Ihor Homenyuk

Chego tarde, muito tarde, demasiado tarde, criminosamente tarde. O Ihor Homenyuk foi torturado e assassinado há nove meses e é a primeira vez que escrevo o nome dele. Invoquei, num programa de televisão, há duas ou três semanas, um cidadão ucraniano, mas nem o cuidado de dizer o nome dele tive. Estou convencido, aliás, de que os três agentes do SEF, enquanto lhe batiam, devem ter preferido tratá-lo de outras formas.

Nove meses. Na altura devo ter dito qualquer coisa, devo ter trocado meia dúzia de mensagens nos grupos de WhatsApp, talvez um comentário no Facebook e um tweet. Nem sei. As redes sociais onde estou, pois.

Esses locais onde os sem-voz mostrariam os seus problemas, onde se denunciariam os abusos escondidos, para onde em parte se teria transferido o papel de fiscalizador da democracia, andaram onde? Estiveram comigo a falar de tretas, das indignações do dia, do Ventura, dum jogo de futebol qualquer. Lá fomos, como cordeirinhos, berrar em função de um qualquer algoritmo, de qualquer agenda promovida por um tipo qualquer com dinheiro que chegue, de uma agência de comunicação ou tão-somente em busca da adrenalina do tweet que faça barulho.

Foram agora divulgados os temas que mais foram debatidos nas redes sociais no último ano. Alguém viu o nome Ihor Homenyuk? Claro que não.

Foram feitas reportagens e escritos artigos sobre o assunto. Mas, pelos vistos, não chegaram para levantar mais cedo uma onda de indignação que forçasse o governo e demais órgãos de soberania a tomar uma posição. Também não chegaram para que um único partido tivesse uma posição forte e constante.

Foram jornalistas, não as redes sociais, não os políticos, não os partidos, que conseguiram contra o desinteresse geral que este caso não fosse esquecido. E, por obrigação de consciência, tem de ser destacado o papel deste jornal e das suas jornalistas Fernanda Câncio e Valentina Marcelino e a Joana Gorjão Henriques do Público que em larguíssima medida são as responsáveis por manter este assunto vivo e se ter chegado onde estamos hoje. E sim, eu continuei no meu sono negligente.

Não me ponho, claro está, no mesmo lugar dos responsáveis políticos, aquelas pessoas a quem damos o poder de nos representar. A minha sensação de ter colaborado com este manto de silêncio não aligeira nem um grama a responsabilidade de quem trabalha em nosso nome, bem pelo contrário.

Aliás, tudo neste processo é repugnante.

Uma diretora do SEF que leva nove meses para se demitir, um ministro que não percebe que o facto de ter deixado um dia que fosse a senhora em funções o faz corresponsável, um primeiro-ministro que finge que nada se passa. Mas o pior é ter passado este tempo todo e um Estado que matou e torturou um cidadão nada disse à sua família. Nem o Presidente da República, nem o primeiro-ministro, nem o senhor ministro da tutela. Este até teve o desplante de dizer que fez um telefonema a mandar condolências - como se fosse assim que se arruma este assunto - enquanto acusava comentadores, como se eles tivessem um milésimo da sua responsabilidade. Uma pessoa foi torturada e assassinada pelo Estado e nem um pedido formal de desculpas por parte dos nossos mais altos magistrados nem dinheiro para a transladação do corpo, e só agora se lembraram da indemnização.

Que andou o responsável político máximo, António Costa, a fazer? Não sabia dos relatórios? Perguntou a Eduardo Cabrita pela diretora do SEF? Achou normal tudo o que não estava a acontecer? Algo parece evidente, quando agora se olha para Eduardo Cabrita é António Costa que se vê.

Não, a minha responsabilidade não se compara à desta gente. Mas não deixo de ter a minha quota e não é pequena. Nos espaços em que falo e escrevo para mais do que o meu círculo de amigos e familiares escolhi e debati sistematicamente outros assuntos quando nenhum se compararia em importância a este.

Não acuso ninguém de ter estado calado ou ter ignorado, apenas os responsáveis políticos.

Não sei se quem agora bate no peito andou nestes nove meses a lembrar o que se passou naquela câmara de tortura. Eu, que agora muito tarde me indigno, não.

Sei que andamos todos demasiado presos à atualidade, viciados no comentário imediato, na notícia da hora, perdidos nas nossas guerrinhas de alecrim e manjerona.

As minhas desculpas à família do Ihor Homenyuk por os meus representantes terem tido a conduta miserável que tiveram de nada servem. Ficam, no entanto, essas e as que devo a quem me lê e ouve por não ter ajudado a que este assunto fosse mais lembrado. Falhei-lhes.

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