André Henriques: "Tirar toda a carne das canções e deixar apenas o osso"

O guitarrista e vocalista dos Linda Martini aventura-se finalmente num primeiro disco a solo, que surpreende pelo despojamento da música e pelo intimismo das letras.

Quando era pequeno, algures nos anos 80, André Henriques era conhecido pelos colegas de escola como Cajarana, uma alcunha inspirada na personagem principal da telenovela Pai Herói, interpretada pelo ator brasileiro Tony Ramos, que também se chamava André - André Cajarana. "Uma memória de desconforto e de construção de identidade", duas questões que lhe voltaram a fazer todo o sentido agora, aos 40 anos, quando se decidiu aventurar pela primeira vez num disco a solo, depois de toda uma vida em bandas rock e a escrever canções para outros, como Cristina Branco, de quem nos últimos anos se tornou colaborador regular.

O resultado é Cajarana, um disco que recupera a alcunha de infância, mas que dá a conhecer ao público o outro lado, mais pessoal e introspetivo, de um dos mais talentosos escritores de canções da música portuguesa. Nesta estreia a solo, surge acompanhado por Ivo Costa (Bateu Matou, Carminho, Sara Tavares) na percussão, de Pedro Ferreira (Quelle Dead Gazelle) na guitarra e de Ricardo Dias Gomes (Caetano Veloso) no baixo e sintetizadores. O músico brasileiro, que também produz o disco, é o neto da autora da novela Pai Herói. "Uma coincidência surreal", como André Henriques a classifica nesta entrevista ao DN, apenas descoberta já durante o processo de conceção do álbum.

Este é um disco um pouco diferente, mais despojado e introspetivo, daquilo que eventualmente se esperaria de um membro de uma das maiores bandas rock portuguesas, os Linda Martini, concorda?
É curioso, porque já algumas pessoas me disseram isso, mas se fosse para fazer o mesmo tinha a banda. Não me interessava nada fazer um disco dentro desse universo mais rock e esse foi talvez o único esforço consciente que fiz. Este disco foi construído de uma forma muito rápida e teve essa única premissa inicial, que passou por não fazer algo igual ao que faço nos Linda Martini.

Como surgiu esta vontade ou necessidade de um disco em nome próprio?
Foi algo muito rápido e até um pouco louco. Nunca antes tinha pensado nisso muito a sério, porque sempre pensei que a questão de a voz ser a mesma dos Linda Martini poderia limitar a criação de um projeto à parte. Já tinha os meus vícios, tanto na forma de cantar como de escrever ou de tocar guitarra e na minha cabeça essa ideia nunca foi muito longe, apesar de muitas pessoas me perguntarem isso.

E o que o fez então avançar?
O clique dá-se aí por volta de 2016, quando fui pela primeira vez convidado para escrever para outros intérpretes, como a Cristina Branco. Quando se escrever para outra pessoa, faz-se apenas um esboço de canção, que depois será rearranjada por outros instrumentistas e a única coisa que realmente sobrevive acaba por ser a melodia e o texto. A partir do momento em que comecei a escrever para outras pessoas abriu-se uma janela diferente, em termos de método de trabalho, porque no contexto da banda surge sempre primeiro o instrumental e a letra só aparece no final.

Quando é que surgem estas canções que fazem parte do disco?
No ano passado, aliás ainda nem fizeram um ano. Tinha acabado de responder a uma série de pedidos de canções e depois de satisfeitas todas as encomendas acabaram por sobrar duas, que para mim também não faziam muito sentido serem tocadas pelos Linda Martini. Comecei então a pensar que talvez fosse interessante cantar aquilo com a minha voz, mas sem toda aquela distorção dos Linda Martini por trás. Ou seja, tirar toda a carne destas canções e deixar apenas o osso. Foi o Pedro Trigueiro, da agência Arruada, que me desafiou a continuar a escrever canções e no espaço de apenas dois meses fiz cerca de uma dúzia. Foi isso que me fez avançar para o disco.

Falou em deixar apenas o osso e o resultado é um disco muito despojado. Se calhar é por isso que as pessoas lhe dizem que esperavam algo diferente...
Se calhar, sim, mas foi mesmo essa a intenção. Eu nem sequer tinha uma guitarra acústica em casa, quando comecei a compor. Usei uma guitarra muito velhinha e depois trabalhei os restos dos arranjos com o Ricardo Dias Gomes, o produtor do disco.

Porque essa escolha pelo Ricardo Dias Gomes, já se conheciam?
Não, não conhecia. Ele é brasileiro e está a viver cá já há alguns anos. Inicialmente ainda pensei no Mocky, o produtor da Feist, que também vivia na altura em Lisboa, mas depois foi novamente o Pedro Trigueiro que me falou do Ricardo. Já o conhecia do seu trabalho com a Banda Cê, do Caetano Veloso, especialmente pelo disco Cê, que ouvi muito na altura. Depois também percebi que o Ricardo tem um percurso a solo mais exploratório, já com dois discos muito completamente fora do formato canção e isso também me interessava. Por outro lado, sou muito desligado das tecnologias de gravação e edição e precisava de alguém como ele para esse trabalho, com quem depois também poderia trabalhar em conjunto os arranjos das músicas.

E há também a história da novela Pai Herói, que está na origem do nome do disco, Cajarana.
É incrível, essa história. Já andava com esse nome há muito na cabeça, inclusivamente pensei em utilizá-lo como uma espécie de alter ego, porque sempre tive bandas e sentia-me um pouco estranho em ter um disco com o meu nome escrito na capa. E quando contei a história ao Ricardo foi exatamente para ele me ajudar a decidir isso. Apesar de termos a mesma idade, ele não se lembrava da novela, mas ao pesquisar na internet percebeu que tinha sido escrita pela avó dele. No limite até terá sido a avó dele a criar este nome, o que é uma coincidência completamente surreal. Foi aí que tomei a decisão de usar o nome Cajarana como título do disco.

Ficou com vontade de continuara a fazer música a solo?
Sim, porque descobri que esta forma diferente de trabalhar me dá um gozo enorme. Não sei o que vai acontecer no futuro, se vou conseguir fazer mais um disco ou sequer se me vai apetecer. Não sei se o farei sozinho ou em colaboração com outros músicos, mas é sem dúvida uma ideia que mantenho em aberto, como se tivesse uma gaveta nova que posso ir enchendo com esses novos trabalhos. E depois logo se vê.

Apesar de ser um trabalho em nome próprio chamou alguns músicos para o acompanharem nesta aventura: o Ivo Costa para a percussão, o Pedro Ferreira para as guitarras e o próprio Ricardo Dias Gomes no baixo e sintetizadores. O que é que eles trouxeram ao disco?
Foram uma bênção e uma maldição. Chegámos a um momento em que pensei que seria interessante chamar mais alguém, até para um dia transportar isto para um palco, sem perder as linhas melódicas já entretanto criadas por mim e pelo Ricardo. Mas ao mesmo tempo queríamos manter a coisa o mais simples possível. Pensei logo no Ivo, que é um baterista incrível e está ligado a estilos musicais que não são de todo a minha praia. O Pedro acabou por ser uma escolha mais óbvia, porque é alguém que já gravita no universo dos Linda Martini e além de gostar muito da maneira como toca, somos amigos desde há muito tempo. Mas a chegada deles acabou por transformar a música, levando-a, nalguns casos, noutra direção, apesar de mantermos o despojamento inicialmente pretendido. Mas no final ficámos todos satisfeitos com o disco, que é o mais importante.

Há uma certa melancolia neste disco, tanto na temática das letras como na parte instrumental, concorda?
Isso é algo que já vem de trás. Aliás, quem conhece o meu trabalho com os Linda Martini sabe que não sou propriamente um escritor de canções solares (risos). O meu trabalho pende sempre para esse lado mais melancólico, é uma característica da minha escrita.

Mas aqui, se calhar até pelo despojamento da música, acaba por estar mais presente.
Claro que sim, porque a predominância do texto é maior e o instrumental está mais centrado na palavra. Essa é a grande diferença. Veja-se o caso da faixa Maria Odete, uma canção inspirada na temática da violência doméstica, com uma letra claustrofóbica, nascida a partir de uma frase que um dia me surgiu na cabeça: "Maria Odete saiu à rua de óculos de sol num dia de chuva." Agarrei logo na guitarra e quando comecei a fazer a canção tinha a ideia inicial de fazer um refrão, como é normal no pop-rock, mas depois decidi transformar a música em algo mais contínuo, quase como se fosse um labirinto, para dar mais ênfase à situação que a personagem está a viver, uma relação tóxica da qual quer sair mas não sabe como. E fazemos isso acrescentando um instrumento a cada volta do carrossel, retirando-os todos no final. Isto para dizer que, neste disco, toda a parte musical foi construída para enfatizar a mensagem.

É também um disco mais pessoal do que os que grava com os Linda Martini?
Sim, porque quando estou a escrever para a banda e apesar de continuar a ser o meu ponto de vista, faço-o de forma a que todos os restantes elementos também se revejam nas letras. Mas quando se assina um disco em nome próprio isso assume uma dimensão muito maior, quando falo dos meus filhos ou das minhas relações com os outros.

E não teme essa exposição aos outros, de sentimentos tão pessoais?
Não, porque música é isso mesmo, é emoção. Uma das coisas que me deixou muito feliz neste disco foi o facto de, pela primeira vez, ter conseguido escrever sobre coisas que me são tão próximas. E de me ter feito tanto sentido, a forma como as expus nas canções. Quando somos apenas o narrador de algo imaginado tudo se torna mais fácil. Já quando escrevemos sobre o amor que sentimos por alguém, por exemplo, é muito mais complicado, porque parece que as palavras não fazem jus aos sentimentos. E neste disco, pela primeira vez, consegui sentir que estava a ser verdadeiramente honesto na minha escrita. Isso deixou-me muito feliz.

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