Quem mata um urso

Quem mata um urso devia saber, antes de mais, o que é um urso.

No dia 29 de Novembro, mataram um urso em Espanha, ou melhor, mataram dois. Em 30 anos de luta pela conservação da espécie, não houve dia mais funesto do que aquele domingo, em que apareceram mortas duas fêmeas: uma, na montanha Palentina, no coração do Parque Natural de Fuentes Carrionas y Fuente Cobre, região de Palência; outra, a 600 quilómetros dali, na comarca de Ribagorça, província de Huesca, Pirenéus aragoneses. A ursa de Palência, um exemplar esplêndido de 90 quilos, foi alvejada por um caçador amador que, durante uma batida autorizada, a confundiu desastradamente com um javali. A outra, a dos Pirenéus, a quem chamavam Sarousse, foi morta por um homem que alegou ter agido em legítima defesa. O caçador desastrado tem 32 anos, mora na zona, diz estar "destroçado" pelo sucedido e enfrenta agora uma acusação que o pode levar a uma pena de até três anos de cadeia.

A ursa de Palência era uma das doze reprodutoras que vivem na parte oriental dos montes Cantábricos, região habitada por cerca de 50 dos 380 ursos que ainda restam em toda a Espanha. Deixou órfã uma cria pequena: a autópsia da mãe detectou vestígios de leite nas glândulas mamárias, prova de que o filhote tinha menos de 1 ano. Agora, vagueia perdido pela montanha Palentina e as afanosas buscas em curso não lhe deram ainda com o rasto.

O caso está a deixar a Espanha em polvorosa: na precisa altura em que entra em vigor uma moratória que, por um período de seis anos, proíbe as caçadas nos parques nacionais, até aí permitidas para controlar o excesso populacional de javalis, mas desde sempre contestadas pelas associações ecologistas, há trocas de acusações entre caçadores, organizações como a Fundação Urso-Pardo ou o WWF España e o governo autonómico, dizendo este último que a actividade venatória é um importante sustentáculo da frágil economia local e argumentando os caçadores que a batidas são fundamentais para manter o equilíbrio daquele ecossistema e também para a própria preservação dos ursos-pardos, que na luta feroz pelos escassos alimentos enfrentam a concorrência dos veados e dos javalis.

Respondem os ecologistas que as mortes de ursos em acidentes de caça têm sido demasiado frequentes nos últimos anos, e sem tendência para diminuir. Isto para não falar, claro está, dos homicídios intencionais por banda de caçadores furtivos, que também ocorrem de quando em vez.

Não há muitos anos, era comum ver-se por aquelas terras cadáveres de plantígrados expostos pelas ruas das aldeias, com uma corda atada ao pescoço, à espera de serem decapitados e esfolados, uma barbárie completa. Ante a indiferença das autoridades e o escândalo das incipientes organizações ecologistas, deu brado a morte de um exemplar poderoso, El Rubio, em Brañosera, corria o ano de 1988, época em que a espécie esteve à beira da extinção no país vizinho. Mais recentemente, em 2017, no mesmo parque natural onde foi agora morta a ursa recém-mamã, a descoberta de vestígios de sangue de uma fêmea assassinada levou vários caçadores ao banco dos réus, mas a ausência do cadáver do bicho inclinou os juízes para uma escandalosa absolvição, por falta de provas directas.

Quem mata um urso devia saber, antes de mais, o que é um urso. E que os ursos - melhor dito, os ursídeos - já andam por cá há uns 20 milhões de anos, altura em que se separaram dos carnívoros que deram lugar a outra família, os procionídeos (a que pertencem os guaxinins ou os quatis, por exemplo). Depois, há coisa de uns 15 milhões de anos, um ramo dos ursídeos deu lugar à linhagem dos pandas-gigantes e outro à dos ursos-andinos ou ursos-de-óculos (levemente parecidos com o Dr. Marques Mendes, mas com pêlo).

Foi do tronco comum do Ursus ruscinensis que surgiram os actuais ursos-pardos (Ursus arctos), cujos vestígios mais antigos foram encontrados na China e que remontam aos alvores do Pleistoceno, ou seja, há cerca de dois milhões de anos. A sua aparição na Europa é bem mais recente, tem cerca de 250 mil anos, mas antes deles, há volta de uns 300 mil anos, tivemos por cá uns ursos de tamanho descomunal (Ursus spelaeus), com um peso similar ao dos actuais ursos do Alasca, mas ainda de maior envergadura. Há sinais da presença desses ursos cavernícolas desde Portugal até ao Cáucaso, passando pelo sul de Inglaterra e pela Polónia meridional.

Os ursos-das-cavernas e os ursos-pardos coexistiram durante muitos anos (no País Basco foi descoberta uma gruta onde uns e outros iam morrer, o que é comprovado pela existência de ossadas das duas espécies sem sinais de cortes, ou seja, de agressão humana), mas a alteração climática da última era glacial acabou por vitimar os primeiros. Sobreviveu o urso-pardo, mais pequeno e mais leve do que o urso cavernícola: aquele pesa, em média, 250 quilos, o segundo pesava uns esmagadores 800 quilos.

É triste saber que, desde há milhões de anos e até ao século XVI, existiam ursos-pardos por toda a Espanha, desde as Astúrias até Gibraltar, passando por Madrid, mas o ritmo da devastação tem sido tão intenso, sobretudo desde a descoberta e a vulgarização das armas de fogo, que muitos receiam que aquela espécie venha a desaparecer a breve trecho, tendo o mesmo destino extintivo que levou para sempre os ursos cavernícolas.

Mais triste ficaremos se soubermos que, juntamente com a Península Itálica e com os Balcãs, a Ibéria já foi o santuário dos ursos europeus, que aqui se refugiaram durante milénios, até que o recuo dos gelos permitiu a recolonização dos territórios do centro e do norte da Europa. Ainda que tal ideia esteja a ser questionada (e, sobre isto, nada como ler a notável introdução de Jesús García Díaz, Osos. Zoología, Antropología e Historia del Oso Ibérico, Editorial Cantabria Tradicional, 2011, ou um artigo de 2018 na revista Historical Biology), será essa a razão pela qual existem actualmente duas linhagens distintas de ursos: a ibérica e ítalo-balcânica e a oriental, representada pelos ursos escandinavos, russos e romenos, mais próxima das subespécies asiáticas e do urso-branco ou polar (Ursus maritimus). A linhagem ocidental, a nossa, à qual pertencem os ursos da Península Ibérica, é a mais antiga e a mais perene - mas, actualmente, a mais ameaçada.

Entre os ursos e os humanos há semelhanças que ainda hoje intrigam a ciência: têm a mesma postura, a mesma silhueta, a mesma posição, o mesmo gosto por jogos e brincadeiras, são ambos omnívoros, amamentam sentados as suas crias e, no caso dos ursos, caminham pousando a planta do pé inteira sobre o solo, o que não é vulgar nos quadrúpedes. As afinidades são tantas que, para a tribo dos yumas, no Arizona, os ursos são em tudo iguais aos humanos, com uma única excepção: não sabem fazer fogo. Talvez devido a essas semelhanças, o urso infundiu um respeito e um medo tais que, em certas culturas, era tabu chamá-lo pelo nome: em russo, o vocábulo "medved" equivale a "o que conhece o mel" ou "primo", enquanto o povo sami, da Lapónia, designam-no por "senhor dos bosques" e, em algumas tribos indo-americanas, tratam-no por "filho do chefe" e, não por acaso, por "homem de quatro patas". A palavra "urso" descende do antepassado comum indo-europeu "orks" que em latim passou a "ursus", em grego a "arktos" e em galês a "arth". É daí que deriva o nome do lendário rei Artur e, como bem esclareceu Michel Pastoureau, em L'Ours. Histoire d'Un Roi Déchu (Seuil, 2007), o imaginário europeu, durante séculos, teve no urso, não no leão, o símbolo máximo de realeza e poder.

É caso para isso. Os ursos têm faculdades e uma psique singular, muito provavelmente devido ao carinho com que são criados. A mãe permanece com o filho, em cuidado e em treino permanentes, durante um longo período, entre ano e meio e dois anos. Daí que a morte da fêmea de Palência, no passado dia 29 de Novembro, deixando órfã uma cria de poucos meses, seja, até por isso, uma uma horrível tragédia - e quem mata um urso tem de saber isto. Daí, também, que esse longo período de aprendizagem e carinho leve a que as gravidezes sejam espaçadas no tempo, o que, nas condições actuais, aumenta significativamente o perigo de extinção da espécie. Mais ainda, os ursos alcançam a maturidade sexual apenas aos 4 ou 5 anos (3, no caso das fêmeas) e, para procriarem, necessitam ainda de que existam fêmeas disponíveis e aptas a isso nas proximidades e que não apareçam machos rivais por perto.

Para que nasça um urso é necessária muita coisa, como se vê. E as coisas complicam-se ainda mais se soubermos que, quando nasce, um urso tem um tamanho minúsculo, pesando uns 350 gramas, no máximo. Isto deve-se a outra das maravilhas dos ursídeos, a implantação diferida do ovo: o óvulo é fecundado nos meses de cio (Maio e Junho, na Europa), interrompe o seu desenvolvimento e só se implanta no útero em Novembro. A gestação reinicia-se a partir desse momento, o que faz que o desenvolvimento do embrião só ocorra nos últimos meses de gravidez, razão pela qual as crias têm à nascença uma dimensão e um peso tão reduzidos. Frequentemente, as mães que acabaram de dar à luz não hibernam, optando por se manter em estado de vigília para cuidar das crias, um fenómeno de altruísmo maravilhoso já observado no Livro de la Montería do rei Afonso XI de Castela (monarca do século XIV vitimado pela peste negra e sepultado em Sevilha, tendo os intestinos sido trasladados para o Real Alcázar de Jerez).

Mais maravilhoso ainda é sabermos que o parto ocorre quando as mães estão a hibernar, em pleno Janeiro, já que a hibernação dos ursos, outro dos seus prodígios, constitui um processo extraordinário em que, ao invés do que julgamos, não se dá um adormecimento completo, antes uma desaceleração de todas as funções vitais, mantendo-se, todavia, o metabolismo energético graças às reservas de gordura acumuladas durante a fase de hiperfagia estival e outonal, ou seja, o período em que os ursos comem o mais que podem, sobretudo alimentos vegetais (cerca de 85% a 95% da sua alimentação), com predilecção por algumas plantas, com destaque para os mirtilos, que têm vindo a escassear nos bosques devido ao aquecimento global.

Por isso, e por outras razões, o peso dos ursos oscila imenso: Salsero, um macho capturado duas vezes, para fins científicos, em Riãno, no extremo nordeste de León, uma vez tinha 180 quilos e, na outra, apenas 132. Os especialistas acreditam que, salvo raras excepções, o urso ibérico pesa um máximo de 200 quilos, bastante menos do que os seus primos que habitam mais a norte, o que confirma a regra ecológica de Bergmann, segundo a qual os indivíduos de uma mesma espécie aumentam de peso quanto mais a norte vivem (os ursos-pardos do Alasca ou da Sibéria oriental chegam a alcançar 500 quilos e a medir três metros).

A diminuição da mancha florestal é uma das maiores ameaças para o futuro dos ursos, entre outros factores (por exemplo, no caso dos ursos ibéricos, a ausência de um "corredor" entre o Cantábrico e os Pirenéus, agora superada, foi, durante anos, quase fatal), mas o principal perigo vem, como sempre, dos seres humanos e, em especial, das batidas de caça. Na Galiza, por exemplo, os ursos desapareceram muito cedo devido à prática, enraizada na cultura local desde o século XV, de realizar expedições venatórias para protecção do gado e das colheitas. A "revolução do milho", iniciada no século XVII, e o cultivo intenso de batata deram o golpe final nos ursos galegos (há poucos meses, em Maio deste ano, foi noticiado o aparecimento de um exemplar no Parque Natural dos Montes de Invernadeiro, província de Ourense), enquanto noutras regiões de Espanha, como Zamora ou León, a espécie pôde conservar-se até muito tarde, já que aí, bordejando o caminho francês de Compostela, existiram até finais do século XIX grandes extensões de mata de carvalho-negral e de carvalho-branco, um território especialmente apto à proliferação dos plantígrados.

Entre nós, do urso não restam mais do que memórias. A crónica da sua extinção foi feita há pouco num belíssimo livro de Paulo Caetano e de Miguel Brandão Pimenta (O Urso-Pardo em Portugal, Bizâncio, 2017; já antes, em 1967, Carlos Baeta Neves publicara o doloroso opúsculo Sobre a Existência e Extinção do Urso em Portugal, editado pela Liga para a Protecção da Natureza). Ao contrário do que se pensava, julgando-se que a data da extinção tinha sido 1650, o último exemplar foi abatido no dia 2 de Dezembro de 1843 no sítio do Sapateiro, na serra da Mourela, ao Gerês, e os que transportaram o cadáver para a vila de Montalegre, onde foi exibido, por certo ignoravam que aquele era o derradeiro urso-pardo que atravessava a fronteira com a Galiza para entrar em território nacional. Depois dele, nada mais.

A modificação do habitat, mais concretamente a destruição da floresta autóctone, terá sido o principal motivo do seu desaparecimento. Nos Pirenéus franceses, graças à introdução de exemplares eslovenos, foi possível evitar a extinção iminente, e mesmo em Espanha as perspectivas são moderadamente optimistas. Em Portugal, dizem os especialistas, o reaparecimento do urso-pardo é muito improvável, para não dizer impossível.

Perdeu-se, desta forma, um animal que sempre marcou presença na nossa história e na nossa cultura. Vemo-lo na heráldica, como no brasão que Bento XVI escolheu para simbolizar o seu pontificado, vemo-lo em alguns monumentos ou edifícios portugueses, como nas pedras do Mosteiro de Santa Maria das Júnias, no Gerês, ou na casa quinhentista da Torre de Abadia, nas terras de Basto, nas cercanias da serra da Cabreira. Vemo-lo nos escudos de Odivelas ou de Arcos de Valdevez. Vemo-los nas lendas, como a da aldeia da Pia do Urso, na serra de São Mamede, ou na lenda da Porca de Murça. Em Montemor-o-Velho, na freguesia de Pereira, todos os anos em Julho, há uma "festa do urso", e a simulação de danças faz-nos lembrar que, à conta da sua graciosidade e dos seus encantos, os ursos têm sido vítimas de horríveis maus-tratos, servindo como dançarinos em circos ou sendo explorados por homens vis e sem escrúpulos, que os treinam fazendo-os caminhar sobre brasas, para dessa forma aprenderem o que parece ser uma dança, mas não é (sobre tudo isto, em especial sobre os ursos da Roménia, li há tempos um livro apaixonante, mas terrível, de Witold Szabłowski, Dancing Bears. True Stories of People Nostalgic for Life under Tyranny, Penguin, 2018). Não foi um exclusivo da Roménia ou dos países da Europa Central: durante muitos anos, até aos alvores do século XX, ursos amestrados, trazidos pelos ciganos caldeireiros da Hungria, marcaram presença nas feiras de muitos lugares, de Vizela a Guimarães, passando pela Trofa ou por Matosinhos, mas também nos arredores de Elvas ou em Lisboa.

Hoje, em Portugal, o que mais resta dos ursos são as suas pegadas na toponímia, em terras ou locais como Vale D'Urso, Osseira, Vale da Ursa, Ribeira do Vale da Ursa, Ursa ou Pedra do Urso. Quanto ao mais, não há mais. Os ursos desapareceram do nosso convívio, e para sempre.

Em Espanha, onde ainda sobram alguns (três ou quatro centenas, por volta disso), são cíclicas as notícias de mortes violentas, como a que ocorreu no passado Abril em Vielha, Vall d'Aran: no fundo de um desfiladeiro, apareceu o cadáver de um macho, Cachou, no qual se depositavam muitas esperanças para o florescimento da espécie e para pôr termo à indesejável endogamia de Pyros, o macho dominante dos Pirenéus durante mais de 20 anos, pai de 30 filhos. Cachou morreu, pasme-se, envenenado por um produto químico colocado pelo próprio Departamento de Território e Sustentabilidade da Generalidade da Catalunha.

O objectivo, disseram, era evitar a acção depredadora dos ursos, utilizando um fungicida que já dera bons resultados na dissuasão dos lobos. Com isso, mataram um dos mais promissores machos de toda a região, um dos que mais podiam assegurar que o destino do urso-pardo espanhol fosse diferente do português, extinto para sempre. Quem mata um urso devia saber, antes de mais, o que é um urso.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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