Coreia do Norte sem coronavírus. Mito ou realidade?

Kim Jong-un ordenou logo em janeiro o encerramento das fronteiras e os estrangeiros foram colocados de quarentena, mas o país não está totalmente isolado do mundo e há quem ponha em causa o balanço positivo apresentado pelo regime.

A Coreia do Norte insiste que não tem qualquer caso do novo coronavírus, mas essa afirmação é recebida com ceticismo, numa altura em que o covid-19 se aproxima dos dois milhões de casos e já causou mais de 115 mil mortes em todo o mundo.

Se por um lado Pyongyang foi rápido a fechar as suas fronteiras, incluindo com a China onde o coronavírus apareceu pela primeira vez, e a travar as deslocações internas dos seus cidadãos, por outro é sabido que depende do contrabando de bens que passam precisamente a "porosa" fronteira com a China.

Além disso, a Coreia do Norte pediu ajuda internacional para ter material de proteção e testes e, com Kim Jong-un à frente de um regime totalitário, pode censurar as eventuais mortes, atribuindo-as a outras doenças, ou simplesmente esconder os números.

A 2 de abril, a Organização Mundial da Saúde dizia terem sido feitos 709 testes e não haver nenhum caso positivo no país. Um contraste com as vizinhas China, onde há registo de mais de 82 mil casos e 3341 mortes, e Coreia do Sul, com mais de dez mil casos e 217 mortes.

Fronteiras fechadas

A 21 de janeiro, a Coreia do Norte alertou as agências de turismo que não ia permitir que estrangeiros entrassem no país. Uns dias mais tarde, alargou as restrições de viagens, cortando todas as ligações com o exterior, incluindo suspender os voos com a China e a Rússia (nem durante a pandemia da SARS, em 2013, tinha feito o mesmo, mantendo uma ligação semanal com a Rússia).

A pandemia transformou-se "num grande desastre que ameaça toda a humanidade, independentemente das fronteiras", disse a agência norte-coreana KCNA nesta segunda-feira. "Este ambiente pode criar obstáculos à nossa luta e ao nosso progresso", admite a agência, garantindo que Pyongyang tem mantido "uma situação antiepidémica muito estável".

Encerrar fronteiras é de facto um golpe para a sua frágil economia, visto que a China é o principal parceiro económico (representa nove décimos das trocas comerciais norte-coreanas). Dois rios (o Tumen e o Yalu) e as montanhas Baekdu marcam a fronteira de 1420 quilómetros entre os dois países, que sempre foi, contudo, considerada "porosa".

a fronteira com a Coreia do Sul, de cerca de 250 quilómetros de comprimento, está dentro de uma zona desmilitarizada com cerca de quatro quilómetros de largura, altamente vigiada.

Alvo de sanções internacionais, a Coreia do Norte depende dos contrabandistas que cruzam a fronteira com a China para manter o mercado interno e contornar algumas dessas sanções.

Está também dependente de uma frota de barcos que permite exportar carvão e minério de ferro, que seriam alvo de sanções. Segundo o projeto Sandstone, do Royal United Services Institute de Londres, cerca de uma centena de navios estão ancorados ao largo da Coreia do Norte, indicando que seria uma tentativa de Kim Jong-un de travar a epidemia.

Quarentena

Além do fecho de fronteiras, a Coreia do Norte decretou que todos os estrangeiros, nomeadamente diplomatas, tinham de ficar um mês de quarentena. Os norte-coreanos também foram instados a evitar deslocações e a manter o distanciamento social, usando sempre máscara. Pelo menos dez mil pessoas foram postas de quarentena.

Vivendo num país totalitário, os norte-coreanos conhecem os riscos de não seguir as orientações do regime. Além disso, a ideologia Juche (tal como o confucionismo na Coreia do Sul e noutros países asiáticos) coloca os cidadãos mais disponíveis para se sacrificarem em nome do bem comum. O Juche serve para galvanizar os cidadãos, reiterando também a ideia de independência do país em relação a tudo e a todos.

No caso da Coreia do Sul, o confucionismo é apontado por alguns como parte da razão do sucesso em travar a propagação do covid-19, ao mesmo tempo que os testes alargados e a aceitação da vigilância dos pacientes através dos telemóveis.

Mas, ao contrário do que acontece na Coreia do Sul, a Coreia do Norte tem um sistema de saúde pobre e o coronavírus obrigaria a pedir ajuda internacional para lidar com a pandemia. E alguns chamam a atenção para o facto de Pyongyang já ter pedido ajuda.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo revelou, em fevereiro, que teria providenciado 1500 testes de diagnóstico a pedido de Pyongyang, "por causa do risco persistente do novo covid-19". Além disso, as Nações Unidas levantaram as sanções no que diz respeito a material médico e de proteção, como máscaras e desinfetantes, e tanto os Médicos sem Fronteiras como a UNICEF enviaram material a partir da China, a pedido das próprias autoridades norte-coreanas.

Em plena pandemia, em meados de março, Kim Jong-un anunciou a construção de um novo hospital em Pyongyang, que estará alegadamente pronto em outubro.

Jornais oficiais falam do tema

O coronavírus não é algo desconhecido para os norte-coreanos. O jornal oficial do Partido dos Trabalhadores da Coreia, o Rodong Sinmun, tem escrito regularmente e detalhadamente sobre os esforços contra a epidemia que estão a ser empreendidos nas várias províncias do país.

Isto inclui a mobilização de voluntários e funcionários médicos para viajarem até fábricas e quintas para educar as pessoas acerca da doença e que medidas de prevenção devem empreender, como usar máscaras e uma higiene responsável, havendo ainda campanha de informação através de altifalantes e painéis eletrónicos.

Apesar dessa aparente liberdade de informação, há quem defenda que o regime de Kim pode esconder simplesmente os números (como a China foi acusada de fazer no início da pandemia) ou apontar outra eventual causa de morte.

No estrangeiro, desertores dizem que estão em contacto com os familiares ainda na Coreia do Norte e garantem haver registo de vários mortos. No início de março, o site de notícias Daily NK, de Seul, falava em 200 militares norte-coreanos mortos e milhares de quarentena. Ainda nesta segunda-feira, relatava a morte de quatro médicos alegadamente com sintomas de covid-19.

Testes de mísseis não param

Uma das razões apontadas fora da Coreia do Norte para a existência de casos já no interior do país foi a falta de exercícios militares, que costumam ser quase contínuos. Houve contudo lançamentos de mísseis: em março, foram feitos nove testes.

O retomar dos testes surge depois de a Coreia do Norte ter rejeitado qualquer assistência dos EUA -- o presidente norte-americano, Donald Trump, ofereceu ajuda para enfrentar o coronavírus. Pyongyang insiste na necessidade de Washington aliviar as sanções, mas os norte-americanos só parecem disponíveis em casos específicos, como na resposta ao covid-19.

A carta de Trump a oferecer cooperação tinha sido bem recebida, com a irmã de Kim Jong-un, Kim Yo-jong, a indicar que o líder norte-coreano tinha apreciado a carta e que esta chegava num momento de "grandes diferenças e desafios nos laços" entre ambos os países.

Mas Pyongyang não gostou das declarações do secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, que após a reunião do G7 defendeu que a comunidade internacional tinha de continuar a aplicar pressão diplomática e económica à Coreia do Norte, por causa do seu programa de mísseis e do nuclear. O Ministério dos Negócios Estrangeiros norte-coreano disse então ter perdido "todo o apetite" num diálogo com os EUA.

Trump e Kim encontraram-se pela primeira vez pessoalmente em junho de 2018, em Singapura, e a relação parecia bem encaminhada, mas em fevereiro de 2019 uma nova cimeira a dois, em Hanói, foi um falhanço. Os dois ainda se encontraram em junho de 2019 na fronteira entre as duas Coreias (com Trump a entrar na Coreia do Norte), mas sem maiores avanços.

Nova liderança

Apesar de a Coreia do Norte alegadamente não ter casos de coronavírus, a ordem é para reforçar o controlo. Isso mesmo foi decidido na reunião do gabinete político do comité central, no sábado, tendo as autoridades pedido uma auditoria rigorosa e completa a uma eventual entrada do novo coronavírus no país.

Entretanto, Kim Jong-un remodelou um terço dos membros da Comissão dos Assuntos do Estado, o órgão supremo do país, tendo esta remodelação sido aprovada pela Assembleia Popular Suprema, que se reuniu neste domingo (inicialmente estava previsto o encontro para sexta-feira mas foi adiado) e cujos membros não aparecem nas fotos oficiais a usar máscara.

Entre os novos membros da Comissão dos Assuntos do Estado (houve uma alteração de cinco dos 13) está a irmã de Kim Jong-un, que no ano passado terá sido afastada após o falhanço da cimeira de Hanói, com Trump. Kim Yo-jong serviu como representante do irmão nos Jogos Olímpicos de Inverno, que se realizaram na Coreia do Sul, e era também vista ao lado deste nos encontros com Trump.

Outro novo membro é o novo chefe da diplomacia, Ri Son-gwon, ex-comandante da Defesa que foi promovido no início deste ano.

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