A paz global

Embora a Carta da ONU, tal como acontecera com a Sociedade das Nações, tivesse uma origem ocidental, foi impressionante o início da reunião da Assembleia Geral, na qual se multiplicavam as representações de delegados das diversas culturas, etnias, e religiões existentes no globo, finalmente encontrando-se numa instituição que visava definir interesses e valores comuns, ao serviço de um futuro em paz geral. Um objetivo que animou várias iniciativas, que entre os ocidentais recebia inspiração na experiência de Assis, que ainda hoje tem importância, e desafia, designadamente em Moçambique, onde no passado contribuiu para a paz, de novo inquietante.

É a brutalidade das agressões que começaram com o assassinato do professor Samuel Paty, pela decapitação levada e efeito por um muçulmano ofendido pelo uso nas suas aulas da caricatura de Maomé. A surpresa registou um clima de agressões do mundo árabe, e as violências repetiam-se em vários lugares europeus. Subitamente, o problema do entendimento entre o islão e o Ocidente (Hans Küng) obriga a relembrar, para além da importante criação do movimento de Assis, as iniciativas do secretário-geral e prémio Nobel da Paz, que foi Kofi Annan, quando organizou uma histórica conferência sobre a necessidade de "Uma Ética Global", em 12 de dezembro de 2003, em Tübingen, a convite da Global Ethic Foundation, na Universidade de Tübingen, com este tema: haverá ainda valores universais? Foi esta intervenção que gratificou a intervenção de Hans Küng, que escreveu o seu livro Islão, Passado, Presente e Futuro (Lisboa, 2017).

Foi o referido secretário-geral da ONU, Kofi Annan, que assumiu na organização o diálogo das culturas, afirmando, na Conferência de Tübingen, o seguinte: "Na nossa época de globalização, existe mais do que nunca a necessidade permanente de três valores universais. Toda a sociedade deve estar unida por valores comuns, de modo que os seus membros saibam o que podem esperar uns dos outros, e devem partilhar princípios comuns através dos quais possam gerir as suas diferenças sem recurso à violência." Lembrando o derrube das Torres Gémeas, em 11 de setembro 2001, anotou na conferência a necessidade, segundo anota Küng, de seguir as quatro diretivas da Declaração para Uma Ética Global do Parlamento Mundial das Religiões. Infelizmente, a adesão clara do secretário-geral não encontrou na ONU a formalização desse projeto, e também não há notícia de que o projeto de outro secretário-geral, que foi Hammarskjöld, que seria abatido em serviço no Congo, e deixou organizada uma sala, na sede da ONU, tendo ao centro uma pedra branca sobre a qual incide um raio de luz vindo do alto, e destinada à meditação de todos os crentes, tenha criado história.

No legado da ONU também está o apelo à transcendência, à esperança de as preces serem escutadas, sobretudo das recentes nações que foram libertadas da submissão extrativa ao colonialismo, mas é longo o tempo de uma organização correspondente aos projetos da ONU. Acontece porém que na área muçulmana, como que em articulação com o esforço de Hans Küng, e a intervenção histórica de Kofi Annan, foi criado por S. E. Ahmad Aljarwan, recebido na sessão solene da Fundação Gulbenkian, um Global Council for Tolerance and Peace, implementando um International Communication Program e Activating Mechanisms of Soft Power.

Segundo os documentos distribuídos, o Global Council acrescenta um International Parliament for Tolerance and Peace, que discutirá os temas indicados pela Assembleia Geral e a Direção do Global Council. Se por um lado parece oportuno revigorar na medida do necessário e possível a intervenção que ficou no legado de João Paulo II, que em Assis reuniu os responsáveis de todas as confissões no sentido de proclamarem e esclarecerem que os crentes não santificam as violências, proclamam também os valores comuns a todos os participantes, a partir dos quais deveriam congregar os esforços a favor da paz.

Para apoio dos que ali estiveram, sendo plurais, é de recordar o legado deixado por Hammarskjöld: ficou a lembrada sala, onde uma pedra branca e translúcida recebe uma luz vinda do alto, destinando-a à meditação de todos os crentes, e não só. Isto porque a condição ameaçadora de falência da ordem mundial não chega ser enfrentada apenas pelo pregado passo da ciência e da técnica, mas também pela convicção de que no princípio era o Verbo, isto é, os valores indispensáveis para o desenvolvimento humano sustentado. Os invasores da história destruíram sistematicamente as crenças. Os herdeiros vítimas da violência voltaram a implantá-las.

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