O coração de Chopin pulsa há mais de 170 anos

Em 1849, falecia o compositor Frédéric Chopin. Para o túmulo, o homem nascido polaco, radicado em França, não levaria o seu coração. Esse, tornado símbolo patriótico dos polacos, atravessaria fronteiras e "combateria" em duas guerras mundiais.

Nascida em 1962, a escritora Olga Tokarczuk alcançou em 2019 para o seu país natal, a Polónia, a distinção máxima nas letras, ao receber o Prémio Nobel da Literatura. Com uma obra literária que inclui seis romances e três livros de contos, Tokarczuk conta com um trio de títulos publicados em Portugal, entre eles Viagens. Obra em que a autora, traduzida em 30 línguas, inclui a atribulada história de um coração que deixou de bater às primeiras horas do dia 17 de outubro de 1849. O órgão, sempre frágil, pulsara por 39 anos, nascera polaco em 1810, radicara-se em Paris em 1831, apaixonara-se pela escritora francesa Amantine Dupis em 1837 (escrevia com o pseudónimo de George Sand) e inspirara a obra para piano de Fryderik Franciszek Szopen, nascido numa aldeia da Polónia, adotando mais tarde o nome de Frédéric François Chopin.

O Coração de Chopin, título do referido conto da escritora polaca, evoca uma narrativa que atravessa dois séculos, inclui o desejo de um moribundo, o transporte de órgãos, um país sob domínio russo, duas guerras mundiais e o orgulho patriótico de milhões de polacos, comovidos no cortejo que restituiu ao local de culto uma relíquia com 300 gramas: o coração do compositor que reverenciava Bach e Mozart.

Quando a 17 de outubro de 1945, após a Segunda Guerra Mundial, o coração de Chopin regressou em cortejo à Igreja de Santa Cruz, em Varsóvia, volviam exatamente 96 anos, desde que deixara de bater num quarto parisiense. A causa de morte apontada na época: tuberculose.

Chopin não sofrera apenas de agonizantes problemas respiratórios ao longo da sua curta existência. O compositor de obras para piano padecia de tafofobia, medo de ser enterrado vivo. Valeu-lhe a irmã mais velha, Ludwika Jędrzejewicz, que lhe cumpriu o pedido final. Chopin quis ser autopsiado, garantindo que todo o sopro de vida já o abandonara aquando do seu sepultamento no cemitério de Père Lachaise, em Paris. Assim se procedeu e naquele início de outono francês Chopin foi autopsiado antes de encontrar a eternidade na necrópole da capital gaulesa. Contudo, o coração do homem que se exilara em Paris na década de 1830, aquando do Levante de Novembro, revolta armada contra o domínio russo na Polónia, conhecia um outro destino. Não repousaria nos 170 anos seguintes.

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Chopin não pedira apenas à irmã para ser autopsiado. Queria que o seu coração viajasse para a terra natal para aí ser sepultado. O compositor dava expressão à prática conhecida como enterro do coração, partilhada, entre outros, por Ricardo I de Inglaterra (Ricardo, Coração de Leão, século XII) e Thomas Hardy, novelista e poeta britânico do século XIX-XX.

O coração doente de Frédéric Chopin estava, agora, imerso num banho de conhaque, líquido que lhe garantiria a preservação dentro do frasco selado onde boiava. A proteger a fragilidade do vidro, uma urna de madeira. Começava a aventura que envolveu o transporte clandestino do coração de Chopin, no regaço da irmã, para o seu país natal, então ocupado pela Rússia.

A mais de mil quilómetros do corpo a que dera vida, o coração de Chopin reencontrava-se com os familiares polacos. Acabaria por repousar, ainda em 1849, no âmago de um pilar da Igreja de Santa Cruz, em Varsóvia. No local, Leonard Marconi, arquiteto polaco, talhou as palavras que serviram de epitáfio ao órgão solitário. "Pois onde estiver o teu tesouro, aí também estará o teu coração", palavras vertidas do Evangelho de Mateus.

Objeto de culto

O coração de Chopin, tornado objeto de culto aquando da independência da Polónia em 1918, após a Primeira Guerra Mundial, não iria descansar. "Combateria" numa nova guerra global, acabando em mãos alemãs durante a Revolta de Varsóvia, em 1944. Erich von dem Bach-Zelewski, oficial alemão das SS, não escondia a admiração pela obra de Chopin. Do pilar do templo que o acolhia, o coração do compositor polaco ficou ao cuidado do militar, sediado no quartel-general das tropas alemãs estacionadas no local.

Por pressão de padres da Igreja de Santa Cruz, o frágil coração acabou por recolher a Milanówek, longe do inferno dos bombardeamentos sobre a capital. Naquele 1944, pela primeira vez desde 1849, a urna era descerrada e o coração exibido na sua existência líquida. Um coração tão grande que causou espanto e que já em 1945 rumou ao seu destino último, o interior do pilar em Santa Cruz.

Tuberculose, fibrose cística, estenose mitral, nas últimas décadas sucedem-se as teorias sobre a causa de morte de Chopin, ansiando por um objeto de estudo: o incansável coração do compositor polaco. Após vários pedidos negados de análise ao ADN dos tecidos do coração, em 2014 uma equipa de investigadores polacos analisou o órgão com mais de 170 anos. Sem o retirar do frasco, concluiu nova causa de morte, recorrendo a registo fotográfico. Chopin terá sofrido uma pericardite. Não se suporia tal na época do seu falecimento. Como também não se creria que coração tão frágil sobrevivesse a dois conturbados séculos europeus.

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