E agora, América?

Após as eleições presidenciais realizadas nos Estados Unidos da América (EUA) no último dia 3 de novembro e, sobretudo, perante o inenarrável espetáculo a que assistimos até ao momento, com os patéticos esforços de Trump e dos seus aliados para reverter os resultados da disputa - a fazer lembrar uma qualquer república das bananas -, o que acontecerá no país de Lincoln, Roosevelt, Kennedy e Obama depois de 20 de janeiro de 2021? E qual poderá ser o seu papel internacional?

Acontece que, e como bem lembrou a jornalista brasileira Lúcia Guimarães, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, "o país [EUA] está mais fragilizado do que em qualquer outro período desde a Segunda Guerra, economicamente vulnerável e insustentavelmente desigual, sem falar do fosso cultural agravado pela desinformação na era digital".

A globalização neoliberal, assente na revolução das tecnologias de transporte e comunicação, na fúria privatizadora e na crescente financeirização da economia, criou uma multidão de marginalizados e desvalidos em todo o mundo. Caricatura do "velho e bom" (?) liberalismo, acentuou as desigualdades sociais de maneira generalizada e alimentou a corrupção, criando o caldo de cultura para o surgimento do populismo. Trump é resultado desse contexto, que o viabilizou e continua a potenciar - atente-se nos 70 milhões de americanos que votaram nele -, perante a desatenção política e sobretudo a arrogância intelectual do liberalismo democrático.

O chamado populismo de direita (há quem prefira chamar-lhe simplesmente extrema-direita), cuja figura mais poderosa é precisamente Donald Trump, tem os seus inimigos de estimação: a ciência, os intelectuais, os políticos e todos os "outros", como os membros das minorias étnico-raciais, religiosas ou de género, assim como os imigrantes. Daí, no caso dos EUA, o fortalecimento da cultura de supremacia branca como um dos elementos centrais do trumpismo.

O consagrado romancista Paul Auster disse (cito de cor): "O pecado originário da América é o racismo. Por isso, retornamos a ele sistematicamente." O facto é que, como mostraram os resultados das últimas eleições, a América está profundamente dividida. O principal desafio político interno de Joe Biden será, pois, reconciliar e unificar o país. Para isso, e entre outras medidas, não poderá esquecer-se de voltar a conquistar as classes trabalhadoras, sobretudo brancas, que sempre foram a base tradicional dos democratas, mas que, tendo sido marginalizadas pelo processo de globalização, migraram para os braços de Trump.

O novo presidente americano, que todos consideram um conciliador nato, já disse que governará para todos os cidadãos. Isso é o óbvio. Ele definiu os seus quatro grandes desafios internos: controlar a pandemia de covid-19; redinamizar a economia, com foco na produção made in America; reformar o sistema policial e de justiça, eliminando o racismo sistémico que continua a enformá-lo; e mudar as políticas climáticas do país. Enfrentar todos esses problemas com uma nação virtualmente dividida não será nada fácil.

Além da natural complexidade desses quatro desafios, Biden terá de fazer face a outro fator: a pressão para responsabilizar judicialmente o próprio Donald Trump e alguns dos seus familiares e aliados por atos cometidos durante a sua gestão. Neste momento, já há duas ações na justiça contra o presidente em exercício e a sua família: enquanto o procurador de Manhattan investiga Trump por fraude fiscal, a procuradora do estado de Nova Iorque realiza uma investigação sobre as declarações fiscais da sua filha, Ivanka.

No plano internacional, Joe Biden já sinalizou aos seus principais aliados que a América voltará a engajar-se diplomaticamente com eles, assumindo as suas plenas responsabilidades como membro de organismos internacionais e subscritora de tratados multilaterais. Avultam os anúncios do regresso dos EUA à Organização Mundial da Saúde e ao Tratado de Paris. Ou seja, a diplomacia está de volta.

Biden, como Obama e outros presidentes antes dele, democratas ou republicanos, é um representante do excecionalismo americano, isto é, a visão de que os EUA são os "líderes do mundo livre" e o "guia" da humanidade rumo à democracia. Por isso, no seu discurso de vitória, disse que os EUA vão liderar o mundo "não pelo exemplo de poder, mas pelo poder do nosso exemplo".

O problema é que, para tal, o novo presidente americano terá de corrigir os estragos causados pelo confuso e errático surto "nacionalista" e autocentrado da era Trump. Além disso, a imagem da América como "exemplo" de democracia está seriamente machucada pela grotesca e perigosa recusa de Donald Trump e seus aliados em aceitarem a derrota eleitoral.

Jornalista e escritor angolano. Diretor da revista África 21.

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