Petróleo caro deixou contas da aviação no vermelho

Mesmo as companhias que registaram lucros admitem impacto na fatura com combustível. Europa é a região mais afetada. TAP e SATA não fugiram às perdas em 2018.

O anúncio já era esperado. Habitualmente na lista das companhias aéreas com maiores ganhos, a Norwegian registou, no ano passado, um prejuízo de 149 milhões de euros. A notícia veio acompanhada de um plano de reestruturação que obriga a um corte nas despesas e à venda de aviões. Mas a empresa escandinava não é caso único. No ano passado, o aumento do preço do petróleo, que atirou o jet fuel para 20 dólares acima dos valores de 2017, arrasou as contas da aviação comercial. Em Portugal, os números também são vermelhos: na SATA os prejuízos devem ascender a 41 milhões de euros, adiantou o governo regional, e a TAP, que ainda não divulgou contas, já veio avisar que teve um ano "particularmente difícil e exigente", nas palavras de Miguel Frasquilho, presidente do conselho de administração. As indemnizações por atrasos e cancelamentos de voos também não ajudaram.

"O ano foi mais duro do que o esperado", disse recentemente Brian Pearce, economista-chefe da IATA, a Associação Internacional do Transporte Aéreo. "Os lucros das companhias aéreas foram espremidos por uma aceleração das despesas, especialmente a subida dos preços do combustível, mais custos com mão-de-obra, e gastos em infraestruturas", acrescentou. A IATA sinaliza que o ano foi particularmente difícil na Europa, onde as companhias fizeram hedging ao combustível a preços mais elevados do que as empresas norte-americanas, chinesas ou indianas.

Os resultados pouco animadores não vieram sozinhos. Ao longo do ano passado, as ações das companhias aéreas caíram 20%, duas vezes mais do que o mercado global de ações. "A má performance do mercado de ações reflete as preocupações dos investidores com o impacto do aumento dos cursos financeiros das companhias. Ainda assim, a forte queda nos preços do petróleo no fecho de 2018 contribuiu para uma melhoria no quarto trimestre."

A irlandesa Ryanair, por exemplo, registou um prejuízo de 22 milhões de euros, nos três últimos meses do ano, bem abaixo dos 113 milhões de lucros registados no período homólogo de 2019. Os resultados financeiros chegaram praticamente ao mesmo tempo que o anúncio da passagem de Michael O'Leary para CEO da Ryanair Holdings, a nova marca que passa a agregar várias companhias aéreas. O mercado viu este movimento como um sinal de que a Ryanair estaria a seguir os passos do IAG, o grupo da British Airways, e a abrir caminho à compra de outras pequenas companhias, de forma a consolidar a sua posição. A consolidação é uma tendência que muitos analistas defendem como a única salvação para a aviação europeia. Nos Estados Unidos, cinco companhias comandam 77% do mercado aéreo, enquanto na Europa apenas respondem a 51% do mercado.

Também a Wizz Air caiu a pique. Depois de nos últimos anos ter cumprido com sucesso um plano de expansão na Europa, a companhia húngara viu, em 2018, os seus resultados antes de impostos afundarem 90%, para 1,8 milhões de euros.

Aumento das indemnizações

A par do aumento da fatura com combustível, as companhias aéreas veem-se a braços com o aumento das indemnizações por atrasos ou cancelamentos. Só em julho passado, o congestionamento dos céus europeus obrigou a 135 mil minutos de atrasos, em média, por dia. Ou seja, todos juntos, os atrasos de julho equivalem a 94 dias - mais do dobro do registado um ano antes.

Na TAP esta realidade foi inegável. Miguel Frasquilho admitiu no arranque do ano que, em alguns meses de 2018, a companhia portuguesa registou uma taxa de pontualidade abaixo dos 50%, algo "não aceitável", alertou. Os atrasos são uma das razões para o regresso aos prejuízos, que tinha interrompido em 2017. Mas não foi só. O DN/Dinheiro Vivo sabe que o encerramento da TAP Manutenção e Engenharia em Porto Alegre, e o despedimento da maioria dos funcionários, também pesou nas contas que serão apresentadas no final do próximo mês.

A quebra nas contas não foi exclusivo da Europa. A Emirates também anunciou em novembro uma queda de 86% nos lucros. De acordo com a Reuters, foi o pior resultado de sempre para a companhia com sede no Dubai e que o CEO, Sheikh Ahmed, associou não só ao combustível como também à "incerteza económica e política" que prometiam dificuldades para o restante ano fiscal.

A maior companhia aérea da Índia, a IndiGo, viu os custos com combustível subirem 54% face ao ano passado, o que conjugado com uma desvalorização da rupia levou a uma redução drástica nos resultados. E na Thai 2018 era visto como o ano em que se regressaria aos lucros, mas a companhia aérea que sofreu uma reestruturação em 2015 voltou a registar prejuízos que rondaram os 365 milhões de dólares.

Apesar disto, as grandes companhias resistiram. A Air France, que no ano passado continuou a braços com greves de controladores aéreos, viu o resultado de exploração baixar 30,7%, mas aumentou os lucros para 409 milhões de euros. O grupo disse ainda que vai combater os custos com combustível com melhorias operacionais.

No grupo IAG, o ano também foi de crescimento. Apesar do aumento de 9,5% dos custos com combustível, a dona da British Airways e da Iberia registou um lucro operacional de 3,230 milhões de euros antes de efeitos excecionais. As melhorias aconteceram "apesar de três efeitos significativos: aumento dos preços do petróleo em 30%, disrupção do Controlo de Tráfego Aéreo e impacto do câmbio de 129 milhões de euros".

Mais Notícias

Outras Notícias GMG