Açores. O acordo com o Chega incomoda o PSD? Poucos batem palmas, mas...

O acordo de incidência parlamentar do PSD com o Chega nos Açores não entusiasma nenhum social-democrata. Há quem o ataque fortemente mas também quem o considere um "mal menor".

O acordo que o Chega fez com o PSD nos Açores incomodou muito os socialistas, como é óbvio, mas também alguns sociais-democratas, como o antigo líder parlamentar Hugo Soares ou José Eduardo Martins. Mas no partido desvaloriza-se a polémica. Poucos batem palmas, mas admitem que é por um "bem maior": tirar os socialistas do poder na região autónoma. E tal como Rui Rio frisam que o acordo de incidência parlamentar é regional e que os pontos de entendimento já eram defendidos pelo PSD "há muito tempo".

Poucos são também os que querem falar em on sobre este acordo, mas fontes ouvidas pelo DN garantem que não há uma agitação em torno da questão no PSD e na bancada parlamentar. "O que foi acordado com o Chega nos Açores, toda a gente é a favor, o que está em causa é ser o Chega", frisa um parlamentar social-democrata. Mesmo o ponto mais polémico do dito acordo - a "redução significativa da subsidiodependência" nos Açores -, garante a mesma fonte, é "património" do PSD desde o tempo de Pedro Passo Coelho, quando apoiou o PS de José Sócrates a alterar as regras para a "condição de recursos" a ter em conta na atribuição de subsídios.

"Ora, nos Açores, onde o Governo do PS atirou dinheiro para todos, o PSD só pode achar bem que se reveja todo o sistema de subsídios e que não haja um euro de dinheiro mal gasto", acrescenta. "É preciso engolir o sapo de Ventura para que isso aconteça. Engole-se."

Na carta que entregaram ao representante da República, e divulgada pelo Expresso, os eleitos do Chega frisam que o novo Governo Regional se comprometeu a fazer uma "redução significativa da subsidiodependência" nos Açores (medida que Rui Rio garantiu acompanhar) e a criar um gabinete regional que vise combater a corrupção. Dizem também que Bolieiro prometeu desencadear junto da Assembleia da República um processo de revisão da Constituição da República e/ou do Estatuto Jurídico-Administrativo dos Açores que permita reduzir o número de deputados no Parlamento regional.

O Chega escreveu ainda saber que Rio entregará, "ainda nesta sessão legislativa", um projeto de revisão da lei fundamental que não se cinja apenas às propostas que os sociais-democratas inscreveram no programa eleitoral do ano passado. O partido de Ventura sublinha até que lhe foram dadas "garantias" de que essa iniciativa "contemplará a redução do número de deputados [...], bem como a vontade de fazer uma profunda reforma no sistema de justiça", o que já constava do projeto social-democrata...

Dos Açores chega a voz de Duarte Freitas. O antigo deputado regional e eurodeputado do PSD garante que "se há alguém por quem se pode pôr as mãos no fogo que não trairá a social-democracia é José Manuel Bolieiro", o líder do PSD-Açores que lidera a coligação com o CDS e o PPM.

Os extremos não são solução positiva, mas mais vale normalizá-los para manter os outros partidos mais atentos aos 'absurdos'.

E sublinha que o acordo de incidência parlamentar feito com o Chega não traz nenhum prejuízo para os açorianos, quando um do PS com o BE poderia trazer. E exemplifica. "O BE faria pressão para os EUA saírem da Base das Lajes."

Duarte Freitas defende que "a dialética pública de André Ventura é mais extremista do que o programa do Chega, e no caso da extrema-esquerda a dialética é menos extremista do que o programa, por exemplo, do BE". Concluiu que "os extremos não são solução positiva, mas mais vale normalizá-los para manter os outros partidos mais atentos aos 'absurdos' que defendem".

O líder do PSD também se defendeu várias vezes dos ataques que sofreu pelo acordo, sobretudo dos do PS. Sem a negar um acordo a nível nacional, garantiu, entre outras coisas, que no projeto de lei de revisão da Constituição em 2018 já constava a redução do número de deputados. "O PS sabe que mente. O PS quer enganar as pessoas."

Vozes críticas

O antigo líder parlamentar do PSD e apoiante de Luís Montenegro, Hugo Soares, o challenger de Rio nas últimas diretas, criticou no Facebook a aproximação ao partido de André Ventura: "Na política não vale tudo. Em matéria de princípio, não podemos claudicar sob pena de os populismos crescerem e a democracia se degrada."

E em declarações à Sábado, questionava: "Como é que se trocam convicções por conveniências de poder?" Hugo Soares defendia que o PS como partido mais votado deveria governar, à semelhança do que defendeu para o PSD a nível nacional em 2015, e lembrava que Rui Rio sempre colocou o partido no centro-esquerda, quando agora celebra um acordo com a extrema-direita.

José Eduardo Martins, antigo vice-presidente da bancada parlamentar do PSD, também subscreveu um abaixo-assinado, publicado no Público, em que várias figuras do centro-direita em que, sem mencionar o Chega ou os Açores, afirmam: "Não contestamos a legitimidade dos novos movimentos de direita, nem ignoramos as razões de descontentamento e exasperação dos seus apoiantes. Mas não se responde à deriva com a amálgama. É preciso deixar bem claro que as direitas democráticas não têm terreno comum com os iliberalismos. É essa clareza que defendemos."

O problema que existe aqui é no plano nacional, para o PSD, não é regional, e é o Chega. Rui Rio tinha dito, em pelo menos duas entrevistas televisivas [...], que não haveria acordos nem entendimentos com o Chega enquanto este não mudasse.

E na SIC, o antigo líder do PSD Marques Mendes considerou, "do ponto de vista regional, normal e compreensível" a solução governativa à direita, que junta PSD, CDS e PPM ao Chega nos Açores. Ainda assim, a nível nacional, o comentador considera que poderá haver problemas para os laranjas pela proximidade ao Chega.

"O problema que existe aqui é no plano nacional, para o PSD, não é regional, e é o Chega. Rui Rio tinha dito, em pelo menos duas entrevistas televisivas [...], que não haveria acordos nem entendimentos com o Chega enquanto este não mudasse", relembrou. Assim, disse, o partido arrisca-se a manchar a sua "perceção política" a nível nacional, criando a sensação de que "normalizou o Chega".

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