"Tem havido um movimento entre os mais velhos de recusa a serem infantilizados"

Júlio Machado Vaz já abraçou os netos e foi à casa da Cabreira. Falta matar as saudades das tertúlias. Critica a infantilização dos mais velhos durante esta pandemia, a que se recusa, ele que pertence a um grupo de risco.

Psiquiatra e sexólogo, Júlio Machado Vaz faz questão de manter as rotinas em tempos de covid-19, mesmo durante o estado de emergência, cuidados que, sublinha, todos devem ter para manter a higiene mental. Foi sempre no consultório que fez as consultas online, a maioria das quais voltaram a ser presenciais. Pertence a um grupo de risco, nasceu há 70 anos no Porto, e recusa-se a que os mais velhos sejam infantilizados, o que diz tem acontecido nesta pandemia. Tudo o resto da sua vida tem sido igual, com as consultas, a escrita, e a gravação de O Amor É.

Como é que se tem organizado nestes tempos de pandemia?
De certa forma, fui um privilegiado porque a minha rotina não se alterou muito. Continuei a fazer consultório, por Skype ou por Zoom, mantivemos as gravações de O Amor É [Antena 1]. E, como não sou propriamente um notívago, só ao fim de semana senti uma diferença; a falta de amigos, das tertúlias, de andar por aí.

E com o desconfinamento?
Voltei a ter consultas presenciais, mantendo o teletrabalho para aqueles que querem, muitas vezes por viverem fora do Porto.

Nunca saiu de casa nos primeiros dois meses?
Saí, por uma questão de higiene mental fiz teleconsulta a partir do consultório. Achei, e mantenho essa impressão, que era bom para mim manter a rotina, pegar no carro, ir ao consultório.

A maior dificuldade foi o afastamento da família e dos amigos?
Sim, estive dois meses e meio sem estar com os meus dois netos.

Houve abraços no reencontro?
Houve, seria hipócrita negar. Eles avançaram para mim e não tive coragem de fazer qualquer tipo de movimento de recuo. Estava a precisar muito daqueles dois abraços.

Dava consultas à distância antes desta crise sanitária?
Sim, porque há pessoas que estão no estrangeiro, algumas que emigraram durante o pico da crise económica, e outras que vivem nos Açores e na Madeira. Antes da pandemia havia pessoas com as quais, não digo sistematicamente, utilizava frequentemente o Zoom ou o Skype.

O que é que foi obrigado a alterar?
O que tive de alterar, não só eu como todos os meus colegas, foram as precauções higiénicas no consultório. Foi uma grande alteração na manutenção de distâncias, a utilização de máscara, de luvas, de desinfeção, etc., o que, obviamente, causa incómodo a quem nos procura e a quem trabalha connosco, mas é inevitável. Nós, médicos, temos a obrigação de dar o exemplo.

Prejudica a relação entre o doente e o médico?
No meu caso, felizmente não porque tenho um gabinete muito grande, as pessoas e eu funcionamos sem máscara. Nas áreas comuns, são as diretivas que temos, é obrigatório usar máscara.

De que forma é que estas distâncias estão a influenciar-nos psicologicamente?
As pessoas passaram este período de formas diversas, houve uma miríade de reações. Como se compreende, houve pessoas que sentiram muito, sobretudo os mais velhos e sobretudo os mais velhos com dificuldades em manejar os meios tecnológicos. Por exemplo, houve pessoas que, para terem consultas online, tiveram de ser orientadas pela minha assistente. Eu próprio não sou muito bom nestas coisas. Havia um lamento generalizado em relação ao isolamento social. Aqui, é preciso sublinhar que estou a falar do isolamento social físico, porque pudemo-nos manter em contacto social mas só através da tecnologia. Também tive pessoas que me disseram: "Estava sempre a adiar o abrandamento do meu ritmo de vida e o raio do vírus obrigou-me a fazê-lo", e isso teve um significado importante para elas, parar e chegar à conclusão de que era possível.

Distanciamento físico e não distanciamento social.
Imagine isto acontecer há 15 ou 20 anos, sem toda a tecnologia que temos. Eu não estive com os meus netos mas praticamente todos os dias estive com a família a conversar num ecrã, não é a mesma coisa que nem sequer os ver. Hoje, sendo obrigados a um isolamento físico, tivemos a possibilidade de manter os laços sociais, não da maneira que preferíamos, mas da maneira possível, e há muitas maneiras possíveis. Além de que o maior ou menor isolamento físico depende obviamente da estrutura familiar, uns vivem sozinhos e outros com famílias grandes.

Mas também passámos a ter o trabalho, a família, o lazer, tudo no mesmo espaço, na habitação, o que é complicado.
Em muitos casos foi complicado, sobretudo quando estavam os dois pais em teletrabalho mais as crianças, o que levantou questões. Somos todos iguais mas uns são mais iguais do que outros. As famílias com menos disponibilidade, digamos, geográfica, com casas mais pequenas, sentiram-se muito mais atrapalhadas. Ouvi relatos de pessoas que estavam perfeitamente exaustas, não é por acaso que alguns colegas falam, e muito bem, de burnout parental. Os pais estavam completamente exaustos por estarem em teletrabalho e a cuidar dos filhos. Muita gente me disse que a fronteira entre o trabalho e a vida familiar tinha-se desvanecido por completo, davam com eles a fazer reuniões às oito ou as nove da noite, a horas em que normalmente estariam em casa e não a trabalhar. O teletrabalho é uma faca de dois gumes. Havia pessoas que tinham uma visão demasiado idílica do que é o teletrabalho, aquela sensação de que é bom ficar em casa, claro que tem coisas boas, as pessoas diziam-me: "Estive com os meus filhos como já não me lembrava de estar", mas também tem armadilhas.

Ouvi relatos de pessoas que estavam perfeitamente exaustas, não é por acaso que alguns colegas falam, e muito bem, de burnout parental. Os pais estavam completamente exaustos por estarem em teletrabalho e a cuidar dos filhos. Muita gente me disse que a fronteira entre o trabalho e a vida familiar tinha-se desvanecido por completo.

De que forma o teletrabalho está a afetar as relações familiares?
Depende, há pessoas que ficaram satisfeitas, disseram que correu tudo lindamente e que foi ótimo; outras disseram que tinham mais trabalho, que as situações eram mais cansativas e sofreram com isso. Quanto às relações familiares, houve casais que não suportaram estar 24 sobre 24 horas, sete dias por semana, juntos. Houve outros para quem isso é agradável, o que demonstra o estado da relação até antes da pandemia. As relações mais sólidas, em geral, aguentaram melhor do que as que não eram.

Casais que começaram a pensar no divórcio?
Não ouvi epifanias, de gente que de repente descobriu que tinha de se separar, mas ouvi vários casais para quem o confinamento foi a confirmação de que a separação era inevitável.

Estamos a falar como se fosse passado, mas a verdade é que muita gente continua em teletrabalho.
É verdade, só que agora há a possibilidade de chegar a acordo com as empresas. O que tenho ouvido é misto, pessoas a dizer que estavam com saudades de ir para a empresa e outras que se mantêm em teletrabalho e gostariam de continuar. E também há empregadores que me disseram que isto lhes abriu os olhos sobre as vantagens do teletrabalho e que, quando tudo isto estiver em metabolismo basal, vão ter muito mais pessoas em teletrabalho. Havia uma certa reticência, mas as investigações dizem que o teletrabalho, quando as coisas correm bem entre as duas partes, não reduz a produtividade e, muitas vezes, traduz-se numa maior satisfação e autonomia das pessoas. Estou convencido de que haverá muitas empresas que aumentarão os seus níveis de teletrabalho.

Mas, em relação à higiene mental, afirmou que, no seu caso, optou por continuar a ir para o consultório.
Para mim é importante meter-me no carro e ir para o consultório, o teletrabalho implica determinados cuidados. Falámos das dificuldades concretas do dia-a-dia, nomeadamente quando há a filharada, etc., mas o teletrabalho, além de esbater as fronteiras entre o trabalho e a vida familiar, pode contribuir para um maior isolamento. É importantíssimo que a pessoa não se confine no seu trabalho, é preciso que a parte social seja mantida. Deve levantar-se de meia em meia hora, dar uma volta pela casa, ir à rua ou ao jardim, manter o exercício físico. Estar em teletrabalho não significa que não haja uma refeição com o mínimo de ritual, e nós temos a tendência, quando estamos com um computador, a ter um tabuleiro ao lado e ir comendo qualquer coisa. No fundo, é importante que mantenhamos as rotinas que estruturam a nossa vida, de forma a não acabarmos por ficar sozinhos com um ecrã à frente.

É importantíssimo que a pessoa não se confine no seu trabalho, é preciso que a parte social seja mantida.

Esta crise sanitária pode levar a uma mudança de comportamentos e atitudes?
Quando houve a crise económica falámos nisso no O Amor É e, como sou o pessimista de serviço do programa, disse à Inês Maria Meneses [parceira no programa]: "Espero bem que, depois disto, as pessoas reflitam, que haja um movimento global por mais justiça, por um capitalismo menos selvagem, etc., etc., mas tenho muitas dúvidas." Infelizmente, não se aprendeu muito com a crise económica. Aqui, estamos a falar de uma questão que também é muito grave a nível económico, mas começou por ser uma questão de saúde, portanto, não tenho a menor dúvida de que haverá alterações a nível do comportamento, pelo medo que continua a existir e até por reflexo condicionado. Temos de ter a noção de que, quando acontecem situações destas, e já aconteceram, às vezes, há consequências psicológicas anos depois. As situações de pós-confinamento, de uma maneira geral, aparecem alguns meses depois, situações de ansiedade, depressivas e o famoso stress pós-traumático. Isso pode durar anos, sobretudo se não houver apoio.

Falou em medo: tem ou teve?
Claro que tenho medo, mais a mais, pertenço a um grupo de risco, tenho 70 anos, e todos os dias se vê a diferença de mortalidade entre os mais velhos e os mais jovens. O que acontece é que, em minha opinião, tem havido um movimento entre os mais velhos de recusa a serem infantilizados. O risco não vai desaparecer, desejavelmente irá diminuir, mas, perante as pessoas mais velhas que estão bem informadas e capazes de tomar decisões, não podemos entrar numa espécie de imperialismo sanitário. As pessoas têm o direito de, depois de pesar os riscos e as vantagens, decidirem o que é considerado válido para elas, o mínimo para que possam ter qualidade de vida.

O que acontece é que, em minha opinião, tem havido um movimento entre os mais velhos de recusa a ser infantilizados. O risco não vai desaparecer, desejavelmente irá diminuir, mas, perante as pessoas mais velhas que estão bem informadas e capazes de tomar decisões, não podemos entrar numa espécie de imperialismo sanitário.

Sentiu essa infantilização dos mais velhos?
Senti que alguns discursos foram longe de mais, por exemplo, em determinada altura, a senhora Ursula von der Leyen [presidente da Comissão Europeia] praticamente disse aos mais velhos que iam ficar fechados até ao final do ano. As pessoas não podem ser tratadas dessa maneira. Tem consequências a nível da saúde mental, as pessoas diziam-me "não sei quanto tempo de vida e não quero viver isolado(a) daqueles que me são queridos, isso para mim não é viver". Temos de pensar que há uma diferença entre estar vivo e viver, aliás, espero bem que uma das modificações que surjam, e que se mantenham depois desta crise, é, desde logo, a melhoria de assistência aos mais velhos, sobretudo nos lares. Vimos situações muito problemáticas, não só ao nível da doença física como da saúde mental. Temos de ser capazes, perante a hipótese de uma segunda vaga ou de outra pandemia, de garantir a essas pessoas as visitas que são indispensáveis para a sua saúde mental.

Ainda tem muitas saudades para matar?
Ainda não recomecei as minhas tertúlias, tenho duas tertúlias ao fim de semana em que estamos dez a doze pessoas à mesa. Na semana passada estive na minha casa de campo, na Cabreira, estava a morrer de saudades. E já estive com a família.

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