Os EUA

A eleição do presidente e da vice-presidente dos EUA não interessou profundamente apenas ao povo americano, mas também o globalismo da interdependência, em que se destaca a solidariedade dos EUA com a Europa, esta na sua forma atual de União Europeia.

No sistema político norte-americano existe um elemento que serve de ponto de partida para se conseguir compreender a sua definição de "conjuntura", e que é a importância do presidencialismo: por regra, é o presidente que assumirá a perceção em que as políticas internacionais serão condicionadas, com exceções de momentos considerados de presidências fracas, em que o Congresso assume a gravidade do poder. A regra parece levar a que a maioria das políticas e doutrinas internacionais dos EUA recebam o nome do presidente que as definiu e pôs em execução.

Foi assim que o mandato de Eisenhower, de 1953 a 1961, levou o antigo comandante-chefe da batalha pela libertação da Europa a presidir ao frequentemente considerado o ponto mais alto do poderio americano, apoiando intervenções externas de importância para a ordem internacional; Kennedy, barbaramente assassinado, proclamara que a fronteira da América estava onde estivesse a fronteira da liberdade; o presidente Johnson anuncia a Grande Sociedade, objeto da luta pelo desenvolvimento; Nixon considerou que o acordo do país mais rico (EUA) não deveria estar em desacordo com o mais pobre (China); Regan decidiu repor a Grande Sociedade do seu país no mundo; e Bush colocou no primeiro plano a questão do destino manifesto e do Pacífico.
Durante o período de reconstrução da Europa, no fim da guerra de 1939-1945, a cooperação teve a intervenção do Plano Marshall e da NATO, mas em 1977 Raymond Aron concluía que "não existe diálogo global entre a Europa como uma entidade e os Estados Unidos".

Contudo, nunca previu a situação atual, que levou ao facto inquietante de Donald Trump, quando vencedor claro na eleição para presidente, rapidamente se sentiu chamado à definição da relação com os Estados, quer da América Latina, quer da União Europeia, quer do Pacifico, especialmente com a China, e interventor, nem sempre com o respeito devido a colaboradores, adversários, cientistas, mulheres; a NATO e a União Europeia viram afetada a confiança, na ONU declarou não aceitar as cooperações multilaterais, abandonou o Tratado de Paris sobre a limitação da emissão de gases, não hesitou em ofender cientistas, que enfrentam a crise mundial, abandonou a Organização Mundial da Saúde e deixou em liberdade o ataque da pandemia: ficou notada a mortalidade numerosa no passado presidencial de Donald Trump.

Uma das eleitoras, que votou democraticamente neste ato, explicou à opinião pública que não teria mudado se Trump tivesse assumido as suas responsabilidades sobre a covid-19, acrescentando "as suas posições contra os emigrantes ou o clima, a sua política orçamental e, sobretudo, a sua personalidade".

Os líderes europeus prontamente felicitaram Joe Biden e, além de evidenciarem a confiança com o regresso de um estadista reconhecido, reforçaram o apreço da atitude que o eleito tomava nestas palavras: "O objetivo da nossa política não é a guerra total e sem fim. E não é alimentar as chamas do conflito, é resolver problemas." Quanto à importância da população apenas recentemente americana, contribuiu para o triunfo democrático o facto de concorrer à vice-presidência uma mulher, Kamala Harris, que recusou ser considerada socialista dizendo: "Uma perspetiva socialista ou uma perspetiva progressista? É a perspetiva de uma mulher que cresceu com a crença negra na América, que foi procuradora, cuja mãe chegou da Índia com a idade de 19 anos."

A resposta do vencido republicano Trump é de fidelidade ao modelo de Estado espetáculo que sempre assumiu. Há, porém, uma declaração pública que tem de ser avaliada pelos responsáveis, não apenas americanos, mas também europeus, no que toca à rutura do Ocidente por esta eleição. O general Ben Hodges, ex-comandante das forças dos EUA na Europa, antecipou em 2018 que os "EUA e a China" estariam em guerra dentro de 15 anos.

À data das notícias sobre a recente eleição americana, o general Nick Carter, chefe das Forças Armadas Britânicas, declarou que "a escalada das tensões regionais é um terreno fértil para erros de cálculo que nos põem mais perto de um conflito generalizado... podemos assistir a uma escalada que resulte em erros de cálculo, e o que estou a dizer é que o risco existe e temos de estar conscientes desse risco".

A experiência e os valores de Joe Biden apontam para uma necessária ética internacional que reponha a unidade do povo americano e o dever da cooperação internacional em confiança e paz.

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