Nove meses depois... está tudo pior

Abril, maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro. Nove meses depois da primeira explosão de casos - uma fração dos atuais números de contágios, internamentos e mortes por covid -, a discussão é exatamente a mesma. Fecha-se tudo ou não - e chega fechar? Os hospitais estão a rebentar pelas costuras - porque não há uma resposta integrada na saúde que conte com todos os atores, públicos, privados e setor social? Não há controlo sobre os focos de contágio e é essa a forma de travar os números.

Nada disto veio sem aviso. Tivemos meses de alertas dos especialistas. Vimos tudo isto acontecer à nossa volta, aproximar-se, e exatamente como há nove meses optámos por ignorar e esperar que fôssemos nós a afortunada exceção à regra. E agora que o cenário negro que os especialistas andaram meses a anunciar se concretizou, corremos em círculos, de cabeça perdida, a tentar recuperar em poucos dias o que não se planeou, previu ou fez durante nove meses.

Serviu isso para emendarmos a mão e enfim começarmos a planear e a agir com base no que nos diz quem sabe alguma coisa desta doença ainda tão pouco conhecida? Para garantirmos o reforço de meios para um combate eficaz e articulado à pandemia? Para identificar focos de infeção, estudar comportamentos e analisar dados de forma a agir informadamente? A triste resposta é: não. Estamos a repetir fórmulas de março e abril, apesar de nos gritarem aos ouvidos que confinar não é suficiente em termos de saúde - e é mortal para a economia.

E onde para a ministra da Saúde, agora que se pôs fim às sádicas, incompreensíveis e inúteis conferências de imprensa de atualização diária da covid? Aparece para anunciar-nos que o SNS está "sob enorme pressão", que os tempos são "muito difíceis" e para ordenar a suspensão de toda a atividade não urgente nos hospitais de Lisboa. O que seria de nós sem tamanha clarividência e capacidade de ação?

A pergunta que se impõe é até quando vamos permitir que escolhas e convicções pessoais manchem decisões políticas que são, não haja engano, de vida ou de morte. Optar por parar toda a atividade não urgente - em vez de tratar o sistema de saúde, os meios físicos e humanos existentes como um todo - é condenar muitos portugueses à doença e à morte antecipada. Não será de covid, mas de cancro, de diabetes, de todas as outras doenças que todos os anos matam milhares de pessoas neste país e em que a deteção atempada verdadeiramente pode fazer a diferença. E esta fatura pagá-la-emos durante a próxima década.

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