O pós-Netanyahu

Foi só por um voto que a nova coligação governamental em Israel passou no Parlamento e foi só por um voto que se confirmou o fim dos 12 anos de Benjamin Netanyahu como primeiro-ministro, uma eternidade para os padrões do Estado judaico: nomes míticos como Golda Meir, Yithzak Rabin ou Ariel Sharon não ocuparam o cargo mais de cinco/seis anos, seguidos ou intercalados. A longevidade de Netanyahu ainda é mais impressionante se tivermos em conta que entre 1996 e 1999 tinha já chefiado o governo. Os seus anos no poder, somados, batem até os de David Ben Gurion, o fundador, em 1948, do moderno Israel.

Não falta agora quem festeje o fim da era Netanyahu dentro e fora de Israel. Aliás, o principal cimento da aliança que junta oito partidos, que vão da direita nacionalista à esquerda trabalhista e ainda inclui um inédito partido árabe, é mesmo o sentimento de repulsa pela forma como o líder do Likud, o partido que detém um quarto dos assentos no Knesset, se perpetuava como primeiro-ministro eleições após eleições. Em parte, o desejo de dar margem à justiça para investigar até ao fim suspeitas de corrupção pode também ter ajudado a construir esta coligação, que terá dois primeiros-ministros: nos dois anos iniciais da legislatura, Naftali Bennet, e em setembro de 2023 Yair Lapid, o centrista que até lidera o maior partido da aliança.

Sobretudo para os que celebram a partir do exterior, muitas vezes só por serem anti-Netanyahu e nem sequer conhecerem o nome ou o pensamento dos seus rivais, cuidado com as expectativas. A haver novidades nos próximos tempos na linha de ação do governo israelita, será muito mais em termos de gestão da economia, lidando com o elevado custo de vida que tantos protestos costuma gerar. Mesmo o partido árabe envolvido terá como prioridade conseguir mais generosidade do orçamento público para as cidades e aldeias onde vive a maior parte dos 20% de israelitas que são árabes (muçulmanos, cristãos e drusos). E nessa matéria os outros parceiros de governo têm interesse em participar, mais não seja pela forma como o mais recente conflito com o Hamas teve impacto dentro das fronteiras oficiais de Israel.

Sobre a questão palestiniana propriamente dita, que em regra condiciona qualquer análise do que se passa em Israel, há temas quentes a gerir nos próximos tempos, como a decisão final dos tribunais sobre famílias a ser desalojadas em Jerusalém Oriental, mas não se espere uma renovada relação com a Autoridade Palestiniana, que controla a Cisjordânia, ou uma abordagem diferente com o Hamas, que domina a Faixa de Gaza. Há hoje um consenso alargado em Israel que negociar com um campo palestiniano dividido e cada vez mais refém do extremismo do Hamas nada traria e arriscava-se até a criar fortes tensões intra-israelitas. Quando muito, e sobretudo por nos Estados Unidos Joe Biden ter substituído Donald Trump, o novo governo israelita pode ser levado a travar a expansão dos colonatos judeus na Cisjordânia. A mão dura contra o Hamas manter-se-á certamente, até porque Benny Gantz transita como ministro da Defesa do governo de Netanyahu para o de Bennett. O presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmud Abbas, já deixou claro não ter grandes expectativas, e não me parece que esteja só a tentar algum tipo de resposta para a reivindicação de um Estado palestiniano.

Em termos de política regional, a normalização com os vizinhos árabes será para prosseguir, assim como, em paralelo, a vigilância sobre os planos nucleares do Irão. É uma estratégia bem definida, que não tinha só Netanyahu como defensor.

Novidade sim, e aí admito expectativa, poderá vir da forma como Netanyahu se comporta enquanto líder da oposição. É errado dar por finda a sua carreira, afinal lidera o maior partido do país e só por um voto caiu.

Será assim a democracia israelita a funcionar, com toda a sua complexidade, gostem ou não os detratores do país. Esta agora até aumentou, com os partidos árabes a passarem a ter de ser tidos em conta nas soluções de governo.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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