A Grande Gripe (3)

Morria-se em colapso, às vezes subitamente, outras com cruciantes hemorragias pulmonares, o que ainda mais atormentava os espíritos.

Sem conseguirem debelar as causas da epidemia, os médicos avançavam apenas noções vagas sobre elementos agravantes, como migrações militares, movimentações populares, agrícolas, balneárias e navais, aludindo ainda aos movimentos dos recrutas, às feiras e às peregrinações, aos trabalhos nas vindimas, às idas a praias e a estâncias termais, à exportação e à importação de mercadorias através dos portos. A isso acresciam outros factores: nos Estados Unidos, por exemplo, a gripe irrompeu fulgurante numa altura em que dezenas de milhares de médicos e enfermeiras estavam ausentes, mobilizados para a guerra. E o ajuntamento das tropas prontas para entrar em combate potenciou, de forma inegável, a difusão da doença, bastando referir que em certos pontos de embarque, como Hoboken, em Nova Jérsia, por onde passavam cerca de 300 mil soldados por mês, a taxa de mortalidade pela pneumónica atingiu o impressionante valor de 20%.

Havia, de facto, a consciência clara de que os ajuntamentos facilitavam a difusão da doença. O problema é que a epidemia levava à aproximação das pessoas (v.g. dos familiares aos doentes) e, nesse sentido, o contexto social em que aquela se movia era, ele próprio, um agente disseminador. Em Espanha, a concentração de pessoas por ocasião da festa da Virgem de Balme semeou a gripe numa região extensa, a partir de focos epidémicos situados na zona de Valência; em Madrid, a trasladação de Cristo de la Salud para a sua nova capela, cerimónia a que acorreram milhares de fiéis de todas as condições e classes sociais, proporcionou um "democrático intercâmbio de germes", na expressão irónica da historiadora Beatriz Dávila. Na Índia, o percurso da doença, iniciado em Bombaim, acompanhou claramente as vias ferroviárias, sendo poupadas as zonas mais distantes do caminho-de-ferro, enquanto na África do Sul a gripe foi detectada pela primeira vez na área do porto de Durban. Ao que parece, a doença foi levada para a Argentina e para o Brasil a bordo de um navio espanhol, tendo a segunda vaga da epidemia, muito mais mortífera do que a primeira, sido transportada de um navio saído de Lisboa, o Demarara, que chegou ao Rio de Janeiro em Setembro de 1918, e pelo Reina Victoria Eugenia, que aportou a Buenos Aires a 26 desse mês. Aliás, na Europa, a segunda vaga gripal foi detectada em Agosto de 1918, segundo dizem, na zona portuária de Brest, e um dos principais pontos de localização da gripe foi Freetown, na Serra Leoa, o mais importante porto da África Ocidental.

Os efeitos eram terríveis. Morria-se em colapso, às vezes subitamente, outras com cruciantes hemorragias pulmonares, o que ainda mais atormentava os espíritos, dado que as vítimas eram, na esmagadora maioria, jovens na plenitude das suas faculdades físicas e mentais. E morria-se novo: em 1920, 70% dos que faleceram tinham menos de 60 anos e, dentro desse grupo, 43% tinham menos de 15. Em Kiev, uma adolescente de 14 anos anotaria no seu diário, desolada: "É especialmente triste quando alguém jovem morre; os velhos tiveram a sua época; mas aqueles estão ainda no começo da vida." Por sua vez, um rapaz de Boston escreveria, em Outubro de 1918: "Percebi que a vida não é um eterno presente, e que até o amanhã fará parte do passado, e que, apesar de todos os dias e todos os anos que irei viver, também um dia morrerei."

Para a propagação da doença contribuíram, como já se disse, diversos factores: os movimentos dos soldados; a atitude imprevidente das autoridades militares ao concederem licenças aos recrutas para regressarem às suas terras; a concentração de pessoas nas feiras e romarias de Agosto e Setembro; a deslocação de trabalhadores rurais na época das vindimas bem como, quanto aos estratos sociais mais elevados, dos veraneantes nas estações balneares. Mas o factor mais decisivo terá sido, porventura, a falta de resposta das autoridades sanitárias: a Austrália foi dos raros lugares onde aquelas actuaram de forma eficaz, o que talvez explique a mortalidade relativamente reduzida que aí se registou. Em Portugal (e, mais concretamente, em Lisboa), pelo contrário, prevaleceu o improviso: alguns doentes, gravemente enfermos, chegaram a ser transportados em sidecars, expostos ao frio e ao vento, o mesmo sucedendo com os que eram levados em camiões do Exército, sem cobertura, nas noites de Outubro e Novembro. "A 'cruz de pau' foi o remate de muitos desses transportes", concluiu um médico no seu relatório.

No Hospital Militar de Campolide, um clínico disse ter assistido "ao facto inacreditável e marroquino de serem chamadas a Lisboa forças da província, vindas de focos epidémicos gravíssimos". Em muitas ocasiões, recorreu-se ao encarniçamento terapêutico e a um excesso de medicação - ao uso da metralha toda, na gíria médica da altura -, com efeitos contraproducentes e catastróficos. Alguns pormenores são elucidativos do modo rudimentar e atabalhoado como a sociedade portuguesa respondeu a esta praga: a Comissão Central dos Socorros às Vítimas das Epidemias, que veio a ser presidida por Ricardo Jorge, só se constituiu em Novembro de 1918, quando a pior fase da epidemia tinha passado. Em Outubro desse ano, a revista Medicina Contemporânea garantia, com um optimismo totalmente infundado, que, "pelas informações recebidas, sabemos que no geral a doença não reveste gravidade de maior". Alguns médicos aconselhavam aos doentes a simples ingestão de chá, café ou álcool, e houve até quem sugerisse retirar da circulação as notas de tostão, para evitar o contágio. Outros ainda - e não apenas em Portugal - optaram por respeitar o curso natural da doença (vis medicatrix naturæ), controlando apenas a febre e sujeitando o doente a repouso e dieta adequados. No Brasil, acreditava-se nos poderes curativos do alho, da cebola, da canela e, em especial, do limão. Adoptaram-se medidas inúteis, como a desinfecção das ruas com cal ou com produtos desadequados, como folhas de eucalipto ou alcatrão, uma prática que remontava aos tempos das pestes medievais, quando os médicos recomendavam que se queimassem ervas aromáticas nas ruas, convictos de que a "corrupção do ar" era o principal agente transmissor da doença.

Nuno Santos

Se uns se fechavam em casa, numa tentativa desesperada de fugir da "corrupção do ar", outros fechavam os olhos à realidade, chegando a negar a existência de uma pandemia global. No Brasil, o secretário do Interior do estado da Bahia descartou qualquer possibilidade de existir uma epidemia de gripe em São Salvador, argumentando que, caso tivesse ocorrido algo de anormal, já teria sido avisado pelas autoridades sanitárias, pelo que não acreditava na "devastação anunciada" na imprensa oposicionista. No Rio de Janeiro, responsáveis pela saúde pública diziam, revoltados, que a censura imposta pelos militares muito contribuiu para a propagação da doença. Em Espanha, as autoridades de Pamplona ocultaram a existência da epidemia, enquanto o inspector-geral da Saúde Pública optou pelo negacionismo, afirmando que tinham sido turistas estrangeiros a disseminar a gripe pelas ruas de Madrid, um município cujos autarcas se vangloriavam de regar as ruas com seis mil frascos de desinfectante por dia, uma medida de duvidosa eficácia. Na Alemanha, por razões ligadas à guerra, as autoridades do Reich impuseram, desde Janeiro de 1918, uma censura draconiana às estatísticas das doenças infecciosas e só a partir de Março começaram a circular notícias esparsas sobre a doença que se aproximava.

Ainda que tal não corresponda à verdade, o certo é que a ideia de que a doença tivera origem em Espanha acabou por correr mundo: na Rússia, o Pravda noticiava "Ispanka [a espanhola] está entre nós", apesar de os médicos hispânicos tudo fazerem para mostrar que a fonte da doença encontrava-se, isso sim, no longínquo Turquemenistão. Mas, passada a fase dos nacionalismos, em que vários países se acusaram entre si sobre a origem da epidemia, acabou por se gerar uma onda de cooperação sem precedentes a nível planetário. "Hoje em dia, todas as nações espirram como se fossem uma só", escreveu certeiramente um diário de Atenas, enquanto a Cruz Vermelha dos Estados Unidos fazia uma doação de 125 mil dólares à Suíça e enviava médicos, enfermeiras e fármacos para Portugal. Uma missão brasileira deslocou-se a França, ainda que todos os que a integravam tenham adoecido na viagem e quatro tenham morrido a bordo. Em Madrid, o embaixador da Alemanha ofereceu o préstimo de todos os médicos daquele país que se encontrassem nos navios ao largo da costa espanhola. E, numa frase notável, o famoso bacteriologista August von Wassermann proclamou, lapidarmente: "Para mim, não existem alemães nem ingleses - só homens que sofrem e têm de ser ajudados."

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