Ingleses invadem o verão português... no grande ecrã 

Filmes da Nova Vaga inglesa: eis uma proposta revigorante para os dias de verão na sala de cinema. De Albert Finney a Richard Harris, os angry young men estão aí para falar de angústias (ainda) muito contemporâneas.

Ruas noturnas repletas de carros, as luzes irrequietas de Nova Iorque e uma banda sonora jazzística de Elmer Bernstein. Somos recebidos assim em Mentira Maldita (com o título original Sweet Smell of Success, 1957), de Alexander Mackendrick, um dos filmes soberanos do ciclo A Nova Vaga Inglesa, que arranca nesta sexta-feira no cinema Medeia Nimas em Lisboa. Mas então - estará o leitor a perguntar-se se é um ciclo britânico, o que tem Nova Iorque que ver com o assunto?

Aparentemente, nada, se deixarmos de parte os detalhes de contexto deste tremendo retrato sobre o lado obscuro do meio jornalístico, encabeçado por Burt Lancaster, no papel de um influente colunista sem ética (à maneira de Walter Winchell, o "inventor" das colunas sociais de mexericos), e Tony Curtis como agente de imprensa que desce ainda mais baixo na escala dos seres humanos sem escrúpulos.

O enredo anda à volta da irmã do colunista e do namorado dela, um jovem músico de jazz cuja integridade afronta a ausência moral das duas personagens principais. E o final da história, desencantado, cínico e amargo, em tudo contrário à lógica hollywoodiana, é o que faz deste grande clássico noir um precursor, no cinema, da escola dos angry young men que estava a nascer em Inglaterra (onde o filme foi um sucesso) nesses anos de 1950. Foi de lá que veio o realizador Alexander Mackendrick para assinar este primeiro título americano, que é hoje considerado a sua obra-prima. Até Woody Allen, na recentemente lançada autobiografia, A Propósito de Nada, escreve que "todos viram Mentira Maldita"; mas se não for o caso, eis a oportunidade para colmatar a falha...

No âmbito da Nova Vaga inglesa, os outros quatro realizadores chamados para esta operação cinéfila de verão - Tony Richardson, Lindsay Anderson, Karel Reisz e Richard Lester - mostram realidades muito menos glamorosas, para não dizer mesmo opostas. As suas personagens representam não só a classe trabalhadora, mas também os jovens rebeldes; quase sempre as duas coisas em simultâneo. O certo é que esses filmes, que apontam o dedo às instituições e saem dos estúdios para a rua ou para cozinha das donas de casa pobres (daí terem ficado conhecidas como produções de kitchen sink realism), trazem para o grande ecrã os dramas e as dificuldades do dia-a-dia na Inglaterra. Tanto os realizadores como os protagonistas são os tais angry young men que chegavam ao cinema influenciados pelo olhar da literatura e do teatro.

Desde logo, Sábado à Noite, Domingo de Manhã (1960), de Karel Reisz, é das propostas mais paradigmáticas desse movimento, com um Albert Finney de sorriso provocador na pele de um jovem operário de uma fábrica que dedica as horas vagas a saídas, copos e namoros, quando não está a causar sarilhos e a desrespeitar as figuras da autoridade. Anti-herói extraído de um romance do angry young man Alan Sillitoe, esta personagem dialoga com outra de The Loneliness of the Long Distance Runner (1962), um jovem refratário internado num reformatório que aí se distingue como corredor de maratonas, libertando, nas suas corridas solitárias, as inquietações da classe trabalhadora. É um ótimo filme de Tony Richardson, também adaptado da prosa de Sillitoe e com o fôlego das intensas jornadas interiores, que abre hoje o ciclo às 19.00, em jeito de sinal de partida.

De Richardson haverá ainda para ver o comovente e magoado A Taste of Honey (1961), que troca o habitual protagonista masculino por uma adolescente a deparar-se, sozinha, com a dureza da vida em Manchester e uma gravidez indesejada, e Ned Kelly (1970), com Mick Jagger a dar rosto e outra música a um fora-da-lei.

Entre os títulos mais emblemáticos do ciclo, This Sporting Life (1963), de Lindsay Anderson, com um Richard Harris muito bergmaniano a exibir o caparro de um jogador de râguebi que definha por dentro, na mesma medida em que cresce no êxito em campo, é um golpe implacável de cinema que retrata a agressividade como forma de lidar com a angústia da falta de horizontes. Angústia essa que é virada do avesso em If... (1968), também de Anderson, com um cenário de revolta juvenil montado num colégio interno inglês, e Malcolm McDowell a liderar a anarquia naquele estilo que captou a atenção de Stanley Kubrick para fazer dele, pouco tempo depois, o protagonista de Laranja Mecânica (1971).

Num tom menos pesado, The Knack... and How to Get It (1965), de Richard Lester, dá lugar à paródia que põe em cena a revolução sexual dos anos 1960 - era o tempo da chamada swinging London -, com aprendizagens divertidas sobre a habilidade (o knack) da sedução.

Por sua vez, a completar os nove títulos do ciclo, A High Wind in Jamaica (1965), de Alexander Mackendrick, qual carta fora do baralho, traz cor e aventura de piratas com o capitão Anthony Quinn. No mar ou em terra, o sinónimo desta amostra da Nova Vaga inglesa é a fuga para a frente dos corpos irrequietos que lidam com as suas próprias tempestades. Aceite-se o convite para descobrir o desporto destas vidas na grande tela.

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