Exclusivo Dos presidentes históricos àqueles que cinema e televisão inventaram

Do pioneirismo de David W. Griffith aos dramas políticos de Steven Spielberg, pode dizer-se que há uma filmografia "presidencial" no interior do cinema americano. Sem esquecer que a televisão tem também encenado as atribulações dos habitantes da Casa Branca, uns históricos, outros imaginados.

De uma maneira ou de outra, as imagens de Joe Biden, primeiro como candidato, depois como presidente eleito dos EUA, ficarão para sempre associadas à figura de Donald Trump nos nossos ecrãs, acumulando mentiras, primeiro sugerindo que a eleição ia ser uma fraude, depois repetindo que os resultados estavam viciados. Dir-se-ia que na perceção do mundo que construímos através desses ecrãs passámos a viver no interior de um sistema visual em que cada imagem, por mais pura ou desinteressada que se apresente, está condenada a ser posta em causa por alguma outra imagem.

No caso de Trump, mesmo antes (muito antes) das obscenas imagens da invasão do Capitólio, em Washington, o seu empenho em minar os resultados do voto popular já suscitava uma pergunta que, sendo mediática, é necessariamente cultural: até que ponto o efetivo poder de Donald Trump sempre envolveu uma hábil gestão das suas imagens televisivas? O incómodo que a pergunta suscita pode ser medido pelo silêncio que a tem recoberto: dentro ou fora do espaço audiovisual, quase ninguém a formula.

Uma coisa é certa: antes de vencer as eleições de 2016, Trump possuía já uma considerável filmografia. E não apenas através do protagonismo em The Apprentice, programa de "reality TV" que produziu e apresentou entre 2004 e 2015. Além de várias participações em séries televisivas, incluindo O Príncipe de Bel-Air (1994) e O Sexo e a Cidade (1999), foi surgindo em pequenos papéis em filmes como Sozinho em Casa 2 (1992), de Chris Columbus, Celebridades (1998), de Woody Allen, ou Zoolander (2001), de Ben Stiller. Com uma particularidade, de uma só vez narrativa e simbólica, talvez uma das chaves para compreendermos o seu poder mediático: Trump interpreta Trump. As suas personagens são sempre reencarnações de si próprio, afinal estabelecendo um princípio que, como bem sabemos, definiu a sua presidência: não há fronteiras entre realidade e ficção.

Numa perspetiva perversa, podemos acrescentar que a performance de Trump como intérprete de Trump reflete também um verdadeiro "desporto" nacional. A saber: a proliferação de representações dos Presidentes dos EUA em cinema e televisão.

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