Exclusivo: um capítulo do último livro de Murakami, 'A Morte do Comendador'

Pré-publicação de um capítulo do novo romance de Haruki Murakami, A Morte do Comendador. Uma homenagem a O Grande Gatsby que chega na terça-feira às livrarias portuguesas.

A Morte do Comendador

Pré-publicação do romance de Haruki Murakami

"A exemplo de muitos artistas genuinamente japoneses, Tomohiko Amada começou por pintar paisagens realistas e flores. Num ciclo posterior escolheu retratar cenas do Japão ancestral. Alguns desses temas prendiam-se com os períodos Heian ou Kamakura, ainda que privilegiasse o período Asuka, do início do século VII, concretamente a época em que o lendário príncipe Shƃtoku Taishi reinava. Nos quadros, o pintor reproduzia pormenorizadamente, em grandes e poderosas pinceladas, os acontecimentos históricos e a vida das pessoas. Não observara essas cenas com os próprios olhos, escusado será dizer, mas podemos afirmar que as via clara e nitidamente, através do olhar interior. Desconheço por que motivo escolhera o período Asuka, que se tornou, por excelência, o preferido, logrando captá-lo em todos os seus matizes num estilo inconfundível. Com o tempo, a técnica artística progrediu e os quadros adquiriram um crescente grau de sofisticação.

Em resultado da minha observação atenta, posso afiançar que Tomohiko Amada começou a pintar apenas o que queria. O pincel parecia obedecer às ordens do mestre e passeava livremente pela tela. Porém, o toque de génio residia no uso do espaço em branco; de forma paradoxal, as imagens que não apareciam reproduzidas. Ao não pintar determinadas coisas, Amada deixava indelevelmente vincado o que pretendia pintar. Neste aspeto, é indiscutível que os pintores nihonga dão cartas na matéria. De facto, não me lembro de ter encontrado um uso tão arrojado do espaço em branco na pintura ocidental. Diante daqueles quadros, percebia por que razão Tomohiko Amada se rendera à arte japonesa. Só não compreendia quando se operara verdadeiramente essa intrépida conversão e em que moldes.

De acordo com a breve biografia no final do livro, o pintor era filho de boas famílias e nascera em Aso, nas montanhas de Kumamoto. O pai, latifundiário, tinha sido uma influente figura local. Cedo dera mostras de talento e distinguira-se desde pequeno. Após ter concluído a licenciatura no Instituto de Arte de Tóquio - mais tarde Universidade de Belas-Artes de Tóquio -, acalentando sempre grandes esperanças, prosseguira os estudos em Viena, entre 1936 e 1939. Nesse ano, antes do início da Segunda Guerra Mundial, embarcou em Bremen e regressou ao Japão. Hitler, que entretanto tomara o poder, anexara a Áustria ao Terceiro Reich, em março de 1938, o chamado Anschluss. Em Viena, o jovem Amada vivera na pele esses dias turbulentos e testemunhara muitos dos acontecimentos históricos da época.

O que lhe teria acontecido em Viena?

Numa coletânea encontrei um longo ensaio acerca de Tomohiko Amada. Mas pouco ou nada adiantava sobre a temporada que o pintor passara em Viena. O texto, que se debruçava sobre a sua carreira de pintor nihonga após ele ter voltado ao país de origem, fornecia vagas conjeturas sem fundamento no que respeitava aos motivos do regresso e às transformações operadas no decorrer da estada na Áustria. Quanto ao que andara Amada a fazer em Viena, conduzindo-o à dramática transformação, permanecia um mistério.

Tomohiko Amada regressou ao Japão em fevereiro de 1939 e assentou arraiais numa casa alugada no bairro de Sendagi, em Tóquio. Nessa altura, renegou a pintura segundo os moldes ocidentais. Continuava a receber uma mesada, o que equivale a dizer que nada lhe faltava. A mãe, em particular, nutria por ele uma adoração sem limites. Durante esta fase, ao que tudo indica, terá investido por sua alta recreação no estudo da pintura nihonga. Por várias vezes tentou estabelecer-se sob a égide de um pintor consagrado, sem, no entanto, lograr os seus intentos. Convém dizer, neste ponto, que Tomohiko Amada estava longe de ser um homem humilde. Manter relações pacíficas e em boa harmonia com terceiros não era o seu forte. A tendência para se isolar foi uma constante ao longo da vida.

Após o ataque a Pearl Harbor, em 1941, ano em que o Japão entrou de cabeça na guerra, o artista abandonou a tumultuosa cidade de Tóquio e refugiou-se na casa dos pais, em Aso. Enquanto segundo filho, evitou os problemas relacionados com a herança paterna, tendo recebido uma pequena casa com empregada, e ali levou uma vida tranquila, a salvo da guerra. Feliz ou infelizmente, sofria de um problema congénito nos pulmões e não corria o risco de ser incorporado no exército. (Se bem que esta possa ter sido a desculpa oficialmente apresentada, não é de excluir que a família tivesse mexido os cordelinhos, a fim de garantir que ele não seria incorporado.) Conseguiu assim escapar à drástica escassez de alimentos, para não dizer à fome generalizada, que afetava a maioria dos japoneses. Pelo facto de morar numa zona montanhosa, em pleno Japão profundo, e a menos que se verificasse um erro de bradar aos céus, encontrava-se ao abrigo dos ataques lançados por aviões norte-americanos. Ali permaneceu entregue a si próprio, praticamente em reclusão, até à rendição de 1945. Cortados os laços que o uniam à sociedade, dedicou-se de corpo e alma à tarefa de aperfeiçoar a técnica nihonga. Durante esse ínterim, não deu a conhecer ao mundo um único quadro.

Na qualidade de autor de pinturas de estilo ocidental, conhecera as luzes da ribalta e recebera uma bolsa de estudo, que lhe permitira ir estudar para Viena; não deve ter sido por isso fácil para ele a decisão de se remeter ao silêncio durante seis anos a fio, afastado da comunidade artística, decerto uma experiência penosa. Mas não era o tipo de homem que desistia facilmente. Quando a longa guerra chegou ao fim, e conforme as pessoas lutavam e se desunhavam para sair do caos, Tomohiko Amada renasceu das cinzas, desta vez enquanto prometedor pintor tradicional japonês. Um após outro, deu a conhecer publicamente os quadros que pintara durante a guerra. Foi durante esse período que muitos artistas, tendo-se dedicado a criar sobretudo obras de propaganda nacionalista, não tiveram outro remédio senão assumir a responsabilidade pelas suas ações e, sob o olhar atento dos responsáveis pela ocupação, se viram obrigados a sair de cena. Assim se explica que as obras de Tomohiko Amada, ao revelarem a possibilidade de uma revolução na pintura japonesa, tenham granjeado uma atenção desmedida. O tempo, como se costuma dizer, foi seu aliado.

Pouco tenho a adiantar sobre a sua carreira daí em diante. Assim que um artista tem êxito, a vida dele torna-se invariavelmente monótona. Artistas há, como é evidente, que, uma vez na senda do êxito, caminham direitinhos para o abismo, mas não era o caso dele. Ganhou numerosos prémios - embora tivesse recusado a Medalha de Mérito Cultural atribuída pelo Estado, considerando que só serviria para o «distrair» do seu afã - e tornou-se famoso. Ao longo dos anos, o valor de mercado das obras aumentara exponencialmente, e os seus quadros haviam sido mostrados em público. As exposições sucederam-se, e também no estrangeiro a obra do pintor granjeou inúmeras distinções. É caso para dizer que ia de vento em popa. Enquanto artista, evitava surgir em posição de evidência, escusando-se a ocupar cargos públicos, e recusou todos os convites, tanto no seu país de origem como no estrangeiro. Em vez disso, refugiou-se sozinho nas montanhas de Odawara, na casa para onde fui morar, e dedicou-se à arte de corpo e alma.

Com noventa e dois anos, internado numa casa de repouso na península de Izu-Kƃgen, não sabia já dizer a diferença entre uma ópera e uma panela.

Quando fazia bom tempo, gostava de ir até ao terraço, deitar-me numa espreguiçadeira e deleitar-me com um copo de vinho branco. Contemplando o céu estrelado, a sul, refletia nas lições proporcionadas pela vida de Tomohiko Amada − coragem para enfrentar as mudanças, a importância de fazermos do tempo um aliado. E, acima de tudo, a capacidade de descobrirmos o nosso próprio estilo e temas interessantes. Não é fácil, naturalmente. Mas para vivermos da arte há que tentar e fazer um esforço titânico nesse sentido, dê lá por onde der. Se possível, antes dos quarenta...

Afinal, por que experiências passara Tomohiko Amada em Viena? Que acontecimentos presenciara? E, acima de tudo, o que o terá levado a pousar os pincéis definitivamente? Imagino o jovem Amada a percorrer Viena, as ruas repletas de bandeiras vermelhas e pretas com suásticas nazis. Por qualquer razão, na minha fantasia, é inverno. Tomohiko Amada enverga um casaco grosso, tem um cachecol ao pescoço e o boné cobre-lhe a cabeça quase até aos olhos. À distância, um elétrico dobra a esquina e aproxima-se, e o granizo volta a cair. A cada passo que dá, o ar que sai da boca dele forma uma nuvem branca que simboliza o próprio silêncio. No interior dos estabelecimentos comerciais aquecidos, os vienenses bebem café com rum.

Esforcei-me por visualizar os seus últimos quadros do período Asuka, repletos de cenas representando as ruas de Viena. A minha imaginação, devo dizer, não se mostrou à altura da tarefa, e não fui capaz de encontrar semelhanças entre uma coisa e outra.

O terraço estava virado para oeste e dava para uma cordilheira de montanhas altas. Espalhadas pela encosta, viam-se várias casas separadas por luxuriantes espaços verdes. À direita, mesmo em frente à casa onde eu morava, avistava-se uma vivenda moderna tipicamente ocidental, por certo obra de algum arquiteto renomado. Feita de cimento branco com vidros fumados verdes, respirava elegância e luxo. Possuía três andares que acompanhavam a inclinação do declive. Embora não faltassem casas espalhadas pelas cercanias, só ali se distinguia luz nas janelas todo o ano. Talvez fossem apenas temporizadores, instalados pelo seu proprietário por mera precaução, mas eu preferia pensar que não, uma vez que as luzes se acendiam e apagavam a diferentes horas, conforme os dias. Momentos havia em que as janelas ficavam iluminadas como montras numa rua principal, ao passo que, noutras ocasiões, a casa inteira mergulhava na escuridão, e a única claridade provinha do brilho fraco emitido pelas lanternas no jardim.

De quando em quando, alguém subia ao terraço, que parecia a coberta de um navio de cruzeiro, e ficava a olhar na minha direção. Calhava ver muitas vezes essa figura recortada no momento do lusco-fusco, mas não sei ao certo se era homem ou mulher. A silhueta, pequena, surgia geralmente em contraluz e na sombra. Contudo, baseando-me nos contornos e nos movimentos, arrisco-me a dizer que se tratava de um homem. Acrescente-se que essa pessoa estava sempre sozinha. Se calhar, não tinha família.

Quem escolheria um lugar daqueles para viver? Quando não tinha nada para fazer, meditava no assunto. Será que a dita pessoa morava sozinha naquele ermo no topo da montanha? A que ofício se dedicaria para poder permitir-se viver no meio daquele luxo asiático? Tudo indicava que devia usufruir de uma existência livre de preocupações. Da perspetiva dele, ao observar-me deste lado do vale, o mais provável era parecer que também eu levava uma vida fácil e despreocupada. Ao longe, tudo parece um mar de rosas.

Nessa noite, o dito-cujo tornou a dar um ar da sua graça. Reconheci-o, sentado numa cadeira de braços no terraço. E, como eu, também ele parecia mergulhado nos seus pensamentos, de olhos postos no firmamento, refletindo sem sombra de dúvida sobre uma data de coisas para as quais não há resposta, por mais que matemos a cabeça. Pelo menos, era assim que eu o via. Até os que se orgulham de uma existência afortunada têm motivos para especular e se interrogar. Ergui ao de leve o copo de vinho e brindei ao homem que vivia do outro lado do vale, numa espécie de saudação secreta e solidária.

Obviamente que nunca me passou pela cabeça que essa pessoa iria mudar em breve o rumo da minha vida. Sem ele, nada do que me aconteceu teria acontecido. Se ele não existisse, o mais certo era ter vivido até ao fim dos meus dias na absoluta escuridão.

Quando a passamos em revista, a nossa vida parece realmente estranha e misteriosa, recheada de coincidências inacreditáveis e desenvolvimentos imprevisíveis e fantásticos. À medida que se desenrolam, torna-se difícil identificar o que têm de bizarro, por mais que olhemos com atenção. Imersos na rotina, essas coisas parecem normalíssimas e perfeitamente naturais. Apesar de não fazerem sentido, o tempo encarrega-se de lhes conferir coerência.

De uma forma geral, só o efeito ajuda a determinar a lógica de uma determinada coisa. Os resultados estão à vista para toda a gente ver e podem ter uma influência decisiva, mas não é fácil identificar a causa exata. E torna-se ainda mais difícil mostrar aos comuns mortais o que levou, em concreto, a esse resultado, ou seja, meter-lhes a evidência pelos olhos dentro. Não há efeito sem causa. Sem ovos não se fazem omeletas. Tal como o chamado efeito dominó, uma peça de dominó (causa) derruba a outra peça (causa), que, por seu turno, faz cair o dominó (causa) que se segue. Ao mesmo tempo que a reação em cadeia se desenvolve, uma pessoa perde a noção e, a páginas tantas, já não sabe a quantas anda. É possível que daí não venha mal ao mundo. Se calhar, ninguém está interessado em saber. Nesse momento, tudo passa a resumir-se à frase: "Muito barulho por coisa nenhuma." A história que vos vou contar arrisca-se a ter a mesma sorte.

Voltando à vaca-fria, começo por descrever as duas primeiras peças de dominó que sou obrigado a revelar, a saber: o misterioso vizinho que morava do outro lado do vale e um quadro com o sugestivo título de A Morte do Comendador. Vou começar pelo quadro.

A Morte do Comendador Vol. 1

Haruki Murakami

Editora Casa das Letras

406 páginas

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