Esquerda hesitante em França dá fôlego a aspirações de Marine Le Pen

A pouco mais de um ano das presidenciais, as sondagens são animadoras para a líder da extrema-direita, que poderá vir a beneficiar do fim da frente republicana.

A primeira volta das eleições presidenciais francesas vai decorrer em abril de 2022 e já mexe com a paisagem política. É certo que antes, em junho, os eleitores são chamados à dupla escolha de representantes nas regionais e departamentais, mas as recentes sondagens, em conjunto com as declarações da líder da União Nacional, Marine Le Pen, e a apatia à esquerda fazem com que a base do partido de extrema-direita sonhe com o Palácio do Eliseu, nem que para isso se tenha de moderar o discurso.

Seguindo a nova vocação europeísta do seu homólogo italiano Matteo Salvini, a filha de Jean-Marie anunciou uma mudança de política: "Há que saber escutar e os franceses disseram-nos que querem permanecer no euro e assim faremos", disse quem em 2017 fez campanha pelo contrário. "Quando se tem 40% de intenções de voto, não se tem as mesmas perspetivas do que quando se tem 15%", explica um próximo de Le Pen à RTL.

Antes de mais, Marine Le Pen beneficia de um presidente "enfraquecido" e que cortou com a esquerda, como diz o vereador de Paris Hermano Sanches (ver entrevista abaixo). Ainda assim, segundo a mais recente sondagem Ipsos, a sua popularidade subiu seis pontos, estando agora em 41%, um valor semelhante aos primeiros meses de mandato. No estudo da Harris Interactive para o L"Opinion, Macron vence Le Pen na segunda volta com 53% contra 47%. Mas acabam aí os bons sinais para o chefe de estado. A chamada frente republicana, que criou um cordão sanitário pela primeira vez em 2002 no duelo de Jacques Chirac com Jean-Marie Le Pen, está em vias de acabar. Por um lado, é o que as mesmas sondagens indicam - um em cada três eleitores de esquerda não votarão a favor de Macron -, por outro, os dirigentes à esquerda não a advogam, e por fim é o que muitos eleitores disseram abertamente ao Libération. "Já barrei uma vez, desta vez acabou", resumiu uma eleitora. Este novo estado de espírito pode abrir espaço para um resultado imprevisível na segunda volta.

Segundo os dados revelados pelo L"Opinion, no cenário de segunda volta entre Macron e Le Pen, se o candidato do centro-direita for Xavier Bertrand, os seus eleitores irão abster-se (41%) ou votar Le Pen (21%); se a candidata do PS for Anne Hidalgo metade dos seus votantes na primeira volta não irão à segunda e 9% deles votará na líder da União Nacional; e quanto aos eleitores de Jean-Luc Mélenchon, o líder da França Insubmissa, de esquerda, 52% opta pela ausência e 24% pelo voto em Le Pen - um dos dados mais surpreendentes. Só os eleitores ecologistas, que votariam em Yannick Jadot na primeira volta, escolheriam Macron e por uma margem mínima (51%).

O estudo de opinião foi feito no pressuposto de que Xavier Bertrand ou Válerie Pécresse serão os candidatos de Os Republicanos e Anne Hidalgo do PS, o que está longe de se confirmar. O partido de centro-direita chora a condenação recente de Nicolas Sarkozy por corrupção, enquanto os socialistas esperam pela decisão da autarca de Paris, embora a sondagem referida não seja motivadora (6% ou 7% consoante o cenário do candidato de Os Republicanos).

"Eu não quero a extrema-direita no nosso país. Isso seria o caos, a violência", disse a socialista numa entrevista ao Le Parisien, na qual se destacou como uma das poucas vozes a declarar que fará sempre barragem a Le Pen. Já o líder do seu partido, Olivier Faure, responsabiliza Macron por ter "banalizado" a líder da União Nacional e a ter considerado como a "única competidora". Mélenchon, como em 2017, não apelará ao voto em Macron; e Phillippe Martinez, o secretário-geral da CGT, a principal central sindical, recusa-se a falar do assunto.

Entre silêncios, hesitações e ausências, quem lucra é Marine Le Pen, que aos 52 anos se candidata pela terceira vez, confiante. "Penso que vou ganhar as eleições", disse à BFMTV. À fidelidade da base eleitoral (entre 84% e 90% dos eleitores de 2017 voltam a escolhê-la), a mulher que continua a prometer uma política migratória dura e guerra ao islamismo combina esse lado autoritário (para 79% dos franceses) com a coragem (58%)e agora uma moderação na mensagem para tentar atrair eleitorado. "Quero tranquilizar os franceses". Para já, nesse ponto tem um longo caminho a percorrer, porque só 29% a crê tranquilizadora.

Hermano Sanches Ruivo: "Há vontade em passar uma mensagem de nornalidade"

Vereador da Câmara de Paris pelo PS diz que a líder da União Nacional lucra com a fraqueza de Macron.

As sondagens apontam para uma grande proximidade entre o presidente francês e a líder da União Nacional. É mais pela popularidade de Le Pen ou a impopularidade de Macron?

É mais uma terceira via, não haver nesta altura um nome ou dois que sobressaiam como hipótese. E é claramente a fraqueza do presidente Macron. A esperança depositada nele por uma parte da esquerda claramente não viu resultados, daí que se diga ser um presidente mais afeto à direita. Por outro lado, não acho que a sua base tenha baixado tanto quanto isso. A base de Marine Le Pen continua a aumentar ligeiramente, mas não vejo esses números a aumentarem de forma consequente. E de facto, também por causa da pandemia, as pessoas estão em muito mais dificuldades e não há forma de se expressar, já não há coletes amarelos, pelo que a melhor forma será pelo voto.

As divisões da esquerda em relação a Le Pen resultam de uma normalização do seu discurso ou a moderação do mesmo?

O aumento da base de Le Pen é concreto, em grande parte, pela desdiabolização da Frente Nacional, agora União Nacional. E Marine Le Pen compreendeu que tem de ter uma visão diferente, inclusive sobre a Europa. E sobretudo está a beneficiar, tal como Macron beneficiou da fraqueza da esquerda para ser eleito, da fragilidade dos partidos de esquerda e da direita tradicionais. Há claramente uma vontade de passar uma mensagem de normalidade, mas já disse que a primeira coisa que faria era um referendo sobre a imigração.

A sua maire vai ser candidata?

Anne Hidalgo disse que daria uma resposta em setembro. A ideia é participar muito ativamente e se possível ser candidata. A grande problemática é saber qual a posição de Mélenchon e qual é a posição dos Verdes, que são parceiros a tempo parcial, em função dos resultados das eleições regionais. Não há solução sem união e as regionais vão ser um teste.

cesar.avo@dn.pt

Mais Notícias

Outras Notícias GMG