Portugueses pediram emprestado 54 milhões por dia antes da crise 

Nos primeiros três meses de 2020, os pedidos de crédito voltaram a bater recordes: 4900 milhões.

É um novo recorde. Antes da crise provocada pelo novo coronavírus, os portugueses pediram emprestado à banca um total de 4900 milhões de euros. São, em média, 54 milhões de euros por dia em novos créditos nos três primeiros meses deste ano.

Os dados foram divulgados ontem pelo Banco de Portugal e mostram como as famílias mantinham a confiança na economia e ainda não temiam a epidemia. Só a 18 de março foi decretado estado de emergência em Portugal. A medida obrigou ao confinamento forçado da população, encerrou escolas, lojas e serviços. Empresas fecharam e o desemprego disparou.

"Com a covid, deverá ter acontecido um virar de página completo", alerta Filipe Garcia, economista da IMF -Informação de Mercados Financeiros. A partir de abril, o cenário deverá ser drasticamente diferente. Os bancos preveem que vai haver uma forte quebra nos pedidos de crédito por parte dos particulares, no segundo trimestre deste ano, em especial no segmento da habitação.

A corrida aos empréstimos fez-se sentir quer na habitação, quer no consumo. Os novos créditos para compra de casa atingiram 2848 milhões de euros, o valor trimestral mais alto desde 2008. É uma subida de 21% face ao valor registado no primeiro trimestre de 2019. E só em março foram concedidos 952 milhões, um aumento de 9,4% em relação ao mesmo mês de 2019.

Os novos créditos ao consumo, por seu lado, totalizaram 1350 milhões de euros, acima dos 1092 milhões um ano antes. É um recorde de quase duas décadas. Só em março, foram concedidos 421 milhões de euros em crédito ao consumo, mais 32 milhões do que um ano antes.

Nos empréstimos às famílias com outros fins, os novos créditos atingiram 240 milhões de euros em março, elevando para 703 milhões de euros o montante concedido no primeiro trimestre, contra apenas 488 milhões nos primeiros três meses de 2019.

Com a crise, traduzida em mais falências de empresas, corte nos rendimentos das famílias e um agravamento do desemprego, a expectativa é de uma menor procura e de maiores limites à concessão de crédito. "No caso do crédito à habitação, a partir de março, o mercado imobiliário está parado. A confiança dos potenciais compradores está contraída. Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer aos preços das casas", afirmou Filipe Garcia.

No crédito ao consumo, entraram em vigor regras mais apertadas impostas em janeiro pelo Banco de Portugal. O prazo máximo para crédito pessoal baixou de 10 para sete anos. E, com a maior desemprego e menor confiança dos consumidores, a procura por eletrodomésticos, automóveis e outros equipamentos será inferior, o que afetará a procura de crédito.

Jornalista do Dinheiro Vivo

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