Mas, e se?

O mês de novembro não tinha sido fácil nem para ela nem para ele. Os dias da Web Summit a desaparecerem assim que cada um entrou na sua casa, primeiro ela, dois dias depois ele, milhares de quilómetros de distância de Lisboa e um do outro. Continuaram a ver-se nas músicas que ouviam um do outro no Spotify, sempre a dúvida pouco espessa sobre a intenção deste ou daquele título. Mas cada um à sua maneira se viu esmagado dentro da realidade que a luz de Lisboa apagara naqueles dois dias.

Ela foi forçada a definir-se. Andas estranha nos últimos tempos leio nos teus olhos, sinto nos teus beijos, disse-lhe o ele que não era o outro, primeiro com esperança, depois com raiva e depois não disse, ficou o silêncio remoído do ressentimento. Ela sabia que não haver uma razão para sair não era uma razão para ficar, mas tinha ido ficando, tinham ido ficando talvez, porque a inércia é sempre plural na base, mesmo quando singular na estrema aparente.

Não lhe apetecia voltar para casa, os dias escuros a meio da tarde, a longa noite até conseguir adormecer. Mas também não lhe apetecia ficar no escritório, ou ir para outro lado que fosse. Refugiava-se no pequeno ateliê no sótão onde fazia joias em prata.

E ele a forçar-se para não se definir. A app que ia inventar não ia a lado nenhum e muito menos a relação que tinha, ou onde estava, ou donde não saía. Nem uma coisa nem outra tinham corrido mal, parecia tudo bem, como um prato elogiado por todos mas de que o cozinheiro não gosta, ou está demasiado constipado para que lhe saiba a alguma coisa ou sequer querer provar.

Ela tinha-lhe dito, quando se despediram, que já não sabia onde era a casa. Mas logo nesse interminável novembro tinha começado a perceber onde não era. E já não era ali, se quisesse olhar para as coisas com olhos de decidir. Mas não queria decidir, passava o dia a decidir, era mais fácil decidir tudo o resto. Mas não era só isso, a tristeza era só melancolia, a dor mágoa, o ressentimento um certo desconforto ainda sem nome. Talvez não fosse de decidir. Mas os nomes chegam mais rápido do que se espera. E quando as coisas passam a ter nome, os sentimentos rótulos, pouco mais há a fazer.

Nem ela nem ele queriam mudar o que fosse pela promessa do outro; sabiam bem que nem Lisboa, nem aquele sexo, nem as conversas que encaixam como moléculas, nem o olhar dela no dele e o dele no dela sobreviveriam ao melhor quotidiano, à realidade que tomaria o espaço e o tempo destas. Mas, e se sobrevivessem?

Passou o Natal e o fim de ano, ela em casal no norte de Itália num chalet de uns amigos dele, do outro ele que não é o outro, o tempo no quarto a chorar, não é nada, deve ser uma alergia às lentes, as gargalhadas na sala ainda mais insuportáveis do que no fim de ano anterior; ele no apartamento dele, a pensar nela, a tentar ler sem ler, no scroll infinito, tentando perceber onde andaria ela, com quem, a pensar o quê; se ela pensaria ou não nele; porque não tocava o Spotify dela há cinco dias.

Foi no início de janeiro, quase em simultâneo, que não quiseram esperar por Lisboa. Ela enviou-lhe uma mensagem que ele não recebeu. Serão anos ela a dizer que sim e ele a dizer que não recebeu nada? Anos a voltarem a este quase desencontro, a este momento fundacional que um dia perderá o seu efeito reparador e será uma memória dura, até por fim deixar mesmo de ser uma memória? E quantos anos? Todos ou apenas alguns?

Na mensagem dele apenas o print de um voo para Turim e uma data em março. Havia uma conferência de tecnologia, seria fácil para ambos estarem lá, ou poderem estar lá. E Turim, porque era equidistante de onde viviam e porque no dia em que se conheceram estavam ambos a terminar o The Twenty Days of Turin, onde Giorgio de Maria em 1977 tinha adivinhado as redes sociais e o mundo que havia de vir.

Mas agora a vida estava toda cancelada, cada um fechado na casa de onde não fugiu a tempo, presos numa quarentena incerta e na dúvida entre esperar que tudo passe para que possam ter Lisboa, ou trazer a conversa de dentro de cada uma das cabeças para a ponta dos dedos, uma conversa que jamais parará porque movida pela certeza da resposta àquele e se.

Advogado

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