Comissão Europeia investe mais de 1600 milhões para criar nuvem de dados

Bruxelas quer gastar 1600 milhões de euros para "recuperar a soberania" no armazenamento de dados. A Comissão Europeia quer criar "uma grande nuvem" que agrupe plataformas virtuais (públicas e privadas), por forma a competir com a China e com os EUA.

A Comissão Europeia deverá aprovar até meados de fevereiro a estratégia comunitária para o armazenamento, num conjunto de medidas para aplicar nos próximos três anos, por forma a acompanhar na primeira linha o negócios de dados, e "sem violar os direitos dos cidadãos", segundo avançou o El País . Bruxelas está ciente de que não tem tempo a perder e que, "se a Europa deseja adquirir um papel de liderança na economia de dados, deve agir agora", diz a proposta da estratégia europeia para dados, citada pelo jornal espanhol.

A ideia é criar uma nuvem de armazenamento de dados dos 27 Estados membros, que lhe permita competir com os EUA e a China. Além disso, a Comissão Europeia planeia criar também um "espaço europeu comum" de dados para setores-chave, como a indústria ou as finanças. E, para isso, deverá investir um montante 1,6 biliões de euros, de acordo com a proposta definida.

A presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, encarregou a segunda vice-presidente, Margrethe Vestager, de desenvolver esse projeto nos primeiros cem dias de seu mandato, juntamente com uma estratégia para o desenvolvimento da inteligência artificial. No documento, Bruxelas estabelece como objetivo que, em 2030, a proporção de dados "armazenados e processados" e o tamanho da economia que gerem corresponda pelo menos ao peso da UE no mundo, que em 2018 era de cerca de 16,5%.

Segundo um estudo encomendado pela CE, atualmente apenas 4% dos dados do continente estão alojados em fornecedores europeus. De acordo com o documento, essa dependência envolve vários riscos. Por exemplo, os fornecedores estão sujeitos a regras de jurisdição estrangeiras, como a US Cloud Act, ou a disposições da legislação chinesa que podem resultar numa "divulgação ilegal" de dados europeus.

Mas há outra dimensão que diz respeito ao crescimento económico: os dados já são uma matéria-prima, e não apenas no setor de tecnologia. "A diferença entre sucesso e fracasso nos próximos cinco anos será notada nas décadas seguintes, pois os dados estão no centro da transformação digital e são essenciais para a inovação", sublinha a proposta da estratégia.

A eurodeputada Marisa Matias (BE), que se tem pronunciado sempre no que respeita às questões digitais no espaço europeu, manifestou ao DN a aprovação desta intenção por parte da CE. "Já todos sabemos que os dados pessoais são o novo ouro da economia atual. Por causa disso, sempre que falamos de dados pessoais, a perspetiva económica tende a prevalecer sobre as demais, incluindo o nosso direito à privacidade."

Por outro lado, a deputada sublinha não apenas a preocupação com a construção de uma base de dados gigante "que possa desafiar o domínio dos gigantes tecnológicos, como o Facebook, a Google ou a Amazon, ou poder competir com a China", mas também uma outra questão: "creio que é muito importante que se criem mecanismos para proteger de forma efetiva os nossos dados, a nossa privacidade e evitar que os mesmos possam ser utilizados em esquemas de manipulação", disse.

A dependência americana

Na Europa, já houve várias tentativas de criar uma nuvem que poderia acabar com a dependência das empresas da UE na Amazon, Google ou Microsoft. Foi experimentado pela França, que agora tenta fazê-lo novamente com a Alemanha, cuja chanceler Angela Merkel alertou recentemente sobre as "dependências" que se criam ao contratar esses serviços nos Estados Unidos.

A Comissão Europeia acredita que o "esforço" para criar do zero um projeto desta natureza não será realista, e por isso aposta na interação de serviços em nuvem de vários agentes - públicos e privados - e das redes. Segundo o esboço da estratégia em causa, essa solução "permitiria que novas empresas "altamente competitivas" entrassem no mercado, enquanto outros objetivos, como a partilha de dados, saem favorecidos".

Bruxelas está disposta a testar essa ferramenta, considerando que conta com amplo apoio da indústria e dos diversos governos, com um investimento na ordem dos 600 milhões de euros em sete anos. Além disso, está disposta a mobilizar outros mil milhões de euros nesse mesmo período de tempo, para criar um espaço "comum" e "interativo" para dados em setores considerados estratégicos. Nas próximas semanas, a Comissão deverá fazer propostas mais concretas através das verbas atribuídas a cada um dos departamentos. No entanto, sublinha que o uso legal de dados para fins industriais deve ser esclarecido, o que em 2027 poderá significar um mercado na ordem de 1,5 milhões de euros. No início de 2021, Bruxelas conta ter em marcha a lei digital, que tome em consideração questões sensíveis, como a possibilidade de as empresas compartilharem dados com os governos dos 27 países.

Faltam funcionários qualificados

O domínio dos grandes grupos internacionais não é o único problema enfrentado pela Europa. A proposta de lei que a Comissão planeia aprovar neste mês enfrenta como obstáculo a fragmentação da legislação europeia, em contraste com a China ou os Estados Unidos. Por outro lado, debate-se ainda com a falta de ferramentas para "capacitar" os cidadãos, de maneira a que possam exercer os seus direitos individuais. Mas a falta de pessoal qualificado para desenvolver essa estratégia é outra lacuna. De resto, segundo os dados da Comissão Europeia, em 2018 havia cerca de 571 mil empregos por ocupar nestas áreas em toda a União Europeia (incluindo o Reino Unido).

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