Exclusivo Situações tremendas, pessoas fantásticas

Por ser um dos rituais mediáticos a que todos já assistimos mais vezes em ficções do que no mundo, há algo vagamente irreal na conferência de imprensa de emergência, um evento que é um curioso meio-termo entre a raridade e o lugar-comum. Líderes políticos e peritos técnicos aproximam-se do pódio com expressões solenes, bombardeados por flashes. Os líderes políticos fazem um diagnóstico sóbrio da crise, falam de "medidas", asseguram a eficiência presente e futura de vários processos em curso, adoptam uma retórica de confiança e estabilidade. Os peritos costumam vir de seguida, recitando números e acrónimos num tom mais prático. Um deles pode ser destacado para fazer pedagogia coloquial, e tem autorização tácita para recorrer a um vocabulário diferente, que não exclui a palavra "beijinhos". "Informar" é o principal propósito, mas "tranquilizar" é um forte e compreensível concorrente, e não é um exagero afirmar que ambas as intenções são muito mais fáceis de concretizar quando quem fala consegue pronunciar polissílabos, transmitir plausivelmente a ideia de que o seu significado não é um profundo mistério e convencer-nos de que faz parte do mesmo mundo que nós.

Nos últimos dias, à medida que as coisas deixaram gradualmente de ser como eram para passarem a ser como são, o ritual foi encenado em vários países europeus, com diferentes graus de "sucesso", na definição mais superficial do termo (mais elogios na Dinamarca, mais críticas em Espanha, etc.). Em Portugal, o consenso geral parece ter sido que, salvo as habituais vogais devoradas pelo Primeiro-ministro, um lábio superior transpirado, e um ou outro espasmo de microexasperação por parte da directora da Direcção-Geral da Saúde e da ministra da Saúde, o ritual podia ter corrido bem pior. Com maiores ou menores inércias locais, incompetências pontuais e interpretações sectárias, há um intervalo de normalidade que não foi ultrapassado.

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