Linhas cinzentas

Era muito arrogante, mas era verdade, e como era verdade e era arrogante eu não me cansava de o dizer, quando na minha vida a arrogância e a verdade tinham um peso maior do que hoje. E o que era verdade é que já tinha ido mais vezes a Paris do que a Cascais e o que era arrogante era dizê-lo em todo o lado, junto de quem quer que fosse, mesmo quem nunca tivesse ido a Paris, ou a Cascais, e quisesse. Tenho vindo aqui mais vezes nos últimos tempos descobrir novos nomes, novas terras, pôr caras nas terras, de Bicesse, que em criança achava ser em Angola, a Pau Gordo, que não sabia que existia.

Mas era verdade, a minha vida nunca passou por Cascais, nesse país diferente de Portugal, de Lisboa, do Lumiar, que é a linha. Um país com nome de reta, de conjunto de pontos, território euclidiano, sem fronteiras definidas, a não ser a do mar, que nem é bem mar nem bem rio, território sem termo, mas termo de apropriação territorial e social muito forte, e que varia em área e pontos conforme o que quer quem o usa. Um termo, como todos, que divide; os que são da linha, que moram na linha, e os que não são, nem vão, ou vão não sendo, como se fossem de visita. A viagem substituiu a visita, já escrevi sobre isso não sei onde, mas não vem muito ao caso. Até vem, e bastante, não houvesse linhas que também a escrita, sobretudo a escrita, tem de respeitar.

E como qualquer coisa arrogante e verdadeira era vazia de propósito, e o que conta hoje mais do que o resto é o propósito das coisas e as coisas com propósito, coisas que são pessoas, dado o despropósito de matéria sem alma. Não é bem verdade, porque não há matéria sem alma, nem forma sem substância (o José Pedro Croft fala disso numa bela entrevista à Anabela Mota Ribeiro), e tantas vezes só a forma e a matéria conseguem falar a língua da salvação, que é a língua com menos regras e menos caracteres que há, por isso a mais difícil de aprender. E de entre as matérias substanciais, a mais de todas, é o cimento cinzento concreto do chão, das paredes, das escadas brutas que andam por aí, nessas cidades todas, onde mais se espera, onde menos se espera - e o que é espera, e esperar de mais ou esperar de menos? No sábado, na Culturgest, fui ouvir os Xutos, os Xutos sem o Zé Pedro, que ainda são mas já não são, mas ainda são, e não sei se tocaram a longa se torna a espera que estava com a cabeça noutro lado. Mas aí, nessa e noutras músicas deles, o rio divide as margens não traça a linha. É um rio que se atravessa, e se cruza, não é o mar-rio da baía de Cascais que se limita a estar, a realçar.

Uma linha, branca, cinzenta, vermelha, é sempre uma margem, e sobre a relação dos rios e das margens da violência maior do rio que arrasta ou das margens que apertam já falou Brecht. Brecht ou outra pessoa antes dele, porque no Intellectuals de Paul Johnson há um Brecht muito amigo de copiar ideias, de roubar, de plagiar. E este Intellectuals devia ser lido por todos, sobre a desumanidade do génio, a dor inevitável que espalha e deixa quem tem pouco tempo para esperar, quem não conhece nem linhas, nem formas, nem margens.

Advogado

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