CP com 87 casos de covid-19 desde março. Maquinistas são os mais afetados

Coronavírus afetou 2% dos cerca de quatro mil trabalhadores da transportadora ferroviária. Centro de operações de Lisboa registou um surto de casos positivos e novembro foi mesmo o mês que registou mais casos.

Há 87 trabalhadores da CP que foram infetados com covid-19 desde março. O novo coronavírus afetou 2,2% dos cerca de quatro mil trabalhadores da transportadora ferroviária. Novembro foi o mês em que se registaram mais casos, segundo informação a que o DN/Dinheiro Vivo teve acesso e que se refere ao período entre o início de março e o final da semana passada.

Os maquinistas foram os mais infetados pela pandemia, com um total de 18 casos; seguem-se os mecânicos, com 11 infeções, e os revisores, com dez registos. Lisboa e Porto são os distritos com maior incidência, porque é nestas regiões que existem mais serviços da CP.

O sindicato dos maquinistas (SMAQ) não consegue explicar como é que esta categoria tem o maior número de casos. Estes trabalhadores trabalham em cabinas, sem haver contacto com os passageiros, sugerindo que as contaminações vêm do exterior, lembra António Domingues.

O facto de os maquinistas serem mais velhos também ajuda a explicar porque a faixa entre os 50 e os 59 anos foi a mais atingida, com 24 casos. Entre os 40 e os 49 anos houve 20 infetados, mais dois do que na faixa entre os 30 e os 39 anos.

O dirigente do SMAQ denuncia, contudo, o surgimento de um surto no centro de operações da empresa em Lisboa, que verifica a circulação de comboios nas linhas urbanas da região e também assume parte do serviço de curso. "Esta situação poderá gerar sobrecarga para os trabalhadores que não forem infetados", avisa.

Fonte oficial da transportadora confirma a existência de um surto: "Temos nove casos positivos entre 42 pessoas e já reforçámos as medidas de separação das equipas." Mas "não está em causa a gestão das operações", sublinha a mesma fonte ao DN/Dinheiro Vivo.

A comissão de trabalhadores destaca "o desempenho muito bom" da transportadora ferroviária. A "maioria dos seus quase quatro mil funcionários tem trabalho presencial", dentro dos comboios, das bilheteiras e nas oficinas de norte a sul do país. "Se tivéssemos a mesma taxa de incidência acumulada (número de casos que existem ou existiram em Portugal em comparação com a população residente) teríamos mais de cem casos", calculam.

A CP manteve em circulação mais de 75% dos comboios urbanos e regionais durante o confinamento geral, entre meados de março e o início de maio. Nessa fase, houve um total de 12 casos. O pico de infeções ocorreu em novembro, num total de 33, praticamente o dobro dos casos registados até então (45). Para compensar os prejuízos e os comboios praticamente vazios, a empresa vai receber pelo menos 73 milhões de euros do Estado sob forma de adiantamento.

Nos últimos seis meses, houve mais de 193 mil ações de desinfeção, a uma média de cerca de 780 comboios por dia. A empresa também tem distribuído uma média de cem mil máscaras cirúrgicas descartáveis por mês. Também tem sido disponibilizado álcool-gel e sabão azul e branco para desinfeção das mãos, inclusivamente nas casas de banho dos comboios.

Houve ainda 38 ações urgentes de descontaminação, sobretudo nas bilheteiras da região de Lisboa, para prevenir eventuais surtos.

Embora sejam a terceira área com mais casos, os revisores são a classe com maiores queixas da CP. "Nas zonas urbanas, sobretudo em Lisboa, com os comboios mais cheios, os revisores têm-se protegido mais do contacto com os utentes, reduzindo o número de fiscalizações de bilhetes. Os mais jovens ainda vivem com os pais e têm medo de os infetar; os mais velhos receiam contaminar a restante família", justifica Luís Bravo, do sindicato que representa os revisores e trabalhadores das bilheteiras (SFRCI).

Esta atitude já levou a empresa a levantar 20 processos disciplinares junto dos revisores. "Ninguém compreende esta situação em contexto de pandemia", lamenta o dirigente. Ao DN/Dinheiro Vivo, fonte oficial da empresa fala "em cerca de 20 situações, a nível nacional, de prática continuada de não fiscalização por alguns trabalhadores. Esta prática, quando reiterada, não pode ser aceite pela CP sem a devida averiguação".

Diogo Ferreira Nunes é jornalista do Dinheiro Vivo

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