de uma parceria com África, o continente que mais sofreu pela proximidade da implacável voracidade colonial e neocolonial europeia, como se esse não tivesse sido um objetivo tantas vezes invocado por Robert Schuman na década de 1950. Apelou, ainda, a que a União se concentrasse nos objetivos comuns do combate contra a ameaça ontológica das alterações climáticas.

Juncker fez o mais fácil. Apontou o dedo aos nacionalistas descamisados, que o medo, o desnorte, mas também a ambição pessoal e o preconceito estão a colocar nos parlamentos de quase toda a União. Faltou a Juncker olhar-se ao espelho. Nomear os nacionalistas instalados, que tudo têm feito para manter a UE desprovida de um governo comum com meios para defender esse interesse coletivo, invisível para quem espreita das capitais nacionais. Os nacionalistas instalados aprovaram o Tratado de Lisboa, que acentua a tónica intergovernamental sobre a comunitária, diminuindo os poderes do presidente da Comissão (como o próprio Juncker já o reconheceu), face ao presidente do Conselho Europeu; perpetuaram um mísero orçamento comunitário de 1% do PIB, que reduz as políticas europeias a espuma retórica.

Quando a crise financeira se transformou em crise da dívida, os nacionalistas instalados defenderam os seus bancos e paraísos ficais impondo uma austeridade generalizada aos povos europeus através do tratado orçamental, que foi muito para além dos países intervencionados pela troika. O problema é que enquanto o nacionalismo instalado não for denunciado como aquilo que é, um obstáculo estrutural da unidade europeia, os nacionalistas descamisados continuarão a surgir como aqueles que propõem a mudança. Mesmo que ela seja a de dar o passo que falta na direção do abismo.

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