"Se até ao final de abril os idosos estiverem vacinados, venceremos a batalha contra a covid-19"

É matemático, professor e investigador na área da dinâmica de populações, nomeadamente em evolução da propagação das espécies, integra a equipa do Instituto Superior Técnico que desde o início avalia a pandemia. Agora, diz: "Em setembro, poderemos estar do lado seguro da pandemia."

No Instituto Superior Técnico (IST), uma equipa com quatro professores, muitos alunos e liderada pelo presidente Rogério Colaço, tem acompanhado a evolução da pandemia por SARS CoV-2. Henrique Oliveira, matemático, professor e investigador, apaixonado pela vida e pela entropia evolucionária, faz os cálculos para as previsões a curto, médio e longo prazo, João Seixas, físico de altas energias e partículas, professor e investigador no CERN, analisa os números. Na área das análises, Ana Paula Serro, faz a monitorização e controlo do vírus através do programa de análises e de fabrico de zaragatoas, que ela própria coordenou. Pedro Amaral, vice-presidente do IST e professor na área da engenharia dos materiais, avançou com projetos para a produção de viseiras. "As competências da instituição foram postas ao serviço da comunidade", diz Henrique Oliveira, que, um ano depois da pandemia, fala do futuro.

O país começa a desconfinar, mas há o perigo de uma quarta vaga, o que dizem as previsões do IST?

Há o perigo de isso acontecer, mas, neste momento, temos todos os dados na mão para evitar uma quarta vaga. Temos indicadores muito bons para avaliar se os números estão a descontrolar ou não. Se desconfinarmos controladamente duvido que tal aconteça, se acontecer teremos problemas, porque será muito difícil voltar atrás e a um confinamento mais rigoroso. As pessoas estão muito cansadas. O que fizermos até à Páscoa será fundamental.

Se abríssemos todas as escolas e a restauração, como alguns têm pedido, uma quarta vaga seria inevitável até ao fim de abril?

Seria. Sobretudo se abríssemos as escolas de forma ilimitada. E vou explicar porquê. Não é só por haver transmissão assintomática nas escolas, mas pelo facto de, se não abrirmos, mais pais terão de ficar em casa com os filhos. É tão básico quanto isto. Se os pais ficam em casa há menos três a quatro milhões de pessoas a circular na rua por dia e há menos doença. Se tivéssemos preparado o combate e controlo da doença com estratégias inteligentes, que nos permitissem manter sempre os números baixos, pois é este o objetivo em qualquer pandemia, como programas rigorosos de rastreio e de testagem em escolas e em outros setores, fazendo com que a própria população fosse ensinada a usar os testes de rastreio, como a Alemanha faz, teria ficado muito mais barato ao país do que uma semana de confinamento só em impostos e em PIB. Vai ser muito difícil de recuperar esta situação.

Mas essa estratégia de rastreio e de testagem em massa ainda não está a ser aplicada...

É verdade, ainda se está a pensar nesse sistema tanto tempo depois, o que me parece algo difícil de perceber. Temos poucos meios, mas alguns setores da Administração Pública, como não gostam de admitir que há dificuldades, não pedem ajuda à sociedade civil, pensam que é um sintoma de fraqueza, mas não é. É um sintoma de força. O Japão fez isso, pediu ajuda às universidades e aos jovens estudantes para se mobilizarem e reforçarem as equipas de rastreio e hoje têm um programa gigantesco nesta área. A Coreia do Sul também o fez. Temos de perceber para que situações de emergência os nossos meios não são suficientes e tomar decisões nesse sentido.

Vão abrir infantários, creches e primeiro ciclo. O princípio da prudência deveria fazer com que os alunos mais velhos mantivessem mais tempo aulas à distância?

Aceito bem que se abram as creches e os infantários, já não me parece tão acertado abrir a primária até ao 4.º ano, nem sequer o primeiro ciclo até ao 6.º ano. Penso que esta abertura tem de ser muito gradual e muito monitorizada. Temos de ir olhando sempre para os números e se ao fim de 12, 13 ou 14 dias, percebermos que a decisão de abrir escolas, venda ao postigo, a área da estética, mesmo com uso de máscara, está a fazer crescer os números não se pode esperar 15 dias para tomar decisões. Temos de voltar para trás imediatamente.

Diz que o que vai acontecer até à Páscoa é fundamental. Que medidas deveriam ser adotadas?

No meu entender a Páscoa deve ser rigorosamente fechada com restrições muito fortes à travessia entre concelhos para evitar o que aconteceu no Natal. Se isto for feito, a minha previsão é que os números venham a baixar para se poder abrir mais um degrau no desconfinamento logo seguir às férias. Mas há também que reforçar muito a vacinação. Depende da União Europeia, mas deveríamos pressionar para que fossem compradas mais vacinas. A Europa está a ficar para trás relativamente aos outros grandes blocos do mundo, embora defenda que a Europa deveria ter um papel importante no apoio à vacinação para o mundo inteiro. Deveria existir uma política de vacinação global, e por uma razão simples, porque há países que ainda estão mais atrasados no combate ao vírus, que continua a expandir-se, podendo levar ao surgimento de novas variantes imunes às vacinas que temos agora, e assim estaríamos a vacinar a população europeia quase de forma irrelevante. Basta um caso introduzido do exterior para haver uma invasão de uma nova estirpe ainda mais forte.

"O vírus aproveita-se dos erros e cresce brutalmente, para combater um erro temos sempre de dar dois ou três passos atrás."

Portugal é vulnerável pelo envelhecimento da população, se os idosos forem vacinados o mais rápido possível quando atingiremos a imunidade de grupo?

Penso que é fundamental vacinar o maior número de idosos o mais depressa possível. Acredito que se todos os idosos, sobretudo os que têm mais de 70 anos, estiverem todos ou quase todos vacinados até ao final de abril que vamos ganhar a batalha contra esta pandemia e que teremos um verão bastante mais aberto e tranquilo.

Foi apresentado o plano para o desconfinamento, concorda?

Eu defendo um plano de desconfinamento por cinco níveis, embora o que foi apresentado não seja exatamente o que eu pensava que deveria ser feito, acho que é sensato. O que é fundamental, e já o disse, é que cada vez que se dá um passo se monitorize a situação com rigor. Se, por exemplo, tivermos um R(t) com um crescimento de 10% é muito problemático, mas se for da ordem de 1% não tanto, é flutuante. É preciso continuar a olhar para os números. É sempre mais difícil contrariar a progressão da pandemia quando se comete um erro. O vírus aproveita-se dos erros e cresce brutalmente, para combater um erro temos sempre de dar dois ou três passos atrás.

Foi o que aconteceu no Natal...

No Natal tínhamos a situação mais ao menos controlada e cometemos o erro de abrir esse período e de não se fazer nada até ao dia 12 de janeiro, e isso foi avassalador. Se não tivéssemos cometido esse erro, se tivéssemos olhado para os números, diariamente e com muito rigor, teríamos percebido que estavam a crescer e que havia que tomar medidas imediatamente, sem ser necessário chegarmos ao confinamento geral. Numa pandemia, temos de atuar quando os números são muito baixos. A Austrália e a Nova Zelândia perceberam isso muito bem. Aparece um caso ou dois numa cidade e bloqueiam-na durante uma semana para rastrear. Basta isso. As pessoas ficam isoladas e o problema desaparece.

Voltando ao desconfinamento, concorda que seja com medidas nacionais e concelhias?

Completamente, mas quando se faz isso não se pode facilitar as deslocações. Para ter o país todo livre da doença, por vezes, é preciso sacrificar um concelho 15 dias. Mas as medidas aplicadas têm de ser inteligentes, focalizadas, localizadas e muito baseadas na análise dos dados geográficos. E isto consegue-se mesmo com meios escassos. Basta ter uma equipa muito tecnológica com meios informáticos sofisticados que analise os dados da mobilidade e dos contágios. Como digo, é sempre mais barato ter uma equipa de rastreio do que hospitais saturados e mortos a acumularem-se em câmaras frigoríficas. Isto causa muito mais prejuízo ao país e nada mais há a fazer se não um confinamento drástico.

Aprendeu-se o suficiente com este último pico?

Estou completamente convencido que já aprendemos. Se calhar o sucesso da primeira vaga foi contraproducente, as pessoas convenceram-se de que era fácil combater a pandemia. Foi fácil porque se atuou muito cedo, mas quando se atua muito tarde é extremamente difícil controlar a doença. O mês de janeiro provou isso.

"Se na vacinação correr tudo a pleno vapor, chegaremos a setembro com a taxa de imunidade de grupo atingida, 75% da população, mas temos de ser prudentes".

Mas está otimista em relação em verão, o que dizem as previsões?

Estou otimista, mas é um otimismo cauteloso. Já disse que o que se fizer até à Páscoa é fundamental, mas penso que podemos ter um verão mais tranquilo por várias razões. Os números estão realmente a melhorar, há mais imunizados do que supomos, por causa dos assintomáticos que já recuperaram e nunca entraram nas estatísticas, há quase um milhão de vacinados com a primeira dose, e só esta já é muito boa a limitar a doença, as camadas mais idosas já estão a ser vacinadas e depois porque o calor dificulta imenso a transmissão de uma doença respiratória como esta. Isto já se percebeu no verão passado. Todos estes fatores farão com que seja possível haver um verão mais descansado. Aliás, se na vacinação correr tudo a pleno vapor, chegaremos a setembro com a taxa de imunidade de grupo atingida, 75% da população, mas temos de ser prudentes.

O que acha ser mais difícil de gerir agora?

O mais difícil é conseguir gerir o cansaço pandémico. O tempo que falta até à Páscoa é o mais delicado e o mais arriscado. Se falharmos agora é o morrermos na praia, porque estamos mesmo à beira de resolver a situação da pandemia em Portugal.

Está mesmo convencido disso...

Estou convencido disto. Não só eu como a comissão do Instituto Superior Técnico que trabalha na área da covid. Sabemos que é necessário ser prudente no discurso, porque ainda estamos um pouco 'descalços' em relação à nossa capacidade de rastreio e de testagem. E esta componente é importantíssima, mas as nossas previsões indicam que se formos prudentes poderemos chegarmos ao outono com o precipício ultrapassado.

A equipa do IST analisa a evolução da pandemia a curto, médio e longo prazo. Neste momento, é possível estimar o fim da pandemia?

Há muitos fatores que pesam nessa análise. Até agora o trabalho desenvolvido pelo IST nunca esteve longe do acerto nos números que se registaram. O erro foi sempre da ordem dos 10%, o que com previsões a quatro meses é muito baixo - esta margem numa previsão de meteorologia era completamente impossível. Em março do ano passado, o IST previu que se houvesse confinamento geral haveria menos de dois mil mortos na primeira vaga, houve cerca de 1700, a nossa análise estava correta. Em setembro, alertou para uma segunda vaga, que seria forte, e isso aconteceu. No verão, percebemos que havia um grande número de assintomáticos, o que nos assustou muito, pois com o início das aulas e o regresso ao trabalho as barreiras de proteção, por exemplo aos idosos e nos lares, iria quebrar. E foi o que aconteceu também. Esta análise era clara, primeiro pelas equações, depois pelo nível de cumprimento ou de incumprimento das normas que aconteceram no verão, e ainda pela História das pandemias. O matemático também tem de olhar para a História para conseguir obter a modelação para o futuro.

"Se a imunidade tiver uma duração reduzida, de poucos meses, vamos ter ondas todos os anos."

Mas em relação à estabilidade da doença e ao fim da pandemia?

Posso dizer que se espera alguma tranquilidade em relação à doença durante o verão, mas há sempre imponderáveis, uma delas é o aparecimento de novas variantes e a duração da imunidade. Se a imunidade tiver uma duração reduzida, de poucos meses, vamos ter ondas todos os anos. Isso é garantido, porque não conseguiremos erradicar o vírus, como se fez com a varíola. Se deixarmos uma pandemia correr livremente não há país nenhum do mundo que tenha meios para a combater. A doença tem de ser combatida antes, com estratégias rigorosas de rastreio e de testagem, com muitos cuidados a nível laboral e nos transportes públicos, para a situação não alastrar.

Olhando para o futuro como poderemos estar daqui a um ano?

Como cientista e matemático ponho as mãos no fogo em como vamos estar melhor. Se não houvesse vacinação estaríamos numa situação muito difícil, mas a resposta da ciência foi muito rápida e penso que em setembro deste ano não teremos uma situação nada idêntica à de 2020, nem em janeiro do próximo ano em relação a este ano. Não vamos ter. Vamos melhorar significativamente. E acredito que não precisaremos mais de medidas tão musculadas como as que se tiveram de adotar no início de 2021. Temos é de pensar em reprogramar o combate para o futuro e para situações semelhantes, porque a insegurança deixou-nos perturbados. Já se percebeu que deixar seguir e ver o que acontece durante uma pandemia é catastrófico, não há maneira de controlar o vírus quando se atua tarde.

anamafaldainacio@dn.pt

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