Debate a sete. Marcelo a sair "airoso" entre candidatos a olhar para o umbigo

Os analistas políticos esperam que no último confronto televisivo, nesta noite na RTP, o recandidato a Belém volte a sobressair. E que os opositores se foquem na mensagem para os seus eleitorados e não cometam o erro de eleger Ventura como o alvo. Entretanto, Marcelo fez um teste positivo e outo negativo à covid, mas a televisão pública mantém o debate agendado.

"Ninguém levantou a hipótese de uma segunda volta, como aconteceu em tantos outras eleições presidenciais", lembra ao DN o analista político José Adelino Maltez. Esta síntese dos múltiplos debates televisivos para as presidenciais que desaguam num final, nesta noite, na RTP 1, com todos os candidatos resume também a expectativa deste último confronto: que Marcelo Rebelo de Sousa volte a sair vencedor, e de forma airosa, sem que nenhum dos opositores se atreva sequer a questionar que no dia 24 seja reeleito.

O debate mantém-se agendado pela televisão pública, apurou o DN junto do diretor de informação, António José Teixeira, apesar de Marcelo Rebelo de Sousa se encontrar em isolamento profilático, depois de ter testado positivo à covid-19 na noite de segunda-feira e depois de um teste negativo já esta manhã terça-feira. O recandidato a Belém deverá participar por videoconferência.

Mas sobre os confrontos que já ocorreram, António Costa Pinto entende, no entanto, que os debates televisivos - a que se segue um final também entre todos os candidatos numa pool de rádios (TSF, Antena 1 e Renascença) - são todos muito importantes num momento em que a campanha eleitoral é marcada por fortes restrições. Remete mesmo para as audiências, que devem manter-se ou até subir amanhã, para provar o interesse dos portugueses neste ato eleitoral.

O mesmo politólogo sublinha que o Presidente da República, "incumbente em exercício" e recandidato, permitiu este interesse, de tão confortável que está, ao dispor-se a bater-se com todos os adversários. "Não é habitual", reconhece.

Marcelo, diz António Costa Pinto, "foi muito pouco tocado nos debates pelos adversários e tem tido uma excelente performance". Que lhe vem, recorda, tal como José Adelino Maltez ou o politólogo André Freire, dos longos anos na política e depois nos comentários televisivos.

Quem ganhou e quem perdeu? A pergunta rola sempre nas análises dos debates, com a mira no próximo que se avizinha.

António Costa Pinto releva desse debate sobre vitórias e derrotas porque, diz, "os candidatos falaram todos para o seu eleitorado". Dá como exemplo o debate entre André Ventura e Marisa Matias, que foi um pingue-pongue de acusações, para concluir: "Muito poucos são os eleitores com intenção de votar em Marisa Matias ou vice-versa em André Ventura que terão invertido o sentido de voto."

O "erro" à esquerda

José Adelino Maltez deteta um "erro" cometido à esquerda, por Ana Gomes e Marisa Matias sobretudo, que foi o de eleger André Ventura como o inimigo principal. Em particular com a ideia de que se fossem eleitas inviabilizariam o Chega. "Ele agradeceu e pode levar a cena a peça que já tinha ensaiado", frisa.

André Freire aponta o mesmo problema à esquerda e tira João Ferreira, eurodeputado e o candidato apoiado pelo PCP, fora desse combate porque se posicionou no plano do combate das ideias.

"André Ventura foi um vencedor deste ciclo porque não houve um único debate em que não se falasse dele. É isso que ele quer e que lhe dá notoriedade", reforça.

Acresce, segundo Costa Pinto, que tanto os portugueses como os próprios candidatos não estavam habituados a debater com um candidato da direita populista, com um discurso radical clássico. Sendo certo que a esquerda não encontrou "novidades discursivas".

Os analistas políticos, consensuais sobre o "passeio no parque" de Marcelo nos debates, também avaliam os seus opositores na corrida a Belém.

"Marisa esteve abaixo do seu potencial eleitoral", frisa António Costa Pinto. Ao que Adelino Maltez acrescenta que a candidata do Bloco de Esquerda "envelheceu e deixou de constituir novidade". Recorde-se que nas presidenciais de 2016, Marisa Matias conseguiu 10% dos votos, o melhor resultado de sempre de um candidato da sua área política.

"Ela é melhor quando faz uma viagem às manifestações no Bairro Alto ou contra a política de austeridade, que já não existe", sentencia o politólogo. Aponta o momento mais fraco da prestação de Marisa nos debates, quando atacou forte e feio André Ventura - a quem apelidou de "cobarde", "troca-tintas" e "vigarista". "Os assessores aconselharam-na a ser agressiva, mas isso não joga bem com ela."

Em relação a Ana Gomes, também coincidem na ideia de que "não brilhou" nem conseguiu sair do registo de "judicialista" com que todos já a reconhecem. "Ana Gomes não deu o salto nem brilhou. Se chegasse aos 20% seria uma vitória estrondosa, mas é pouco provável. Ela é melhor do que se apresentou", afirma José Adelino Maltez. Na sua opinião, a candidata socialista, que se apresenta a eleições sem o apoio do PS, "está habituada a monólogos e não tinha a experiência de debates em direto".

Das prestações de João Ferreira as opiniões são muito positivas. Os politólogos dizem que à esquerda foi o candidato que "melhor levou a água ao seu moinho". Isto porque se manteve sempre fiel à mensagem que quis passar e sem afrontar com deselegância os opositores, incluindo André Ventura, que no primeiro debate, na TVI, quase nem deixou falar.

"João Ferreira teve uma boa performance como candidato do PCP", assegura António Costa Pinto.

A "surpresa" foi o candidato apoiado pelo Iniciativa Liberal, Tiago Mayan Gonçalves. O advogado do Porto, que se candidata pela primeira vez a eleições, sendo desconhecido do país, teve prestações positivas nos frente-a-frente em que participou, consideram os analistas políticos.

"Mayan Gonçalves apresentou-se como o porta-voz de futuras campanhas do seu partido e teve suficiente mais", afirma Adelino Maltez.

De Vitorino Silva, o "Tino de Rans", os politólogos apenas assinalam que esteve igual a si próprio e a falar para um eleitorado muito próximo.

O candidato do Chega é visto sob a mesma lupa, de um "boneco articulado", como lhe chama Adelino Maltez, a debitar ideias e slogans para atingir o eleitorado que pretende, muito feito de contestatários.

"Nem sequer tem convicção ou a espessura ideológica de uma Marine Le Pen. É um chico-esperto que se se ficar por 5% é um desastre, se conseguir duas ou três vezes mais do que isso é um êxito. É uma incógnita o que vai acontecer", afirma.

Para este último debate entre todos os candidatos, as expectativas não são muitas. André Freire considera que deve acrescentar pouco aos anteriores e os candidatos vão repetir as mensagens que já tinham ensaiado.

Ainda assim, António Costa Pinto tem a expectativa de que neste confronto televisivo as candidaturas à esquerda tentem fazer um balanço da prestação de Marcelo em Belém, procurando explorar os pontos menos positivos.

E todos esperam que não se repita erro de manter a chama da contestação ao partido de André Ventura acesa e com isso dar-lhe novamente um protagonismo desmesurado.

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