Celebrações de Fátima "contra o monstro do populismo"

Organizados em círculos desenhados no chão, cerca de 4500 peregrinos participaram na procissão das velas, em Fátima, sem esgotar a lotação de 6000 prevista pelo plano de contingência do Santuário, segundo as normas da DGS. O bispo de Setúbal, que preside a esta peregrinação internacional aniversária, alertou para os que pretendem "tirar dividendos políticos e económicos" desta pandemia.

À hora em que se iniciavam as celebrações de Fátima, nesta segunda-feira 12 de outubro, o recinto do Santuário ficava-se pelas 4500 pessoas, longe da lotação de 6000 autorizada pela Direção-Geral da Saúde (DGS). Apenas a entrada da colunata sul atingira o limite de peregrinos autorizados. Ao todo, são oito as entradas.

Tal como profetizavam alguns agentes económicos e políticos, a maioria dos peregrinos que habitualmente acorrem ao Santuário (nesta que é última das peregrinações) optou por uma de duas vertentes: ou não foi ou fê-lo durante a semana. No domingo, por exemplo, atingiu-se a lotação.

"Mas o domingo é sempre o melhor dia", disse ao DN Georgina Lopes, uma comerciante que sentiu neste outubro a razia económica. Afinal, este era o mês mais procurado pelos grupos estrangeiros. E os números revelados nesta segunda-feira, pelo reitor do Santuário, dão conta disso mesmo: há um ano, esta peregrinação contava com 733 grupos (559 estrangeiros e 174 portugueses), num total de cem mil peregrinos inscritos. Até ontem, contando já com os inscrito até novembro, contabilizam-se 93 grupos: 33 de Portugal, 26 de Espanha, 11 da Polónia, um da Eslovénia, um do México, um da Hungria, um da China, um do Canadá, um da Bélgica e um de seminaristas missionários de diferentes nacionalidades.

Esta era a peregrinação que seria presidida pelo arcebispo do Panamá, mas a pandemia trocou as voltas ao bispo de Leiria-Fátima: perante a falta de ligações aéreas, ficou sem efeito. De modo que a celebração foi presidida por D. José Ornelas, bispo de Setúbal, que desde junho preside a Conferência Episcopal Portuguesa.

"Eu sou o plano B", começou por brincar o prelado, durante a conferência de imprensa. Ninguém diria, depois de o ouvir na homilia da noite. D. José Ornelas fixou-se numa das imagens do Livro do Apocalipse, o último livro da Bíblia, num quadro que põe em evidência "a realidade limitada, violenta e destrutiva, e que coloca em perigo a vida e o futuro da humanidade".

"Para além desta pandemia, e das outras que sempre ocorreram e podem ocorrer, este projeto de Humanidade-Mãe e Matria-Nova Humanidade é atingido por muitos monstros pandémicos que põe em risco a vida e o futuro de todos", começou por dizer D. José Ornelas, que afinal queria falar aos peregrinos de uma realidade bem terrena: "Durante esta pandemia, a par da mais heroica abnegação e generosidade de tanta gente, têm-se manifestado muitas e poderosas atitudes manipuladoras e populistas, sem remorso de usar o sofrimento e o desconcerto social, para daí tirar dividendos políticos e económicos, criando mesmo conflitos e mobilizando o próprio poder para os seus objetivos conflituosos e estratégicos, que deixam sempre para trás os mais frágeis da humanidade."

"Esse é o monstro de que nos fala o quadro do Apocalipse", disse o bispo de Setúbal. Ainda assim, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa acredita que é possível daí retirar sinais de esperança, no meio da pandemia. "Hoje, na Cova da Iria ou em nossas casas, no meio desta pandemia, de certo modo sentimo-nos como a mulher na travessia do deserto, preocupada e prudente, mas confiante e corajosa", numa alusão a essa imagem do Livro do Apocalipse, quando uma mulher está para dar à luz mas se depara "com dramáticas dificuldades e oposições".

A cerimónia desta noite de segunda-feira contou com a presença de 51 sacerdotes e nove bispos. Ainda antes de começar, o bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto, deixava antever a particularidade do que seria a noite da peregrinação internacional aniversária, "sob restrições próprias da pandemia". Em maio, quando as celebrações aconteceram de forma inédita, sem peregrinos, ainda em pleno confinamento, o cardeal António Marto acreditava que por esta altura já seria possível ter de novo enchentes no Santuário. Mas a pandemia retomou uma curva ascendente e afastou de novo os peregrinos em massa. "Estamos a viver um novo momento de provação e de escolha. Este vírus que nos apoquenta desde março, além de alterar os nossos hábitos, faz-nos refletir sobre o nosso testemunho, que tem de ser um grito contra a injustiça global."

"Não podemos ficar paralisados pelo medo", disse o bispo de Leiria-Fátima, incitando a que "nos ensine outro tipo de contágio, o contágio do amor". Para mais, "no Natal não podemos repetir o que aconteceu na Páscoa", disse. "E isso depende de nós, é a nossa escolha." Na noite passada, a maioria dos peregrinos escolheu ficar em casa, assistindo às cerimónias online. E D. António Marto elogiou mesmo "os peregrinos, que em maio respeitaram o apelo para não vir, e agora estão a respeitar, vindo faseadamente. O comportamento dos cristãos tem sido exemplar", concluiu, enquanto renovava um apelo: "Estamos conscientes da gravidade da pandemia, que está a superar as previsões em números. Por isso, sem deixar de praticar o nosso apoio caritativo, peço a todos que voltemos o nosso olhar e prece para Nossa Senhora, pedindo que nos ajude a libertar da pandemia."

O cardeal lembrou que a fraternidade e amizade social "são o nervo social desta encíclica do Papa Francisco, perante um mundo desumanizado, fragmentado e dividido, cujas patologias foram agravadas pela pandemia".

Redução drástica de peregrinos

Desde que foi revelado o plano de contingência do Santuário para as celebrações deste 13 de outubro - que assinala a sexta e última aparição de Nossa Senhora aos pastorinhos -, em que a DGS fixou em 6000 o número máximo de peregrinos no recinto, a maioria dos que faziam o percurso a pé decidiu fazê-lo antecipadamente. No domingo, por exemplo, o Santuário atingiu essa lotação.

"A falta de peregrinos afeta não só a vida do Santuário como toda a vida da cidade de Fátima e suas imediações", disse o reitor, enquanto dava conta dos números mais recentes: "Neste ano, entre março e setembro, tivemos 436 grupos cancelados", sendo certo que outubro era o mês das peregrinações internacionais, ao contrário de maio, que sempre foi dominado pelos peregrinos nacionais. Para esta peregrinação estão inscritos 11 grupos de Portugal, quatro de Itália, quatro de França, dois da Alemanha e um da Bélgica. No ano passado foram 1530 os que vieram de todo o país (363 em maio).

Mas os dados do Santuário mostram uma outra realidade, que deixa perceber com clareza o que está a acontecer com a hotelaria local: os estrangeiros foram, no ano passado, 2854 grupos inscritos, dos quais 452 em maio, e todo o resto em outubro. Há um ano, esta peregrinação contava com 733 grupos (559 estrangeiros e 174 portugueses), num total de cem mil peregrinos inscritos. Na noite passada foram apenas 4500.

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