Cowboys e canábis na senda de Lacerda

A culpa de gostar tanto da América é da minha mãe que desde muito pequeno muitas vezes me dizia que não se põe os pés em cima das mesas, que pés em cima das mesas é na América, ou no Texas, ou os cowboys, uns selvagens. E como tudo também lhe devo mais isso de poder imaginar um país onde as pessoas punham os sapatos em cima das mesas com a normalidade que um gesto tão natural merece, e já não precisava de ouvir mais nada para saber onde pertencia. E lembro-me sempre disso cada dia que cá estou, mesmo que a realidade não seja o que o meu eu de 7 anos imaginou e desejou. Mas desta vez foi especial, quando desembarquei em Las Vegas, para a maior conferência mundial de canábis do mundo, onde fui entrevistado num podcast ao vivo, 35 mil pessoas de 75 países, comecei a ver cowboys por todo o lado, hordas de gente de botas e chapéus. E ainda achei que fosse coisa normal daqui, tendo a achar normal o anormal em sítios novos, eles é que sabem, coisas deles, nunca tinha vindo aqui nem ao Nevada, e pensei isto vai ser só botas de cowboys em cima das mesas.

Mas depois lá percebi que além da Nauticampo da erva também se passava aqui a Ovibeja do cowboy, organizado pela Wrangler, perto de cem mil cowboys e girls, campeonatos de rodeos e de outras artes dos rapazes das vacas, concertos de Natal, miss cowboy, e tudo a que um cowboy tem direito. E eu tenho uma ligação emocional forte com eles, mas eles não sabem, é que o melhor presente que já alguém deu a alguém, em todo o sempre, e em todo o lado, foi uma corda de cowboy verdadeira que o meu pai me trouxe da América, tinha 9 ou 10 anos, um dia volto a isto, e ainda sou pessoa para esta noite contar isso a um deles, que se sente ao meu lado, no rodeo que quero ir ver, se não for absorvido por outra coisa qualquer, que aqui não faltam vórtices sensoriais e experienciais. Mas não os mais óbvios.

Estou a escrever este texto no meio de um casino, pessoas que não compreendo a jogar jogos que não compreendo. O prazer do jogo é talvez dos poucos prazeres que não percebo, o que querem aquelas pessoas ali, com ar de um triste contentamento, sabendo que vão sempre ter menos dinheiro, que vão sempre perder. Porque joga alguém o único jogo que não tem vitória possível? Sim, a neurobiologia da adição, sim o prazer de jogar, sim li tudo isso, e bastante. Mas não compreendo. Ou melhor, compreendo a terrível e maravilhosa evidência da diferença entre pessoas.

A vantagem de ter muitos filhos, então para quem não teve irmãos, é perceber que as pessoas são diferentes umas das outras, diferentes diferentes, não só diferentes. Antes disso dos muitos filhos me ter acontecido já eu existia e tive um primeiro embate com essa coisa da diferenciação ontológica. Foi com o programa Malucos do Riso, e de haver pessoas que se riam, e muito, com o que lá se dizia. Não se trata de reconhecer formas de humor diferente, há tantas coisas a que não acho piada e tantas a que acho e que outros não, mas há em todas elas uma ponte na diferença. Mas Malucos do Riso não tem ponte possível, apenas a certeza do outro como diferente. Não melhor nem pior, diferente. É como os jogos de casino, que continuam, com gritos de excitação esporádicos, muito álcool e tabaco, e sexo profissional a rondar. Não se trata de moralismo, não há maior negação da humanidade do que o moralismo. É uma questão de alheamento. Há drogas que fazem rir, outras que fazem não chorar.

Se calhar estou aqui a fazer de Lacerda, coisa que me orgulha pouco. Lacerda é a personagem sóbria da novela psicadélica Fear and Loathing in Las Vegas: A Savage Journey to the Heart of the American Dream, de 1971, de Hunter S. Thompson. Em síntese, um jornalista e um advogado vão cobrir uma corrida de automóveis e motos no deserto de Las Vegas, mas a quantidade e a diversidade de drogas que usam, de ácidos a éter, tornam tudo mais difícil e dão origem a um livro caleidoscópico, das melhores leituras de sempre, peripécias, humor bárbaro. Uma reflexão sobre o conflito imanente entre realidade e liberdade. E há o Lacerda, um enigmático fotógrafo português (alguém saberá porquê português?), dos poucos que parece não querer fugir da realidade, mas que arrisca ser castrado porque o advogado numa das trips se convence que o portuga lhe roubou a miúda do momento, e se calhar roubou. Mas não será a realidade a forma mais cruel de adição? E a realidade é que com tantos cowboys e cowgirls na cidade vi poucas ou nenhumas pernas em cima das mesas, seguradas pelo calcanhar de botas gastas no pó das pradarias. E muitas dessas pernas, digo botas, mereciam tanto esse pedestal que torna a realidade ainda mais dura do que ela é.

Advogado

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