A miúda de Lisboa que, depois de 15 anos em África, é campeã do direito de todos estarmos representados

Brunch com Magda Burity, comunicadora e empreendedora.

Foi em fevereiro de 2009 que Magda Burity da Silva fez capa no DN Gente, então o suplemento de sábado do Diário de Notícias, com o título "Uma africana muito tuga". A conversa tinha acontecido dias antes em Maputo e foi a própria jornalista (hoje assume-se sobretudo como "comunicadora e empreendedora") que se definiu daquela forma, salientando todo o peso de ter nascido em Lisboa, ter estudado em Lisboa, ter começado a trabalhar em Lisboa, mesmo quando as raízes estão em África e se escolhe África para viver.

Estamos sentados na cafetaria Fauna & Flora, nos Anjos, não muito longe dessa Alameda D. Afonso Henriques onde Magda viveu em criança, filha de um moçambicano e de uma angolana e tendo como avô materno uma figura famosa na Lisboa da época, António Burity da Silva, eleito deputado pela "província de Angola" à Assembleia Nacional entre 1961 e 1965.

Com uma monumental panqueca à nossa frente, que combinámos dividir depois de ela comer ovos com bacon e eu uma torrada, peço a Magda que me sintetize o seu percurso até ao momento em que nos conhecemos em Moçambique, quando se juntou a um grupo de jornalistas portugueses que tinham andado o dia todo em reportagem sobre a distribuição de computadores Magalhães a escolas e aproveitavam a noite no bar do Clube Naval a beber Laurentina, uma cerveja cujo nome sobreviveu à independência em 1975.

"Nasci em Alcântara, a 20 de julho de 1975, no Hospital Egas Moniz. Como o meu avô era funcionário público a família tinha direito a assistência no Egas Moniz, na Junqueira, espécie de rua do Ultramar", relaciona, a rir. Afinal ficava ali o hospital das doenças tropicais, o Instituto de Investigação Científica e Tropical e ainda o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas Ultramarinas, o ISCSPU, hoje ISCSP. "Nasci no Verão Quente", sublinha Magda, de novo entre risos, referindo-se à agitação revolucionária pós-25 de Abril de 1974 que coincide com o mês de julho de 1975.

Viveu com os avós até aos 25 anos, no Bairro dos Atores, perto da Fonte Luminosa. O pai, diz entusiasmada, foi redator no Diário de Notícias, ao mesmo tempo que fazia a tropa e, acrescenta a rir, "tocava bateria e talvez por isso também seja produtora de música". Chama-se Manuel Augusto Langa Jr.

O pai e a mãe, Elsa da Glória Burity da Silva, conheceram-se nas festas na Casa do Povo de Bucelas, onde os avós maternos tinham um chalet. Hoje ele está em Moçambique, ela continua a viver em Portugal. Magda, fruto desse amor entre um moçambicano e uma angolana, acabou por estudar Antropologia no ISCSP, onde o avô deputado também se formara, uma escola muito ligada a Adriano Moreira nas últimas décadas e que hoje faz parte da Universidade de Lisboa.

Confesso a Magda que já não me recordava que éramos ambos iscspianos (eu tirei lá Comunicação Social), mas também temos de admitir que apesar do à vontade na nossa conversa, com a tal panqueca recheada de frutos silvestres e chocolate para partilhar, temos tido um contacto muito ocasional, sobretudo pelas redes sociais. E, claro, acompanhando à distância a carreira um do doutro. Depois da temporada, de dez anos, de Magda em Moçambique, houve mais quatro vividos em Angola, só regressando a Portugal em 2017.

Influências de África somam à de Portugal

"Houve, nestes 12 anos desde que nos conhecemos e fizeste aquele artigo e aquele título, um crescimento e um desenvolvimento pessoal muito grande por causa de todas estas experiências e de todos estes questionamentos que eu tive por viver em Moçambique e em Angola e agora aqui em Portugal, de novo, como mulher interseccional. O que eu sinto na realidade é que sou hoje uma mulher completa, isto é, eu agora sinto-me só mulher. O que eu sinto é que não tenho de sentir mais do que ser mulher como todas as outras. E acho que as sociedades é que têm de se adaptar e educar àquilo que elas acham que é a diferença. Enquanto as sociedades e as mentalidades não se encontrarem, não se adaptarem, elas vão sempre colocar rótulos às pessoas e impedir que a diversidade nos leve mais longe. Eu sinto-me bem, que só acrescento a cada projeto em que me envolvo ou sou convidada desde que regressei. Que todas as minhas influências, tudo aquilo que vem comigo de Moçambique, de Angola e de Portugal faz de mim uma mais-valia para mim própria e para a sociedade. De Angola e de Moçambique tenho a alegria, tenho o riso, a resolução de problemas quando eles parecem impossíveis. Do meu lado europeu tenho a objetividade, tenho uma forma mais clínica de olhar para as coisas. O que é que eu posso querer mais? Igualdade de oportunidades num ecossistema de comunicação social onde a cunha e os seguidores valem mais do que a experiência e o talento. Por isso a questão de ser negra para mim hoje apenas tem que ver com representatividade e principalmente no país onde eu nasci estou a trabalhar, tal como emigrante regressada à sua terra, para ser reconhecida como sou lá fora -e foi assim que nos conhecemos. Porque nos países a que pertencem o meu pai e a minha mãe eu conquistei tudo, até porque me formei em Portugal. Mas no país onde eu nasci, depois de mais de uma década fora, sinto que nós ainda estamos a anos-luz de olhar para uma mulher portuguesa, filha de africanos, de igual forma que se olha para uma mulher portuguesa filha de transmontanos ou algarvios", explica Magda, num tom calmo, argumentativo, próprio de quem já pensou muito na questão identitária.

Conto a Magda que segui via Facebook o sucesso do programa de TV que teve em Angola e a conversa, de repente, passa um pouco pela questão do peso e até nos rimos por causa do excesso calórico do nosso brunch na cafetaria do LACS, espaço lisboeta de cowork não longe da cervejaria Portugália. E não deixa de me sugerir Fernando Póvoas, seu médico e amigo, e um personal trainer, o Luís Cardoso, que considera "ideal para jornalistas pois tem paciência para quem está sempre ao telemóvel".

Chamava-se Peso Perfeito o reality show que Magda criou a pensar em si. E que foi filmado em Lisboa e Luanda, e passou na cadeia televisiva DSTV, distribuído pela Multichoice, onde o português Nuno Santos, agora na TVI, era diretor de conteúdos internacionais. O programa foi visto também em Moçambique e na África do Sul. Com 1,53 metros e 97 quilos, Magda fazia sucesso como "uma Kardashian gorda", refere a própria, revelando novamente a sua autoconfiança, que por razões de saúde tentou, e conseguiu, perder 23 quilos. "Hoje estou muito melhor comigo própria e o impacto do reality show mostrou-me o que se pode fazer com talento e sem obstáculos."

Após três anos de vida recomeçada em Portugal, com o trabalho muito repartido entre Lisboa e Porto mas com casa na Costa da Caparica ("o mar faz-me falta e ali é o lugar mais perto que consegui da baía de Maputo"), Magda recorda-se bem dos tempos em que tentou o jornalismo em Portugal, com estágios n"A Capital e no Diabo, também na TVI online e o trabalho como redatora na revista Montepio Juvenil. Em Moçambique chegou a ser correspondente do Expresso e depois a colaborar no Sol e no i.

Hoje é cronista da Selfie, depois de um tempo também como comentadora do Big Brother 2020 na TVI, que a tornou conhecida em Portugal, a ponto de ir aos correios no Porto, conta, e a funcionária lhe perguntar se é a menina que aparece na televisão. Novamente risos, que Magda é uma pessoa positiva, cheia de força e de ambição e que acredita que o melhor ainda está por vir, mesmo que estes tempos de pandemia a irritem e assustem.

"Andei na Voz do Operário, apesar de a minha família ser tida como de direita. Depois numa escola pública na Alameda. Acho que havia mais dois ou três negros no liceu, mas a viver no nosso bairro, na Ator Isidoro, éramos os únicos negros. Talvez fosse muito mais fácil nessa altura esta questão de ser negra do que hoje em dia. Acho que a sociedade portuguesa está estranha. Para mim, que vivi muitos anos fora, e que nunca vivi isto na minha adolescência, só mais tarde percebi que profissionalmente não tive alguns acessos, por exemplo ser jornalista, uma vez que nunca passei de estagiária cá, por ser negra, agora eu percebo isso mas na altura era mais naif. Fui coordenadora em Maputo de uma ONG inglesa, à qual continuo ligada, que está em mais de 50 países e trabalhei com ingleses, alemães ou dinamarqueses e a minha performance nunca foi questionada. Não sinto que a questão de ser negra seja um problema. Mas cá, quando regressei em 2017, voltei a visitar redações e está tudo na mesma. É uma pena que esteja na cabeça das pessoas e os meus sobrinhos ainda pouco se vejam representados na TV, como fontes, e o desporto e a música continuem a ser os únicos palcos em que podemos brilhar. Em suma: correr e pular. Apesar de a maioria da minoria que faz televisão serem homens, como o Conguito, Blessing Lumueno e Cláudio Rafael, consegues entender a minha causa, certo? Onde estão as mulheres normais? [Risos]. As outras mulheres são atrizes. Por isso alguma coisa tem de mudar em Portugal. Para mim 2021 vai continuar a ser o ano em que o que me interessa mais é a representatividade do que a minha história de vida. Porque a minha história de vida é uma história feliz, de alguém que vai fazer alguma coisa para que ninguém mais, no futuro, tenha uma história de vida infeliz", diz.

Comentadora no Big Brother

Afinal a panqueca venceu-nos. E Magda acaba por pedir uma embalagem de cartão para levar o muito que sobra. Na mesa dois copos vazios de sumo de laranja, um chocolate quente já meio bebido pela minha convidada e um cappuccino que eu termino. Olha o peso, dizemos um ao outro, entre risos.

Voltando à questão de ser africana, negra e portuguesa, Magda sintetiza: "Eu sou realizada, só não vou permitir ser cancelada. Como dizem os ingleses. Eu tenho todo o direito, tal como estive agora no Big Brother como comentadora, a mostrar o meu profissionalismo, a muito custo. No Twitter tenho cada mais seguidores, sou uma micro-influencer no Instagram, recebo carinho na rua mas o que me aquece o coração é promover a mudança na vida das pessoas. As pessoas gostam da forma como eu defendo a representatividade, que não é de uma forma agressiva, é de uma forma inteligente. Veem-me e simpatizam comigo. Representatividade não tem só que ver com racismo ou ser negro. Tem que ver com ser mulher, com ser homem, tem que ver com todos nós. Tem que ver com o direito de todos nós estarmos representados na sociedade." Revela que essa mudança vai chegar ao mundo digital e, brevemente, vai lançar um curso de comunicação online.

De repente, parece que estou a ver a jornalista portuguesa que há 12 anos, em Maputo, depois de me ter dado boleia, travou o Pajero, abriu o vidro do jipe e disse para o polícia moçambicano que tinha dado ordem de paragem que estava farta de dar dinheiro para gasosa. Uma Magda sem medo.

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