Mais um texto sobre o que se está a passar no Irão

O conflito no Irão tem dividido os especialistas. Uns entendem que Trump fez bem em matar o general pela ameaça que representava aos interesses norte-americanos na zona; outros que fez mal, que isso só vai tornar as coisas piores. A grande defensora de Trump é uma das minhas mais velhas, mais belicista em si, justiceira, pragmática, que sabe que mais vale um drone na mão do que dois a voar. Está isolada, embora ande a trabalhar um dos mais novos para se juntar a ela, a construir a sua coligação de combatentes da liberdade, que se algum exército tem armas tipo Fortnite, é o americano.

Mas estragou tudo quando disse aos rapazes que tínhamos de defender o Trump porque a América são aliados connosco, a mãe bem tentava dizer que se dizia nossos aliados, mas ninguém a ouviu, até porque a mãe é contra vermos o telejornal enquanto jantamos, e como tínhamos conseguido desta vez ligar a televisão e tínhamos tido a sorte de apanhar uma guerra mesmo no início, podemos dar-nos ao luxo de não ouvir as correções gramaticais que vai fazendo.

Os rapazes, por definição mais da mamã, começaram por gostar da ideia de sermos aliados com a América, mas quando a mais velha lhes disse que assim que a América fosse atacada tínhamos de ir defender a América, e que o Estado podia obrigar os rapazes a ir para a guerra e que quem não fosse era preso ou pagava uma multa, aí os cérebros de 7 e 9 anos entraram em ação, que o Trump era como o Hitler e que por isso não tínhamos nada que o ajudar, era o que faltava, e ele que fosse primeiro pedir ajuda a países com exércitos mais poderosos do que o nosso, e porque é que tínhamos de ir para o Irão, ou para o Iraque, devia haver outros aliados mais perto.

A outra mais velha, que é gémea com a do Trump (este com é só para irritar a mãe), já não bastava a confusão entre Irão e Iraque, disse que na Coreia do Sul há serviço militar obrigatório, o que vinha tematicamente a propósito, mas não regionalmente a propósito, e quando os irmãos se revoltaram contra o conceito de o serviço militar ser obrigatório (posso morrer amanhã, que acho que já transmiti o único valor que importa transmitir, que é se é obrigatório, é cocó), ela, lapidarmente, encerrou a discussão dizendo que mesmo os cantores do K-pop têm de ir, e até mesmo os atores das séries vão. Se eles vão, portanto... E o que se pode respondera a um portanto reticências adolescente?

Falei dos xiitas, tipo os protestantes e os católicos há muitos anos, e da guerra do Iraque e da queda do Saddam Hussein e de como tudo isso permitiu mais influência ao Irão na zona (o mais novo de todos confunde povos com polvos, por isso não usei a expressão povo). O segundo mais novo, agora com medo de ter de ir dar o couro pelo Trump, disse, passado é passado, só interessa o presente. Não podem fazer guerras por causa do passado - não lhe disse que as guerras eram todas por causa do passado, concordei.

A de 12 anos não gosta muito das conversas sobre geoestratégia e queria era mesmo falar do número de mulheres que acusaram o Trump de assédio sexual, o que é isso?, perguntavam os manos mais novos, a mãe esbugalhava os olhos, nada que te interesse, mas ele assediou montes de mulheres e votaram nele, mas agora vai perder, ele é nojento. Vai ganhar, disse eu, porque as pessoas que votam nele não se importam com o assédio e gostam de guerra, acham que a América fica mais forte. E fica, por isso ele fez bem, disse a nossa trumpista, que além disso quer ir para a tropa (quando não quer ser educadora de infância, e vice-versa).

Os mais novos ficaram muito perturbados, que isto da guerra é coisa feia. Até porque a única guerra que tinham conhecido até agora foi a Guerra de 1908 do Raul Solnado, que de tanto ouvirem no carro fixaram e recitaram em conjunto no Natal, em cima de duas cadeiras, cinco minutos quase tudo certo, sem ponto nem ajudas. Depois acabou a conversa e foi a guerra normal do levantar a mesa, lavar os dentes, deitar, mas essa ao menos não mata ninguém, só mói.

Advogado

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