O mundo não precisa de professores, mas de testemunhas

Apaziguar as emoções quando a instabilidade domina a realidade política e económica é uma espécie de remédio em época de férias. Neste agosto quente e marcado por uma pandemia, que nunca imaginámos viver nas nossas vidas, apaziguar a alma pode fazer-se através de um mergulho no rio ou no mar, mas também através dos livros.

Um homem, eleito Personalidade do Ano pela Time, inspirou a obra com o título A Liderança segundo Francisco, no qual me revejo nestas férias e cuja leitura recomendo. Retrata a vida de um homem que nos cativa e emociona, independentemente da nossa religião. Francisco é, sem dúvida, um dos líderes mais visíveis e influentes do mundo e que, à partida, virá a Portugal para as jornadas mundiais da juventude, em 2023.

Desde escolher viver num apartamento simples em vez de ocupar o palácio papal até lavar os pés de homens e mulheres num centro de detenção de jovens, o Papa Francisco contraria muitos dos comportamentos dos chamados líderes modernos e, a meu ver, tem-nos inspirado a todos. Sobre lavar os pés disse: "Este ato é um símbolo, é um sinal. A lavagem dos pés significa "estou ao vosso serviço". Enquanto sacerdote e bispo, tenho de vos servir." E servir os outros e um propósito é algo que se tem vindo a perder, mas é um sentido de vida e de missão que, sobretudo nesta conjuntura, precisa de ser praticado.

Visivelmente abalado pelo impacto que a pandemia está a ter na sociedade e na economia, quer em Itália quer no mundo, o Papa continua a dar esperança ao mundo, inspirando os outros pela liderança. As suas palavras e ações revelam preocupações para com os outros; vale a pena seguir os seus passos para aprendermos todos a ser melhores líderes. A liderança não é uma disciplina só de administradores, diretores-gerais ou outros altos executivos. A liderança deve ser uma competência de todos nós, com aplicação no trabalho, na sociedade, na polis, em casa e na família alargada.

Identifico-me com o Papa Francisco na sua liderança pelo exemplo. Acredito que um mundo em permanente transformação, e em constante incerteza, requer líderes que valorizem a necessidade humana e o sentido da vida.

Há muito que liderar deixou de ser apenas e só obter resultados e colocar as tabelas de Excel no "verde". Há muito que liderar deixou de ser apenas e só sinónimo de pavonear títulos e cargos ou usar as empresas em proveito próprio. Quem ainda permanecer preso nesse velho paradigma terá vida curta como líder, nesta nova era de transformação e de exigência. A pandemia está a colocar-nos perante novos desafios, muitos deles que começam a estar envoltos em dramas sociais, e vai exigir de nós uma mente e um coração mais abertos, sem nunca abdicar da razão que nos deve nortear enquanto líderes.

O livro sobre o qual aqui escrevo tem a graça de ter sido escrito por um tubarão capitalista mas que, curiosamente, é um ex-seminarista jesuíta. Tal como o Papa Francisco, fez o caminho das pedras num seminário. Chris Lowney, o autor, desempenhou o cargo de diretor-geral na J.P. Morgan & Co, em três continentes (Nova Iorque, Tóquio, Singapura e Londres) até deixar a empresa em 2001. Hoje é vice-presidente do conselho da CommonSpirit Health, o maior sistema de saúde sem fins lucrativos dos EUA, com cerca de 29 mil milhões de dólares de receita anual. Dá palestras sobre liderança, ética nos negócios e tomada de decisão em duas dúzias de países.

Lowney aprendeu que o mundo precisa de novos líderes. Na obra, partilha várias frases do Papa Francisco. Uma foi proferida num discurso na Praça de São Pedro em maio de 2013: "O mundo atual tem grande carência de testemunhas, não tanto de professores, mas de testemunhas. Não se trata tanto de falar, mas de comunicar através da nossa vida."

Jornalista

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