Indiana Jones. Há 40 anos no reino das grandes aventuras

Os Salteadores da Arca Perdida faz 40 anos: a consagração de Indiana Jones corresponde a um momento decisivo de transformação artística e industrial de Hollywood.

A história do cinema faz-se também das suas frases promocionais. Por vezes, algumas breves palavras conseguem condensar, não apenas o fascínio de um filme, mas também o espírito de toda uma época, da sua cultura cinematográfica e dos respetivos valores de espectáculo. "O regresso da grande aventura" é uma dessas frases: serviu para lançar Os Salteadores da Arca Perdida, faz agora 40 anos - foi a 12 de junho de 1981.

A palavra mágica não é "aventura", como o elemento decisivo não é a sua "grandeza". Afinal de contas, desde as superproduções do tempo do mudo, assinadas por David W. Griffith (Intolerância, 1916) ou Cecil B. DeMille (Os Dez Mandamentos, 1923), Hollywood habituou as plateias de todo o mundo a formas peculiares de epopeia. Naquele momento, há quatro décadas, a pedra de toque estava na palavra "regresso": a partir dela, definiam-se as bases criativas, os métodos de produção e os sistemas de difusão de todo um universo alicerçado numa riquíssima memória cinéfila.

Está em rodagem uma quinta aventura de Indiana Jones. Ainda sem título, o filme tem estreia marcada para 29 de julho de 2022, 16 dias depois de Harrison Ford fazer 80 anos. Spielberg será o produtor.

Ao realizar Os Salteadores da Arca Perdida, Steven Spielberg (na altura com 34 anos) era o primeiro a ter plena consciência dessa memória. Em 2011, no 30.º aniversário do filme, em depoimento registado pelo American Film Institute, começaria mesmo por caracterizar o filme, não a partir da sua experiência de cineasta, mas de uma militante nostalgia de espectador: tratava-se de reencontrar o espírito dos filmes que descobriu nas "matinées de sábado", quando tinha oito ou nove anos de idade.

Que filmes? Pois bem, aqueles que, em meados da década de 1950, eram já objeto de reposições ("revivals"): Spielberg cresceu a ver as aventuras da Republic Pictures, os lendários "serials", produções de "série B", com orçamentos austeros e rodagem acelerada, normalmente organizados em coleções de 12 ou 15 capítulos, com cerca de 70 minutos cada. Ao longo de sucessivas semanas de exibição, aí se celebravam as aventuras de heróis como Dick Tracy (Dick Tracy vs. Crime Inc., 1941), Zorro (Ghost of Zorro, 1949) ou personagens de outras galáxias. Por exemplo: Flying Disc Man from Mars, produção de 1950, protagonizada por Walter Reed, entre nós intitulada O Enigma dos Discos Voadores.

Para Spielberg, o desafio era também um privilégio. A saber: poder fazer um filme com o espírito de um "serial", mas agora em ecrã gigante e Technicolor. Mais do que isso, o seu herói, Indiana Jones, interpretado por Harrison Ford, possuía uma ambiguidade com inusitadas potencialidades dramáticas e irónicas: duro e agressivo, mas também frágil e vulnerável perante as mulheres. Para Spielberg, detentor de uma agenda cinéfila bem informada, Harrison Ford surgia como um herdeiro de Humphrey Bogart, a ponto de ter concebido alguns aspetos do par formado com Karen Allen como uma derivação saudosa de Rick e Ilsa (Bogart/Ingrid Bergman) no clássico Casablanca (1942).

O primeiro "blockbuster"

Como é óbvio, nada disto aconteceu apenas através de impulsos nostálgicos. Num dos cartazes da época, Indiana Jones era anunciado como "o novo herói dos criadores de Tubarão e Star Wars". Que é como quem diz: Spielberg e George Lucas, numa aliança que redefiniu valores e práticas de toda uma estrutura industrial.

Importa, aliás, não esquecer que o "inventor" da personagem do Dr. Henry Walton Jones Jr., mais conhecido como Indiana Jones, não foi Spielberg, mas Lucas. Como o próprio recordou em diversas entrevistas, a sua "aventura espacial" surgiu em paralelo com a ideia de um arqueólogo aventureiro, envolvido na procura de uma "arca" ligada a "poderes sobrenaturais". O inesperado mega-sucesso de Star Wars, estreado em 1977 (com o título português A Guerra das Estrelas), levou-o a dedicar-se por inteiro à saga galática, oferecendo o projeto de Indiana Jones ao seu amigo Spielberg.

Com Tubarão, lançado em 1975, Spielberg contribuíra decisivamente para uma nova dinâmica, temática e industrial. Tradicionalmente apontado como o primeiro "blockbuster" da era moderna, Tubarão não se distinguiu apenas pelas singularidades do seu conceito de espectáculo, narrando uma história em que, definitivamente, a mãe Natureza perdeu qualquer caráter idílico; o filme desempenhou também um papel determinante na reconversão das regras de difusão dos filmes nas salas.

Até aí, no mercado norte-americano (EUA + Canadá), mas também nos mercados de menor dimensão, cada filme cumpria um tempo de vida comercial mais ou menos dilatado. O lançamento de um determinado título em salas de Nova Iorque e Los Angeles podia ocorrer algumas semanas, ou meses, antes da sua exibição noutras cidades e regiões do país. Com Tubarão tudo mudou: foi espectacularmente alargado o número de salas em simultâneo (mais de mil, situação invulgar na época), mudando a própria lógica de rentabilização - visavam-se mais receitas em menos tempo. Os resultados comerciais foram grandiosos: Os Salteadores da Arca Perdida acabaria por ser o filme mais rentável de 1981, quase duplicando as receitas de A Casa do Lago, nº 2 do top.

A presença de A Casa do Lago nesta memória de 1981 é bem reveladora das convulsões e contradições que Hollywood estava a atravessar. Coexistiam, de facto, duas matrizes de "entertainment": se o primeiro capítulo das aventuras de Indiana Jones ilustrava o triunfo de toda uma nova geração de criadores, A Casa do Lago, drama familiar protagonizado por Katharine Hepburn e Henry Fonda, surgia como um objeto ainda ligado a modelos narrativos tradicionais.

Dir-se-ia que Spielberg e Lucas relançaram o espírito dos "serials" e das aventuras que os apaixonaram enquanto crianças e adolescentes, mas agora com a sofisticação técnica de um cinema de recursos financeiros incompara-velmente superiores. Na prática, Spielberg dirigiu três sequelas: Indiana Jones e o Templo Perdido (1984), Indiana Jones e a Grande Cruzada (1989) e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008).

No tempo dos super-heróis

A herança de Os Salteadores da Arca Perdida é tão rica quanto paradoxal. Sendo um brilhante herdeiro da mais nobre tradição de espectáculo de Hollywood, Spielberg impôs-se também como um dos grandes renovadores das bases tecnológicas da produção americana das últimas épocas. Com várias proezas realmente excecionais, como a fábula futurista que é A. I. - Inteligência Artificial (2001), mas também com um falhanço bizarro: através da sobrecarga de banais "efeitos especiais", Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal é mesmo um momento menor na sua filmografia.

A evolução da produção de "blockbusters" suscita discussões que, inevitavelmente, transcendem o gosto cinéfilo da grande aventura. Assim, a ocupação dos mercados (em particular os de menor dimensão, como é o caso português) pela atual vaga de super-heróis tende a criar desequilíbrios graves na exposição dos filmes, quase sempre penalizando as produções mais "pequenas" que não beneficiam de grandes investimentos promocionais. Para, pelo menos, duas gerações de espectadores, a noção de espectáculo foi gerada pelas rotinas de super-heróis e afins, "contaminadas" pelos jogos de vídeo, secundarizando os heróis de dimensão humana como Indiana Jones.

Mais do que uma questão de "gosto", esse é um problema eminentemente industrial. Provêm do interior da própria indústria dos EUA as vozes que têm chamado a atenção para a agitada evolução de uma indústria que, ao investir (quase) tudo em "blockbusters", pode estar a criar condições para o desmantelar das suas bases económicas e simbólicas.

No dia 12 de junho de 2013, numa conversa com os alunos da escola de cinema da Universidade da Califórnia, houve mesmo dois oradores que chamaram a atenção para uma hipótese dramática: os continuados investimentos em filmes ("bons" ou "maus", não é isso que está em causa) com orçamentos na ordem dos 250 milhões de dólares podem criar bloqueios insustentáveis na própria dinâmica industrial, sobretudo porque alguns desses filmes terão sempre dificuldades em recuperar gastos tão gigantescos. Quem eram esses oradores? Críticos de cinema? Jornalistas? Economistas? Não exatamente. Os seus nomes: Steven Spielberg e George Lucas.

Entretanto, perversamente ou não, está em rodagem uma quinta aventura de Indiana Jones. Spielberg surge na ficha técnica apenas como produtor, com a realização entregue a James Mangold (último filme: Le Mans "66: O Duelo, 2019). Quem interpreta Indiana Jones? Harrison Ford! O que significa que terá sido resolvido um dos impasses que o projeto suscitou. A saber: como construir uma nova aventura em que o herói tenha uma idade compatível com a idade do próprio ator? Ainda sem título, o filme tem estreia marcada para 29 de julho de 2022, dezasseis dias depois de Harrison Ford fazer 80 anos.

dnot@dn.pt

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