Livreiro de Bissau à espera de Marcelo

Se tivesse de recomendar um lugar de Bissau para Marcelo Rebelo de Sousa visitar nos próximos dias seria a livraria que Miguel Nunes tem junto ao Hotel Coimbra, também propriedade da família, que há mais de 90 anos escolheu a Guiné para viver, apesar de as raízes estarem em Cadafaz, uma aldeia do concelho de Góis. São milhares e milhares de livros, na sua esmagadora maioria em português, que na verdade se espalham pelas próprias salas do hotel, desrespeitando eventuais fronteiras que Miguel alguma vez tivesse pensado por ali criar.

Com sorte, o Presidente português encontrará uma edição de Os Maias, provavelmente também uns Lusíadas e não será de descartar algum romance de José Saramago ou de António Lobo Antunes. A temática da Guiné-Bissau também não está esquecida, claro, e quando visitei a livraria lá vi à venda um volume sobre as cartas de Amílcar Cabral a Maria Helena e História(s) da Guiné Portuguesa, da autoria de Mário Beja Santos. Não faltam ainda os manuais de Direito, que o professor Marcelo folheará como velhos conhecidos mas que para muitos estudantes guineenses são verdadeiros tesouros, cheios das novidades que ambicionam aprender.

Escrevi sobre Miguel Nunes, o livreiro de Bissau, no DN no verão de 2018. Na altura, o licenciado em História da Arte pela Universidade de Coimbra esclareceu-me que só conversava comigo sobre a presença da família ali há quase um século porque me tinha visto tão apaixonado pelos livros como ele. E uns tempos depois percebi como o dono do Hotel Coimbra não gosta mesmo nada de protagonismo: uma reportagem no Financial Times contava a mesma história que eu tinha publicado mas a foto era da fachada da casa rosada e não uma como a que o Leonardo Negrão fez, com Miguel a mostrar os livros nas prateleiras. O jornal inglês não o tinha convencido a falar.

Nunca ouvi o livreiro, humilde como é, reivindicar o estatuto de grande promotor da língua portuguesa na Guiné-Bissau, mas posso dizer que é isso mesmo aquilo que ele é. Até o facto de se tratar de velhas edições, chegadas em contentores de Portugal enviados por alfarrabistas amigos, tem um papel especial de defesa do português, pois os preços em francos CFA são assim mais acessíveis.

Julgo não cometer grande inconfidência ao dizer que o herdeiro do trono de Portugal, D. Duarte de Bragança, é hóspede com alguma regularidade do Hotel Coimbra e, portanto, conhecedor também da livraria. Que o Presidente da República imite pois o candidato a rei e passeie um pouco também pelos volumes tão carinhosamente tratados pelo Miguel e pelo Uri Baldé (não sei se lá trabalha ainda, mas foi ele o jovem guineense que me mostrou o tal livro a contar a paixão do fundador do PAIGC pela colega portuguesa que conheceu no Instituto Superior de Agronomia). E se Marcelo Rebelo de Sousa for acompanhado pelo presidente guineense, Umaro Sissoco Embaló, ainda melhor. Que saiam de lá os dois carregados de livros em português. Recomendo a ambos o das cartas de Amílcar a Maria Helena.

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