A noite em que Fátima se fez mais de velas que de pessoas

Mais de mil velas iluminaram o recinto do Santuário de Fátima, numa noite histórica: sem peregrinos, a procissão fez-se para cerca de uma centena de pessoas, e para o mundo inteiro, através dos media. Para memória futura, 103 anos depois da data consagrada pela igreja como da aparição da Nossa Senhora aos pastorinhos, este 13 de maio foi "o mais difícil" de sempre, como admitiu António Marto, bispo de Leiria-Fátima.

O que sempre era mar de gente, desde há 100 anos, foi o perfeito vazio. A imagem de Nossa Senhora de Fátima, envolta em rosas brancas e amarelas, mais umas dúzias de orquídeas brancas, percorreu o trajeto entre a capelinha das Aparições e o altar da Basílica num silêncio impressionante.

"É talvez a primeira invocação espontânea de quem aqui sente a noite escura que pesa sobre o mundo abatido por uma pandemia global", disse o cardeal António Marto, bispo de Leiria-Fátima, na homilia desta quinta-feira, 12 de maio, a primeira peregrinação da história de Fátima sem peregrinos. Ou melhor, sem o mar de peregrinos que sempre emoldurava aquela imagem, desde 1917.

"Nesta hora de provação não podíamos esquecer a representação de quem mais sofreu e continua a sofrer e dos que mais lutaram e lutam pela saúde de todos", disse, invocando na sua oração os que morreram, bem como os familiares, os doentes, todos os profissionais de saúde, cuidadores, idosos, pobres, famílias, sacerdotes, trabalhadores da proteção covil, dos transportes, limpeza, alimentação e outros "que não se pouparam a sacrifícios, como bons samaritanos". Já à tarde, no encontro com os jornalistas, o bispo de Leiria-Fátima tinha invocado os enfermeiros, já que hoje o Dia lhes era internacionalmente dedicado.

À procissão das velas assistiram cerca de 100 pessoas, entre convidados e funcionários do santuário, que ocuparam com toda a distância entre si os bancos da capelinha das aparições, bem como algumas cadeiras frente ao altar. Entre esses estavam três peregrinos, escolhidos pelo Santuário para homenagear "todos aqueles que hoje não puderam estar aqui, como tanto queriam".

Irene Dantas, 73 anos, natural de Trancoso e residente em Tires, era a única mulher. Quando lhe ligaram de Fátima, entendeu o convite como "uma bênção de Nossa Senhora". Ela, que todos os anos organiza um grupo em peregrinação, foi uma das escolhidas. A seu lado, Ricardo Pereira, funcionário do santuário, natural da Barrenta, Porto de Mós, e o jovem João Coimbra, de apenas 18 anos, natural da Azinhaga. Os três assistiram à celebração, emocionados, por detrás da máscara. Eles e os outros,

"Fica connosco, Senhor, porque se faz noite", repetiu mais do que uma vez António Marto. Do altar via tudo, como de costume, num recinto "deserto, mas não vazio". A seu lado, 21 velas, que representavam as dioceses de todo o país. E mil velas por todo o recinto, que lembravam todos, no mundo inteiro.

O padre Joaquim Ganhão foi o mestre da celebração, tendo como concelebrantes o cardeal patriarca de Lisboa, o arcebispo de Braga, o arcebispo de Évora e vários capelães do Santuário de Fátima. Um pequeno coro de 10 elementos respondeu ao maestro Ricardo Campos; o andor e a cruz luminosa foram transportados por vigilantes do Santuário. O resto do público eram maioritariamente jornalistas.

"É a peregrinação mais difícil na vida deste Santuário, por ventura a mais interpeladora", afirmara à tarde o bispo de Leiria-Fátima. Marto acredita, porém, que "o vazio que os nossos olhos alcançam nunca esteve tão preenchido". O cardeal prefere agarrar-se ao lado espiritual e emocional da peregrinação aniversária deste 13 de maio, em que apenas três peregrinos estarão no recinto a representar os milhares que ali estariam esta noite e amanhã de manhã, não fora a pandemia provocada por covid-19.

Quando ao final da tarde de terça-feira falou aos jornalistas, na colunata, o bispo não resistiu a estabelecer algum paralelismo com outra pandemia, a de há 100 anos - que de resto acabaria por vitimar dois dos três pastorinhos, os irmãos já beatificados Jacinta e Francisco Marto. Também essa deixou marcas "devastadoras e desastrosas", como lembrou.

Os dias difíceis "que todos vivemos" foram a tónica do discurso do cardeal, que antevê ainda um agravamento para os que hão de vir - e que trarão consequências "na vida pessoal, social, laboral, económica e financeira". Ainda assim, mesmo num país "em estado de choque", António Marto acredita que é preciso fazer um esforço para ultrapassar isso. "A salvação chega-nos pelo outro, pelo respeito e pela responsabilidade de cada um. Todos somos interdependentes", afirmou, apelando sempre a duas palavras de ordem: responsabilidade e solidariedade. De resto, lembraria mais tarde as palavras do papa Francisco, de que tantos se têm apropriado: "que ninguém fique para trás".

Contra o agravamento da pandemia

Numa conferência de imprensa em que os jornalistas se organizaram para que respondesse apenas a cinco perguntas, António Marto confessou ter recebido vários e-mails de quem não entendia que o santuário acatasse as orientações da Direção Geral de Saúde (DGS), fechando o recinto aos peregrinos. Foram muitas as vozes que estabeleceram comparações entre a peregrinação aniversária e as celebrações do 1.º de maio. Mas o cardeal considera que "não podemos comparar o incomparável. Uma coisa são as manifestações de caráter sindical e político, outra coisa é a responsabilidade da Igreja. O risco de contágio era muito elevado, aqui". Porque seria imprevisível saber a dimensão "da multidão que vinha, e seria impossível determinar um número".

"Eu não quereria ficar na história como um bispo responsável pelo agravamento da pandemia", sublinhou. De resto, está convicto de que "a fé não se mede pelas multidões". Não deixou porém de referir "alguns e-mails que [o] chocaram muito".

A peregrina que só queria rezar...

"Só queria mesmo rezar o terço, como tenho feito todos os dias, mas afinal já não me deixam entrar". Maria Amélia Alves lamenta-se ao grupo de guardas da GNR, numa das entradas do Santuário de Fátima. Faltavam ainda mais de 4 horas para a procissão das velas, mas o aviso das autoridades era mesmo para cumprir.

Amélia, 77 anos, queria ao menos ver a capelinha das Aparições. Mas a imensidão de arbustos que em dias de calor é tão apreciada, desta vez é, também ela, um obstáculo. A história desta peregrina - haveria de repetir-se mais vezes, até ao final do dia. As autoridades já estavam preparadas, e por isso o discurso sai fluído: "não pode, minha senhora. Mesmo sendo residente, não pode. Ninguém pode". Amélia guarda o terço e um livrinho de orações, ajeita a máscara, e conta ao DN como Fátima é tão importante na sua vida: mora no Montijo, mas foi ali que casou há 53 anos. Nos últimos 40 faz sempre uma peregrinação a pé. "Por sorte, já fiz em fevereiro...mas desde que abriram outra vez os espaços de culto estou habituada a vir rezar o terço", acrescenta, ela que há poucos anos acabou por comprar casa ali perto, no Alto das Nogueiras. Como já sabia que não podia participar na procissão - que será simbólica - comprou 16 velas, que esta noite vai acender e colocar em quatro janelas. E assim contribuir para o "manto de luz" que o Santuário queria ver espalhado pelo país, à janela de cada um.

...e os que furaram a barreira de segurança

Mas houve quem não acatasse de forma alguma a recomendação das autoridades civis, religiosas e sanitárias, rumando até Fátima. Nos arredores do Santuário pequenos grupos rezavam, ao início da noite. Eram quase 21h30, hora prevista para o início da celebração, quando um homem de meia idade conseguiu saltar as barreiras de segurança.

O indivíduo, cuja nacionalidade se desconhece, mas que falava espanhol, conseguiu introduzir-se no recinto do Santuário de Fátima, fechado aos peregrinos nestes dois dias.

"Foi impedido de entrar pela GNR e pelos vigilantes, mas saltou a barreira e conseguiu entrar", explicou aos jornalistas Carmo Rodeia, do gabinete de comunicação do Santuário.

Logo depois, uma mulher que estaria com ele entrou também no recinto, gritando "Senhora, ajuda-me!", descontroladamente. Os vigilantes correram a imobilizar o homem no chão, bem como a mulher, encostada à vedação da Azinheira.

"O que sabemos é que este homem já durante a tarde tentou entrar, pelo lado sul. Agora acabou por conseguir entrar pelo lado norte", disse a mesma responsável.

O DN assistiu ao momento em que o homem entrou, carregando um quadro com a imagem de Nossa Senhora de Fátima. Rapidamente os vigilantes correram a imobilizá-lo, facto que a mulher aproveitou para entrar, com uma cruz e um terço na mão. "Não sabemos se existe alguma relação entre eles", afirmou Carmo Rodeia.

Ambos ficaram "retidos", apenas, à guarda da GNR.

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