"Estamos perante uma nova guerra fria que integra pela primeira vez a gestão da ameaça sanitária"

Professor emérito de História da Saúde na Escola de Estudos Superiores de Saúde Rennes & Sorbonne-Paris-Cité, Zylberman diz que o mundo enfrenta "três crises: sanitária, económica e geopolítica".

"Se hoje olhamos para as epidemias do passado é antes de mais porque nos sentimos desamparados face à covid-19". Para o especialista de história das epidemias Patrick Zylberman, da "peste negra" à "gripe espanhola", da SARS à MERS, as grandes vagas de doenças infecciosas estão longe de ser comparáveis à situação atual "inédita", segundo o professor, face a três crises simultâneas: sanitária, económica e geopolítica. Para o autor do livro Tempestades Microbianas (edições Gallimard), publicado em 2013, na história das epidemias permanece intemporal o sentimento de impotência face a um vírus desconhecido, a busca de "culpados" além-fronteiras e a possibilidade de, talvez, querer virar a página o mais rapidamente possível como após a pandemia de gripe do início do século XX. Das receitas ancestrais, como as quarentenas sanitárias, aos avanços da medicina ao nível dos antibióticos e da criação de UCI, Zylberman considera que hoje temos mais armas para a batalha contra as pandemias, embora a atuação internacional continue a ser obscurecida por uma Organização Mundial da Saúde sem autonomia e uma nova "guerra fria" entre EUA e China articulada em torno da gestão da crise sanitária. Do passado ao futuro próximo, Zylberman evoca uma constante: "Na história, as segundas vagas epidémicas foram sempre as mais mortíferas."

Em que medida podemos comparar a chamada gripe espanhola de 1918 com a atual pandemia?
Podemos fazer algumas comparações, mas numa perspetiva bastante superficial. Em 1918-1919 estávamos tão pouco preparados como hoje para lidar com a covid-19. Não tínhamos nem terapias preventivas nem um tratamento, pois não se conhecia o vírus na base da pandemia que só foi identificado em 1933. Estávamos de certa forma na mesma situação, mas com grandes diferenças. Grande parte das pessoas que morreram não faleceram diretamente por causa do vírus, mas por sobreinfeção bacteriana como pneumonia ou bronco pneumonia ou por tuberculose acelerada pela gripe. Hoje sabemos defender-nos deste problema com a utilização de antibióticos, sabemos que alguns funcionam e contamos, pelo menos, com um escudo bastante eficaz. A segunda diferença é que hoje dispomos de serviços de reanimação e pudemos ver como as unidades de cuidados intensivos foram cruciais. Em 1918, os serviços de reanimação não existiam, uma vez que só foram criados em 1968. O elemento diferenciador é também a população, uma vez que hoje as pessoas idosas são muito mais numerosas e sabemos que são as mais afetadas, ao contrário do que se passou em 1918. Hoje temos também mais pessoas imunodeprimidas, com a queda do nível de imunidade da população.

No entanto, abundam as referências ao episódio do século passado...
A primeira pandemia gripal que foi cientificamente estudada foi a pandemia de gripe russa de 1849-1890 e os médicos, nomeadamente os espanhóis, procuraram comparações quando surgiu a gripe espanhola. Nós procuramos sempre comparações com o passado quando nos vemos sem meios para enfrentar um problema.

Vemos também como algumas projeções preveem uma segunda vaga de contágios. A história mostra-nos que há sempre uma segunda vaga epidémica e que esta é sempre a mais mortal?
Nem sempre há uma segunda vaga. Não é algo automático, mas não é algo que possamos excluir. Neste caso, falamos antes de mais da nossa incapacidade de prever o que vai acontecer mesmo a curto prazo. É um paradoxo pois temos tecnologias bastante sofisticadas, nomeadamente de modelização dos acontecimentos, e no entanto não somos capazes de prever o curso dos acontecimentos num horizonte de três meses a um ano. De qualquer forma, na história as segundas vagas epidémicas, como a da gripe espanhola, foram sempre as mais mortíferas.

E sabemos porquê?
Não sabemos quais foram as causas e por uma razão muito simples, porque conseguimos recuperar de cadáveres humanos uma amostra do vírus do outono de 1918 - que está conservada em lamelas no Museu do Exército dos EUA, em Washington - mas nunca conseguimos encontrar vestígios do vírus que provocou a primeira vaga de mortes, uma vez que foram muito poucas. Não sabemos e nunca saberemos se se trataria do mesmo vírus que teria sofrido uma mutação ou se seriam dois vírus diferentes.

Outra referência histórica mais próxima, é a da pandemia de SARS [síndroma respiratória aguda severa] em 2002, provocada também por um coronavírus. Aqui é mais pertinente estabelecer algumas comparações?
O vírus SARS-CoV-2 partilha com o SARS-CoV-1 de 2002-2003 cerca de 80% do seu material genético. A comparação parece frutuosa, mas na realidade não é assim tanto, pois se a taxa de mortalidade do SARS era dez vezes superior à do novo coronavírus, por outro lado tratava-se de um vírus muito menos contagioso. Mesmo que tenha circulado em mais do que uma região da OMS - o critério determinante para declarar uma pandemia -, o SARS-CoV-1 ficou circunscrito ao sudeste asiático e à região de Ontário, no Canadá, porque era, e sobretudo no Canadá, uma epidemia nosocomial - limitada aos hospitais. Era um vírus mais mortal e menos contagioso. As diferenças são abismais.

As quarentenas foram no passado uma forma eficaz de limitar a propagação das doenças?
As quarentenas coletivas, com perímetros limitados vigiados pelo exército, limitados por um cordão sanitário, onde fechamos pessoas de forma indiscriminada, sintomáticos ou assintomáticos, contagiosos ou não, são uma solução negativa, uma vez que acabamos por propagar a doença a pessoas saudáveis. No entanto, as quarentenas individuais, o confinamento - porque ao fim e ao cabo o confinamento a que assistimos nos últimos meses foi uma quarentena individual generalizada -, é sempre uma arma de dois bicos. Por um lado, limitamos os contactos e contribuímos para limitar a curva de contágios, mas ao mesmo tempo quando sabemos que 80% dos contágios se registam em ambiente familiar, vemos que o confinamento talvez não seja uma boa solução. Mas a verdade é que não existem boas soluções.

A história mostra que para controlar epidemias alguns estados chegaram a prever penas de morte para quem infringisse as quarentenas. Qual é o limite entre a liberdade individual e a necessidade de controlar a expansão do vírus?
A primeira lei de saúde pública francesa de 2 de março de 1822 era uma lei de segurança sanitária nas fronteiras e foi ativada após a epidemia de febre amarela em Espanha. O artigo primeiro desta lei atribuía ao chefe de Estado a direção do combate à epidemia e previa a pena de morte para quem infringisse as regras, mas nunca foi aplicado pois era bastante desproporcionado. Mas penso que o importante não é recusar, por exemplo, o controlo de contágios por ferramentas informáticas, mas limitar a sua utilização por parte das autoridades e obter garantias de que as liberdades individuais serão protegidas. Sabemos também que em 2003 em Hong Kong e na Ásia as pessoas tinham-se mantido em casa e tinham limitado os contactos, mesmo sem ter sido por ordem das autoridades, e foi uma das razões pelas quais a epidemia foi cedendo terreno até desaparecer.

A Assembleia Geral da OMS aprovou a abertura de um inquérito à atuação da organização face às pressões da China. Já em 2003 o país tinha demorado três meses a reconhecer a epidemia de SARS. O que podemos esperar deste inquérito?
Desde finais de novembro que a China estava ao corrente de uma espécie de pneumonia atípica, o país podia ter feito logo a associação com a SARS de 2003. Até 20 de janeiro tentaram minimizar a situação, uma vez que foi nessa data que o governo chinês reconheceu o carácter contagioso do vírus. Houve uma tentação de enganar a OMS e houve pressões da parte dos chineses. Pudemos assistir, por exemplo, à lentidão com que a OMS demorou a reconhecer, numa primeira fase, que estava perante uma urgência sanitária de dimensão internacional. Foram precisas duas reuniões do comité de urgência para que houvesse avanços e depois, numa segunda fase, esperou demasiado tempo para declarar a pandemia. E isso, sem dúvida, levou certos governos a atrasar a implementação de medidas, uma vez que a OMS não tomava essa decisão e foi por exemplo o caso de Itália. Diz-se que o erro dos italianos foi reagir demasiado tarde, mas eles reagiram demasiado tarde porque a OMS reagiu também demasiado tarde.

A crise atual voltou a revelar a falta de autonomia da OMS na gestão de uma crise sanitária?
O problema fundamental é que a OMS não é uma organização internacional, mas uma organização intragovernamental, são os estados que fazem a lei na OMS. Fazem a lei no comité executivo que se reúne todos os anos, em fevereiro, para determinar a política anual da organização, fazem a lei durante a Assembleia Geral. É talvez isso que é necessário reformar, a partir do momento em que são os estados que têm as rédeas em Genebra. O diretor-geral tem a última decisão, mas tem de aceitar as decisões dos estados, não tem margem de manobra e esse é talvez o maior problema.

Há quem entreveja uma escalada militar nas tensões criadas pela pandemia entre Washington e Pequim, no entanto a história parece mostrar que nunca uma pandemia desembocou numa guerra.
Retrospetivamente as pandemias não promovem nem a guerra nem a paz. Os vírus não se preocupam com a situação geopolítica. Penso que a situação entre EUA e China criou um tipo de guerra fria sem dúvida. De qualquer forma a culpa do vírus é sempre dos outros. É uma solução fácil. À sífilis chamaram-lhe a "doença francesa", os ingleses chamavam-lhe "french letter", em França chamávamos-lhe "o preservativo inglês", a gripe era "espanhola" sem verdadeiramente o ser. Não penso que se possa criar uma situação de guerra aberta, mas de facto estamos perante uma nova guerra fria na qual a gestão da ameaça sanitária é uma parte integrante, uma vez que esta pandemia se tornou um perigo internacional.

Face à pandemia os governos restringiram as entradas nas fronteiras e evocam, como aliás em França, a necessidade de "diminuir a dependência do exterior" na agricultura ou na Indústria. As pandemias fomentam um isolacionismo duradouro?
Pode existir esse isolacionismo, mas de forma bastante momentânea ou limitada a certos domínios, porque senão poderia implicar um empobrecimento económico da população. Sobre os projetos de relocalizar a produção industrial seria possível para determinados setores, mas não para a indústria farmacêutica, uma vez que foram os próprios estados que decidiram externalizar a produção de princípios ativos na China para reduzir custos. Se está à espera de que os fabricantes de vacinas e de medicamentos aceitem de forma voluntária pagar mais caro a produção dos seus produtos, digo-lhe que isso é impossível, e há outros países para lá da China onde se produzem atualmente os medicamentos a baixo custo e é por isso que se envia a produção para estas zonas. É algo insuportável, mas é assim que funciona o capitalismo.

Como se comportou a economia após as grandes pandemias?
Tudo depende de como sairmos desta crise sanitária. Temos vários exemplos. A gripe espanhola foi totalmente esquecida desde que a epidemia terminou. É a máxima de Nietzsche, "sem esquecimento não há presente". Para viver no presente tentámos esquecer o mais rapidamente possível o que se tinha passado. É um tipo de saída de crise. Há outros exemplos, a peste negra do século XIV ao início do XVIII contribuiu para transformar de forma bastante profunda a sociedade europeia. Hoje ouvimos todo o tipo de coisas sobre esse mundo "pós-covid-19" mas penso que se trata de especulações quando não sabemos qual será o desfecho desta crise.

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