Deliciosas traições

Mank traiu Hearst. Orson traiu Mank. E quem ganhou com isso fomos nós, tivemos a obra-prima O Mundo a Seus Pés.

Entre os meus dez filmes favoritos, dois vieram de uma mesma família: Eva (1950), direção, produção e roteiro de Joseph L. Mankiewicz, e O Mundo a Seus Pés (1941 - no Brasil, Cidadão Kane), direção de Orson Welles, produção de Orson Welles, estrelado por Orson Welles e roteiro de Orson Welles e... Herman J. Mankiewicz. Os Mankiewiczs eram irmãos, e Herman, na intimidade Mank, o mais velho. Já Orson, filho único, valia sozinho por uma grande família. Esse foi o problema: ao importar Orson de Nova Iorque para fazer um filme, a RKO, um dos grandes estúdios da época, deu-lhe poderes nunca vistos em Hollywood. E Orson resolveu exercer cada grama desses poderes - impensável, por exemplo, dividir o crédito do roteiro deO Mundo a Seus Pés com um roteirista, mesmo que este o tivesse escrito. Não aquele roteiro!

Pois aconteceu que O Mundo a Seus Pés, com todo o escândalo que levantou - em certo momento tornou-se o filme que nunca poderia ser produzido e, se chegasse a ser feito, teria de ser destruído antes de qualquer exibição -, não apenas sobreviveu à fogueira e chegou intacto às telas como levou nove indicações ao Óscar. Todas justas: melhor filme, ator, direção, fotografia em preto e branco, música, som, montagem, direção de arte e roteiro. Pena que só tenha vencido em uma - e justamente a de melhor roteiro.

Pode discutir-se pela eternidade para que serve um roteiro de cinema, por mais completo, senão como base para o diretor trabalhar em cima. Ou, ao contrário, o que faria um diretor, por mais genial que fosse, sem um roteiro estruturado e profundo com que trabalhar. No caso de O Mundo a Seus Pés, a discussão é sobre se Welles filmou o roteiro de 300 páginas tal como o recebeu de Mankiewicz, com as indicações para todos aqueles efeitos de câmara e tombos na cronologia - ou se foi Welles, sem Mank, que lhe deu o formato final, resultando num filme que, de tão revolucionário, seria eleito, anos depois e por décadas a seguir, o maior do cinema em todos os tempos.

Mank, o filme de David Fincher recém-lançado pela Netflix, adere enfaticamente à primeira hipótese. A história passa-se durante os 60 dias que Mank, exilado numa casa no meio do deserto, na Califórnia, dita o roteiro para uma estenógrafa à medida que o cria em sua cabeça. Numa passagem, ouve-se Gary Oldman, no papel do roteirista, defender a descontinuidade da história e ditar um exótico ângulo de câmara - ou seja, Mank seria o autor total, enquanto Orson estaria a quilómetros de distância dali, supostamente tratando de outros assuntos. E, segundo o filme, Orson só o visitou uma vez - para elogiar o seu trabalho e, não por acaso, lembrar-lhe de que ele, Mankiewicz, renunciara em contrato à autoria do roteiro. Ao descobrir que Mank mudara de ideia e iria exigir o crédito, Orson enfurece-se, atira garrafas e móveis contra as paredes e ali começa a guerra judicial - ao fim e ao cabo vencida por Mank, mas parcialmente, já que ele só conseguiu assegurar uma coautoria.

Pelos 30 anos seguintes ao lançamento de O Mundo a Seus Pés, o planeta conviveu sem grandes cataclismos com a ideia de que o roteiro do filme fora escrito a quatro mãos por Orson Welles e Herman J. Mankiewicz, mesmo que os dois nunca se tivessem sentado lado a lado, a duas máquinas de escrever, para trabalhar. E como Mank morreu em 1954 e Orson aparentemente aceitara o crédito dividido, nunca mais haveria novidades a respeito. Até que, em 1971, a jornalista de cinema Pauline Kael, num ensaio publicado em dois números da revista The New Yorker e depois transformado em livro, fez a ousada afirmação de que Mankiewicz fora o exclusivo autor do roteiro e que Welles, inexperiente em cinema e incapaz de dominar o impressionante know-how técnico usado no filme, tentara apoderar-se do seu trabalho - o que só não conseguira porque a lei não deixara. A partir daí, deitaram-se hectolitros de tinta contra ou a favor da tese de Kael, até se provar que o roteiro original de Mank passara por sete revisões - nenhuma com a sua participação e todas com a caneta de Orson.

A hipótese de o roteiro de O Mundo a Seus Pés ter pertencido de facto aos dois não diminui o trabalho de Mankiewicz - porque é assim que as coisas se dão no cinema. Além disso, eles não foram os únicos criadores do filme. Quantos daqueles extraordinários achados visuais, creditados a Orson, não terão sido inventados por Gregg Toland, seu diretor de fotografia e, este sim, um génio na sua especialidade? Vários filmes anteriores de Toland já tinham os mesmos efeitos de luz expressionista e profundidade de campo que tanto impressionaram em O Mundo a Seus Pés. Em contrapartida, o uso do som, combinando fala, ruído e música como nunca antes, só pode ter sido criado por Welles, com a sua tarimba na rádio. E o que dizer da provável contribuição dos atores, todos eles homens do teatro?

Hoje sabemos que, mesmo sem Mank, Orson teria feito um grande filme. Mas talvez não aquele filme. Charles Foster Kane baseava-se em William Randolph Hearst, o odioso magnata da imprensa, de quem Mank era íntimo, assim como era íntimo da atriz Marion Davies, amante dele e que tinha em Mank o seu confidente. Só Mank saberia dos detalhes do dia-a-dia em San Simeon, o gigantesco complexo de Hearst na Califórnia, um monumento à opulência de mau gosto, contendo até um zoológico particular, e que Mank transformou em Xanadu, o paraíso de Kane. Orson nunca passara nem na porta de San Simeon. Mank, ao contrário, fora lá muitas vezes, a convite de Hearst e Marion.

Hearst abriu as portas do seu mundo para Mank e este traiu-o, contando a sua história. Mank, por sua vez, sentiu-se traído por Orson, que lhe roubou a história. No final, nós é que saímos ganhando porque, sem essas deliciosas traições, O Mundo a Seus Pés não seria a obra-prima que foi e sempre será.

Jornalista e escritor brasileiro

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