A nova velha Guerra Fria – ou como o Ocidente "perdeu" a Rússia

A imagem da Rússia como um país bárbaro e asiático, governado por uma autocracia maquiavélica e como uma ameaça sobre a civilização ocidental tornou-se uma obsessão para as elites europeias desde há séculos.

"Eles (a América e a Rússia) confrontar-se-ão um dia e veremos então lutas de que o passado não pode dar qualquer ideia" - Thiers, Sainte-Beuve, 1847, citado por André Fontaine em Histoire de la Guerre Froide, 1983

Dos gangsters russos de A Good Day to Die Hard (2013), aos "russos maus" e à "escumalha soviética" que tenta infiltrar a América em Stranger Things (2017), aos brutais mafiosos em McMafia, os russos assumem um papel de relevo como vilões em filmes de sucesso. Nos filmes de Hollywood e em séries televisivas populares matadores, patrões da máfia, oligarcas corruptos e prostitutas são sistematicamente russos

Os clichés e estereótipos sobre os russos instalados no imaginário de Hollywood e no entertainment refletem em boa medida o clima de hostilidade entre a Rússia e o Ocidente.

A imagem da Rússia como um país bárbaro e asiático, governado por uma autocracia maquiavélica e como uma ameaça sobre a civilização ocidental assombrou as elites europeias desde há séculos - diz Guy Laron, do Monde Diplomatique. A "russofobia" atingiu o clímax no século XIX na Grã Bretanha, onde a Rússia era vista como uma ameaça permanente ao seu império. A Revolução de Outubro de 1917 deu novas e bastas dimensões a este sentimento.

Durante a Guerra Fria os tenebrosos agentes do KGB nos thrillers de espiões de James Bond acabaram por fazer do russo sinónimo de bandido. Personagens como Ivan Drago em Rocky IV (1985) ou os invasores soviéticos em Red Dawn (1984) ajudaram o Ocidente a formatar a imagem do "inimigo", a afirmar uma superioridade moral e a garantir uma legitimidade política.

A "russofobia" assume mesmo por vezes acentos inequivocamente racistas. A ideia de um comportamento coletivo determinado biologicamente faz dos russos uma espécie de "categoria racial" - observou Anatol Lieven, analista de Georgetown. Os crimes do tsarismo e do comunismo soviético ou do próprio estalinismo seriam assim algo "quase genético". Richard Pipes via no comunismo soviético um produto especificamente russo. E James Clapper, antigo diretor da Intelligence Agency dos EUA, considerou que "os genes russos são diametralmente opostos aos dos EUA e das democracias ocidentais"

Ilusões perdidas

A "lua-de-mel" vivida nas relações russo-americanas na era da perestroika e nos primeiros anos da era Ielstin (1991-1999) há muito se esgotara quando Vladimir Putin assume o poder, no início de 2000. As ilusões nascidas da queda do Muro de Berlim e do colapso da URSS e as promessas de uma aproximação entre a Rússia e o Ocidente do início dos anos 1990 deram lugar a um clima de hostilidade e de tensão.

Ieltsin prosseguiu uma política de alinhamento com o Ocidente na expectativa de ver a Rússia integrada nas instituições ocidentais. A resposta esteve longe das expectativas do Kremlin. O Ocidente, e em particular os Estados Unidos, apagou a Rússia da lista de atores de primeiro plano na cena internacional e nas grandes questões de segurança e ignorou a oposição russa a iniciativas políticas ocidentais como a expansão da NATO e as intervenções na ex-Jugoslávia. "A Rússia foi tratada da mesma forma como o Ocidente lida com os países em desenvolvimento - apenas nos termos do Ocidente" - observa Roger E. Kanet, da Universidade de Miami.

A expansão da NATO a leste e a crescente influência americana em áreas que a Rússia reivindica como "dos seus interesses diretos", como o Cáucaso ou a Ásia Central, envenenam as relações entre Moscovo e o Ocidente. O velho "complexo de cerco" assedia de novo a Moscóvia - comentam os analistas.

Goradas as promessas de uma aproximação ao Ocidente, dá-se uma acentuada viragem na política russa. A opção "eurasiática" substitui a aproximação ao Ocidente nas prioridades de Moscovo. Dá-se uma momentosa aproximação entre Moscovo e Pequim numa frente contra a "hegemonia americana".

O ataque da NATO à Sérvia na primavera de 1999 constitui uma "humilhação" e uma "bofetada" para a Rússia - escreveu Aleksei Arbatov, antigo conselheiro de Gorbachev. Os bombardeamentos da NATO vão marcar profundamente a forma como a Rússia olha o Ocidente

"Os fins justificam os meios. Aplicada de forma decidida e maciça, a força é a melhor solução. As questões de legitimidade e o sofrimento humano tornam-se secundários face ao objetivo a atingir...", considera Arbatov.

Putin terá tomado boa nota desta "lição" e não tardará a aplicá-la na Chechénia. Sob o efeito de choque do ataque da NATO contra a Sérvia, o Kremlin aumenta o orçamento da defesa e enceta uma profunda revisão dos conceitos de segurança e da doutrina militar russa.

Deriva autoritária

Ao assumir o poder, no final de 1999, Putin recebeu uma pesada herança do seu patrono, Boris Ieltsin. A Rússia estava à beira do caos. O Kremlin parecia incapaz de controlar o território e a Federação ameaçava desintegrar-se. A economia russa estava em queda livre, a criminalidade política e económica campeava. O poderoso exército russo mostrava-se incapaz de submeter os secessionistas na Chechénia. "Em certos aspetos a Rússia parecia à beira de se transformar num estado falhado", nota Roger E. Kane.

Putin assumiu resolutamente e com punho de ferro o objetivo de restabelecer a autoridade do Kremlin, de garantir a estabilidade política interna, recuperar a economia, conter as pulsões separatistas e os extremismos nacionais e religiosos.

Os resultados não se fizeram esperar. A economia deu sinais de revitalização, com ritmos de crescimento que chegaram a rondar os dois dígitos beneficiando em muito do aumento global dos preços do gás e do petróleo, pelo menos até ao outono de 2008. O Kremlin adota uma política externa mais assertiva e assume o objetivo de devolver à Rússia o estatuto de "grande potência" perdido com o colapso da URSS, e que os russos entendem caber por direito próprio ao seu país.

Os efeitos no plano interno são imediatos. A tendência para um controlo reforçado da vida política, económica e social da Rússia acentua-se. As liberdades cívicas e os preceitos do processo democrático passam a segundo plano face aos imperativos do Estado.

A campanha anticorrupção em breve descamba numa caça a quantos desafiam o regime e denunciam a deriva autoritária na Rússia. Oligarcas, media independentes, partidos políticos liberais e ONG russas e estrangeiras, em particular americanas, são denunciados como agentes que procuravam minar a estabilidade e prosperidade da Rússia.

O confronto com o Ocidente desempenha aqui um papel fulcral. Tanto na Rússia como na URSS, como durante os séculos de tsarismo, a tensão externa reflete-se automaticamente num endurecimento no plano interno. A cidadania política e liberdades individuais submetem-se uma vez mais aos interesses soberanos do Estado. A segurança do país e do regime passam a confundir-se.

"Perder a Rússia"

Putin disse, numa declaração perante o parlamento russo em abril de 2005, que o colapso da União Soviética foi "a maior catástrofe geopolítica do século". Meses depois, na conferência de segurança de Munique, o líder do Kremlin fez um ataque global à política americana. A Rússia, à medida que a sua posição económica política melhora, engrossa a voz na defesa daquilo que via como os seus "legítimos interesses" ao longo da sua periferia.

A "reconstrução" da "potência russa" teve ainda assim custos elevados. Mais do que um enorme recuo estratégico, a expansão da NATO e os antigos aliados da URSS - Polónia, Báltico, a "fidelíssima" Bulgária, depois a Ucrânia de Porochenko - numa frente apostada no confronto político e mesmo militar com a Rússia e num ativíssimo lóbi antirrusso nas estruturas da NATO e da União Europeia.

A degradação das relações entre a Rússia e o Ocidente dividem os meios políticos, jornalísticos e académicos do Ocidente. De um lado aponta-se o dedo à "deriva autoritária" do regime de Putin, agita-se o regresso aos reflexos soviéticos e acusa-se o Kremlin de prosseguir uma política agressiva e revanchista apostada em recuperar pela força o terreno perdido com o colapso da URSS.

Do outro, invoca-se a expansão da NATO, e o facto de o Ocidente nunca ter deixado de olhar a Rússia com desconfiança, como um sucessor mal disfarçado da URSS, nunca ter reconhecido à Rússia interesses próprios legítimos e uma voz de pleno direito no concerto das nações. "O que os russos têm procurado, por vezes de forma desajeitada, é um reconhecimento do seu papel como iguais no novo sistema internacional e não como derrotados da Guerra Fria a quem podem ser ditadas condições", assinalaram Henry Kissinger e George Shultz, dois antigos chefes da diplomacia norte-americana, em 2008, em plena crise da Geórgia.

Diversas figuras políticas manifestaram mesmo algum alarme perante a situação, considerando que a política de humilhação da Rússia é contraproducente e perigosa. Dimitri Simes, editor da National Interest, notava em 2007, em pleno impacto das "revoluções coloridas", que o Ocidente estava de algum modo a "perder a Rússia", apontando o impacto do alargamento da NATO ou a ação de Washington no espaço da ex-URSS na evolução da política russa.

O efeito Crimeia

A partir de 2004 uma série de convulsões vai alterar substancialmente o quadro político nas imediações da Rússia. As chamadas "revoluções coloridas" entre 2003 e 2004 instalaram no poder líderes pró-ocidentais em Tbilissi, Kiev e Bichkek. Em Moscovo soa o alarme quanto às intenções do Ocidente no espaço pós-soviético.

A crise ucraniana de 2014-15 leva a tensão ao rubro. A aparente hesitação do líder ucraniano Viktor Ianukovitch em responder à proposta de Bruxelas de um acordo comercial, no momento em que a Ucrânia se preparava para aderir à União Eurasiática de Putin, levou a uma vaga de manifestações em Kiev e finalmente à queda do presidente pró-russo, no final de 2014. Moscovo aponta o dedo ao papel de deputados europeus e de Victoria Nuland, subsecretária de Estado para os Assuntos Europeus, muito ativa na Euromaidan, e acusa o Ocidente de orquestrar o "golpe de Kiev" e de pretender "semear a instabilidade" na vizinhança da Rússia.

A Rússia reage de pronto anexando a Crimeia, território que considera historicamente seu e que alberga a base de Simferopol, de crucial importância estratégica. Washington e os aliados europeus respondem com a imposição de pesadas sanções e um importante reforço do dispositivo bélico da NATO ao longo das fronteiras ocidentais da Rússia, da Polónia aos estados do Báltico ou à Roménia.

O conflito da Geórgia, em 2008, e sobretudo a Ucrânia, marcam uma viragem de largo fôlego. Pela primeira vez a disputa entre a Rússia e os Estados Unidos e a NATO pela influência no espaço da ex-URSS coloca-se diretamente no plano das armas. O impacto da crise da Ucrânia e da tensão crescente com os Estados Unidos e a NATO marca os mais recentes documentos estratégicos da Rússia - a Doutrina Militar de 2014 e o Conceito de Segurança Nacional aprovado um ano depois, no final de 2015. A Rússia lançou-se num ambicioso plano de reformas militares e de reequipamento das suas forças armadas.

A prontidão da reação russa na Crimeia, os alertas, generosamente amplificado pelos media, quanto à nova "agressividade russa" em Washington e noutras capitais do Ocidente e um relatório da RAND alertando para uma potencial ameaça sobre os estados do Báltico dão à NATO argumentos para um verdadeiro cerco militar à Rússia.

"Casa comum"

A aproximação à Europa foi uma das prioridades estratégicas da Rússia desde o fim da URSS. Gorbachev fez da "casa comum europeia" um dos seus grandes lemas. Ieltsin, apostou fortemente na Europa e Putin prosseguiu a mesma linha. A degradação das relações entre a Rússia e o Ocidente comprometeram estas expectativas. E o alargamento da UE a leste acabou por ser percebido em Moscovo como uma ameaça de algum modo semelhante à expansão da NATO - como uma manobra geopolítica, a coberto da exportação forçada de alegados valores económicos e políticos liberais, através do alargamento da NATO e da União Europeia.

As relações institucionais entre Moscovo e Bruxelas nunca avançaram, e o impulso das cimeiras Rússia-UE de 2007-2008 em breve se perderiam. A Rússia tem de resto preferido negociar com cada estado, jogando de algum modo com as divisões europeias. A Polónia e a Estónia, apoiadas pela Grã-Bretanha e por vezes pela Suécia, exigem uma atitude mais dura face a Moscovo, enquanto a França, a Alemanha e a Itália se mostram mais apostados em relações de colaboração com a Rússia, particularmente em matéria energética.

Na sequência da anexação da Crimeia vários países da UE, com destaque para os novos membros do leste, bloquearam em 2007 a renovação da parceria Rússia-UE estabelecida em 1994 e reconduzida em 1997 com o objetivo de criar um espaço económico comum.

O fator Estados Unidos complica ainda esta equação condicionando fortemente as opções europeias. O Kremlin tentou explorar potenciais desencontros transatlânticos, jogando com pontuais cumplicidades entre Moscovo e Paris no conflito da Bósnia e a resistência conjunta da França, da Rússia e da Alemanha à invasão do Iraque em 2003, e sobretudo com as divisões no seio da NATO quanto às relações com a Rússia.

Numa intervenção no International Economic Forum de 2019, e entre apelos renovados a uma "Europa unida", Putin acusou a América de usar a NATO para criar um fosso entre a Europa e a Rússia e os estrategos de Washington de viverem obcecados com o "fantasma" de uma aproximação entre a Rússia e a Europa.

A crise ucraniana marca uma notória degradação das relações entre a Rússia e a Europa. Responsáveis de Bruxelas acusam o Kremlin de apoiar e subsidiar uma série de movimentos eurocéticos. E Moscovo não esconderá o seu gáudio pelo Brexit.

"Estado pária"

Polémica acesa quanto ao papel da URSS na II Guerra Mundial. Escândalos de espiões e assassinatos. Expulsões e contraexpulsões de diplomatas. A troca de acusações entre a Rússia e o Ocidente sobe continuamente de tom.

Boris Johnson chamou à Rússia, a propósito do envenenamento do antigo agente russo Serguei Skripal e da sua filha Iulia, em 2018, uma "força maligna e perturbadora" - uma tirada que faz longínquo eco ao "império do mal" lançado por Ronald Reagan no início dos anos 1980. A Rússia vê-se virtualmente condenada à condição de "Estado pária" e de "perturbador" da "boa ordem internacional".

O confronto passa por uma encarniçada "guerra da informação" e por um duelo de propagandas em que nenhum dos lados olha a meios. Pouco importam afinal o rigor das denúncias de uso de armas químicas pelo regime sírio ou as provas da alegada "mão" do Kremlin nos casos de Skripal, de Litvinenko e, mais recentemente, de Alexandre Navalny.
A Rússia está definitivamente no papel de réu perante as opiniões públicas e as instâncias internacionais, mesmo se nenhuma das acusações foi inteiramente esclarecida.

A evolução interna da Rússia dá novos argumentos à polémica. As manifestações antirregime são duramente reprimidas, líderes da oposição queixam-se de perseguições, a imprensa independente foi basicamente silenciada. A violência política instala-se. A jornalista Ana Politkovskaya, que denunciou os crimes cometidos na Chechénia, e Boris Nemtsov, uma das figuras mais proeminentes da oposição a Putin, são assassinados em Moscovo. No discurso do Kremlin acentuam-se agora notas de um patriotismo cada vez mais centrado na promoção dos "valores tradicionais russos" - numa tirada de acentos neoeslavófilos. As sanções antidoping que afastaram os atletas russos das competições internacionais em 2015 e de novo em 2019 vincaram bem o isolamento da Rússia num dos domínios de que o país fazia bandeira. Situação que os russos sentem aliás como uma discriminação, ditada por razões políticas, e que fizeram do desporto russo bode expiatório de práticas recorrentes em tantos outros países.

A vaga de vilões russos em Hollywood e no entertainment televisivo inscreve-se neste clima de hostilidade e desempenha afinal um papel político semelhante ao dos thrillers de espionagem durante a Guerra Fria. A série Stranger Things foi reformatada em 2010, em plena tensão entre a Rússia e o Ocidente, substituindo a ameaça de monstros alienígenas pela de brutais invasores russos. Serguei Lavrov, o chefe da diplomacia russa, fala de uma "russofobia sem precedentes", pior do que durante a Guerra Fria. Ao mesmo tempo a "russofobia" serve de arma de arremesso aos que não aceitam qualquer crítica ao Kremlin. E a hostilidade do Ocidente oferece afinal a Putin argumentos para um cerrar de fileiras entre os russos - assinala Ekaterina Zolotova na Geopolitical Futures.

"Demonização" de Putin

É, em última análise, para Vladimir Putin que todos os dedos apontam. O regime de Putin é acusado de tentativa de ingerências nas presidenciais americanas e nas eleições em vários países europeus, de cumplicidades com vários setores da extrema-direita europeia e de conluio com partidos e movimentos radicais antieuropeus, de campanhas de fake news e de ataques cibernéticos.

A atitude musculada e a imagem de duro do antigo agente do KGB ajudam a compor uma figura apontada por políticos, analistas e pelos media como uma ameaça absoluta, como um estereótipo. Como se o atual presidente russo personificasse a imagem secular de uma Rússia eternamente despótica e incompatível com a civilização ocidental. Stephen Cohen, editor da revista Nation, fala uma "demonização sem precedentes" do líder russo.

Apontou-se mesmo uma alegada convergência ideológica ou de interesses entre Putin e Trump. Ora, a alegada "cumplicidade" entre os dois líderes não impediu Trump de agravar repetidamente as sanções à Rússia, de aumentar a atividade da NATO e a presença das tropas dos EUA junto às fronteiras da Rússia ou de lançar uma corrida ao armamento que está a encostar a economia russa à parede.

Vários críticos notaram que o vilão Gru de Despicable Me, bem como outros vilões russos, se inspira em boa medida na figura de Putin. "Ora, se se considerar que Putin desempenha o papel do protótipo do oligarca gangster nos nossos telejornais, coloca-se a questão de traçar a linha entre a realidade e a ficção", observa Eloise Melville.

Resta que a figura que o Ocidente acusa de todos os crimes é de algum modo produto do Ocidente. Ao assumir o poder, há duas décadas, Putin elegia a cooperação com o Ocidente como um dos grandes instrumentos de recuperação da Rússia. A evolução do líder russo resulta da sua personalidade política, dos desafios internos ao seu regime, mas também de uma reação à expansão do Ocidente no espaço ex-soviético e, assinala Richard Sakwa, da Universidade de Kent, ao facto de o Ocidente "não ter querido responder aos esforços russos, de Gorbachev a Putin, para se chegar a uma resolução definitiva das questões da Guerra Fria".

Vulnerabilidades russas

Analistas e políticos lançam o alarme para a nova "agressividade russa", numa ação que junta à "linha soviética" novos métodos como a "guerra híbrida" e "guerra da informação". "O expansionismo é o ADN dos russos", proclamou o comentador George Will na sequência da crise da Ucrânia.

Em rigor, a atitude russa é fundamentalmente defensiva, de gestão de perdas. Mesmo nas suas expressões de maior assertividade diplomática e militar, a política russa teve ao longo de todo este processo - de Gorbachev a Ieltsin e a Putin - um carácter fundamentalmente defensivo, de contenção de danos nos recuos sofridos com o colapso da URSS, os sucessivos alargamentos da NATO ou as "revoluções coloridas".

Desde 2016 assiste-se a um forte aumento da presença militar da NATO e dos "jogos de guerra junto às fronteiras russas, do Báltico ao mar Negro, e ao aumento da presença militar americana, em particular na Polónia. Ao mesmo tempo a Rússia reforça o seu dispositivo militar junto às suas fronteiras ocidentais. A escalada de ameaças e contra-ameaças cria uma situação explosiva na região.

Numa conferência de imprensa em dezembro último, o número um do Kremlin observou que os gastos militares russos são mais de dez vezes inferiores aos dos Estados Unidos e perguntou-se: "Podemos nós acompanhar as despesas militares dos EUA? Não." É aliás essa consciência que explica a aposta russa no "nuclear tático" como último recurso face a um ataque convencional esmagador.

O aumento constante de orçamentos, os novos programas armamentistas e a mais recente doutrina militar indiciam que os EUA estão à procura da supremacia nuclear que inviabilize a dissuasão tradicional (MAD).

A China representa o maior desafio estratégico dos EUA para o século XXI. O caso da Rússia é completamente diferente. A rivalidade entre a Rússia e a América assume de imediato uma dimensão militar. E para as elites americanas a Rússia representa, mais do que um desafio, uma verdadeira fixação.

A intervenção na Síria, em 2015, marca o regresso da Rússia ao palco crucial do Médio Oriente e a tentativa de assumir um papel de potência global. Trata-se, porém de uma jogada de alto risco e que começa a encontrar resistências na própria Rússia. O país não dispõe de recursos políticos e sobretudo económicos para se assumir como "ator global" e arrisca-se a dar passos maiores do que a perna.

Juntam-se a esses limites os problemas internos da Rússia - refere Ekaterina Zolotova, na Geopolitical Futures -, da instabilidade na Bielorrússia, o mais importante tampão e o seu último aliado a Ocidente, às ameaças ao pipeline Nord Stream 2, fundamental para a Rússia, aos protestos em Khabarovsk, que levantam fantasmas separatistas, ou aos impactos económicos e sociais da covid-19. "Essas vulnerabilidades juntam-se a ansiedades profundas sobre a possibilidade de uma mudança de regime inspirada pelo Ocidente, perda do estatuto de grande potência e mesmo de sofrer um ataque militar", alerta Keir Giles.

A "construção do Ocidente"

Num documento recente a RAND recomenda uma política face à Rússia alicerçada em medidas como uma presença militar reforçada da NATO no leste da Europa com o fito de "obrigar a Rússia a uma dispendiosa corrida aos armamentos", o uso de sanções para vender gás americano à Europa, o encorajamento à emigração da Rússia de técnicos e jovens formados, a intervenção política na Bielorrússia e nos vizinhos da Rússia no Cáucaso e na Ásia Central, o fornecimento de armas letais à Ucrânia, a intervenção sistemática na política interna russa, a detração da imagem da Rússia.

E Joe Biden, candidato democrata às presidenciais americanas, defendeu abertamente, num artigo recente na Foreign Affairs, a ingerência na vida política russa, não excluindo a possibilidade de uma operação de regime change, em tudo semelhante a outras realizadas na vizinhança da Federação Russa.

A tensão com Moscovo deu mesmo uma nova razão de ser a uma NATO que atravessou diversas crises existenciais desde o colapso do antigo Bloco de Leste, e novos argumentos a Washington para exigir aos seus parceiros da Aliança - parte deles reticentes em relação à política de confronto com a Rússia - uma disciplina estratégica reforçada e uma maior partilha do fardo da Defesa.

"A tendência para pintar a Rússia como um país eternamente atrasado, bárbaro, despótico e mesmo maléfico é fundamental para a construção de si próprio do Ocidente", observou Sean Guillory em 2019, historiador da Universidade de Pittsburgh. "Os próprios conceitos de fronteiras imaginadas da Europa e de Ocidente correspondem desde o último século a uma oposição de membros da NATO/UE vis à vis Rússia."

À luz dos propósitos da RAND, o clima de tensão entre o Ocidente e a Rússia parece irreparável num horizonte vislumbrável. A "guerra fria" regressa ao discurso dos políticos e dos media. Para além das dimensões políticas e geoestratégicas, o a "russofobia" instalou-se já nos media, nas opiniões públicas, na esfera académica e ainda na cultura e o desporto.

Curiosamente, no discurso de certas elites políticas e intelectuais europeias ressurgem mesmo acentos dessa espécie de racismo antieslavo da boa memória nos dias de Hitler e Mussolini. E, na perspetiva de vários analistas, a velha oposição entre a Europa Ocidental e as "margens da civilização europeia" não será inteiramente alheia aos desencontros entre Bruxelas e Varsóvia, Praga ou Budapeste.

O divórcio marginaliza profundamente a Rússia. Mas deixa também a Europa mais pobre, e em vários domínios. De todas as dimensões em que se possa conceber a Europa, a identidade cultural será decerto a mais fundadora. E, em rigor, será difícil conceber qualquer ideia de cultura europeia sem o contributo de Dostoievski, Diaguilev, Tchaikovski, Stravinski ou Tarkovski.

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