Aconteceu em 1982 - O dia em que o DN ofereceu um "poster a cores" do Papa

Primeira página do DN de 13 de maio não referia a tentativa de homicídio do líder do Vaticano em Fátima.

"O Papa teve em Lisboa uma receção digna da tradicional religiosiosidade do povo português."

A legenda das duas fotos da manchete do DN de 13 de maio de 1982 - que assinala a chegada do Sumo Pontífice a Portugal, numa primeira visita (fora entronizado há menos de quatro anos) para ir a Fátima -, uma mostrando "a cabeça do cortejo" de João Paulo II a chegar ao Rossio, outra o clérigo polaco a acenar à multidão da porta da Igreja de Santo António, transpira entusiasmo e reverência, designando mesmo o chefe da Igreja Católica como "Santo Padre".

O tom prossegue no texto: "Um autêntico rio de gente, uma grande festa do povo de Lisboa que se reuniu na mais impressionante moldura humana desde há muitos anos verificada nas ruas da capital portuguesa. (...) Em pé no automóvel, braços abertos, o Santo Padre sorria à multidão que o aplaudia, acenava com lenços brancos, agitava bandeiras, gritava o seu nome. Eram escassos segundos de contacto com João Paulo II, mas o suficiente para uma imagem indelével naqueles que pejavam as ruas da capital e viam o Papa a poucos metros. A emoção podia ler-se nos rostos, nos olhos húmidos de lágrimas."

O título, curiosamente sem aspas apesar de citar Karol Wojtyla, é "Estou a realizar um sonho." Trata-se de um excerto da declaração feita à chegada: "Estou em Portugal a realizar um sonho há muito acalentado, como homem da Igreja e desejoso de conhecer Fátima diretamente."

Wojtyla, que voltaria a Fátima duas vezes, em 1991 e em 2000 (cinco anos antes da sua morte), e ao chegar ao santuário agradeceu à Virgem ter sobrevivido a um atentado, no ano anterior, na Praça de São Pedro, em Roma (segundo ele, foi ela que "desviou a bala"), sofreu nova tentativa de homicídio nessa mesma noite, durante a Procissão das Velas, por parte de um sacerdote espanhol. Mais tarde, em 2000, esse atentado seria associado ao "terceiro segredo de Fátima", que teria sido revelado pela única sobrevivente do trio de crianças que afirmou ter visto a "senhora de Fátima", a freira Lúcia.

Recebido à chegada ao país pelo então Presidente da República Ramalho Eanes, no seu segundo mandato, e pelo então primeiro-ministro Pinto Balsemão, o Papa esteve primeiro na Sé e depois na Igreja de Santo António, onde o presidente da Câmara de Lisboa lhe entregou a medalha de honra da cidade. Seguiu para o Palácio de Belém e daí para a Nunciatura. E por fim para Fátima, onde, descreve o texto, "foi recebido com verdadeiro júbilo por multidão impressionante que em coro cantou "Bendito o que vem em nome do Senhor."

Uma receção à qual o jornal reservou cinco páginas no seu interior", além do poster a cores que, no canto superior direito da primeira página, se anuncia como oferta com a compra do diário. A notícia da tentativa de homicídio, porém, não consta: a edição estaria já fechada quando se deu.

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