Rogério Alves decide hoje se Varandas vai a exame. Presidente não se demite

Movimento pediu a marcação de uma assembleia geral para destituir a atual direção, por considerar que já não tem condições para gerir o clube. Situação idêntica esteve na origem da saída de Godinho Lopes e Bruno de Carvalho.

O Sporting volta a estar a ferro e fogo. Rogério Alves, presidente da Mesa da Assembleia Geral ( MAG) do Sporting, tem o futuro próximo do clube nas mãos e decide nesta terça-feira se leva o presidente Frederico Varandas a escrutínio dos sócios numa assembleia geral destitutiva ou se nega o pedido do movimento Dar Futuro ao Sporting. A questão é complexa e volta a colocar o clube num turbilhão diretivo.

O presidente do Sporting abordou o assunto ao de leve na entrevista que deu à TVI, sem responder claramente sobre o caminho a seguir. "Falando como sócio do Sporting, houve uma direção que foi destituída em toda a história do Sporting. Uma direção que criou órgãos sociais e congelou contas. Vou esquecer como esta direção pegou no clube. Se uma direção, seja qual for, cai por resultados desportivos passados 16 meses, o próximo presidente então não dura sequer um ano. Neste Sporting há transparência e seriedade e separação de poderes", respondeu o líder leonino, eleito em setembro de 2018.

Frederico Varandas garantiu no entanto que levará o mandato até ao fim mesmo sob ruído e ameaças: "Não estou agarrado ao lugar e isso dá-me força. A minha missão é entregar o clube melhor. Se admito não terminar voluntariamente? Fui eleito pela maioria dos sócios. O mandato tem a duração de quatro anos. Vamos levá-lo até ao fim. Vamos entregar o clube muito melhor do que estava. Esse é o nosso objetivo. Sobre ruído e ameaças físicas não nos vamos demitir." Varandas deu assim a entender que enfrentará os sócios mesmo que Rogério Alves dê luz verde à AG destitutiva. A decisão estava prevista para a semana passada, mas o presidente da MAG pediu mais elementos antes de anunciar o veredicto. "A Mesa da Assembleia Geral do Sporting Clube de Portugal vem por este meio informar que os serviços analisaram os aspetos formais do requerimento, tendo apurado um total de 383 sócios subscritores válidos que correspondem a 1365 votos. Previamente à apreciação final do teor do requerimento foram hoje solicitados alguns esclarecimentos aos requerentes. Uma vez obtidos esses esclarecimentos, será proferida uma decisão, a qual será tornada pública", comunicou o clube após a decisão ser adiada para esta terça-feira.

Jaime Marta Soares já esteve na pele de Rogério Alves. Foi ele quem em 2018 marcou a reunião magna para destituir Bruno de Carvalho. E, apesar de "não querer falar do Sporting", fez uma curta declaração ao DN, em que dá a entender o que faria se estivesse no lugar do atual presidente da MAG. "Quem semeia ventos, colhe tempestades. O senhor presidente da MAG, o senhor presidente do Conselho Fiscal e o senhor presidente da direção deviam saber que no Sporting os sócios são soberanos", disse Marta Soares ao DN.

O que alegam na justa causa?

Os rostos do movimento, António Delgado e Carlos Mourinha, que entregaram as assinaturas necessárias para o efeito no dia 7 de janeiro prestaram os esclarecimentos adicionais pedidos, embora tenham lamentado o timing da decisão e considerado que Rogério Aves estava a adiar o "inevitável". Para os subscritores, "os membros da Mesa respondem perante os sócios e devem ser os guardiões últimos dos direitos dos sócios. A Mesa não serve para garantir o cumprimento da agenda dos demais órgãos sociais do clube". Contactados pelo DN, optaram pelo silêncio até ser conhecida a decisão final da MAG nesta terça-feira.

O movimentoDar Futuro ao Sporting pediu a destituição de todos os órgãos sociais nos termos do disposto no artigo 37.º, n.º 2 dos Estatutos do Sporting, referente a revogação do mandato (com justa causa) do presidente do conselho diretivo e cessação imediata e antecipada de todos os órgãos sociais. Depois de o pedido chegar à Mesa, Rogério Alves tem de analisar se o mesmo cumpre todas as condições estatutárias necessárias, como ser acompanhado por assinatura de sócios que contabilizem pelo menos mil votos, e ser acompanhada de uma justa causa, que caberá à Mesa analisar.

Os contestatários invocam, entre outras coisas num total de 24 pontos, "violações dos estatutos, bem como violações de princípios fundamentais previstos constitucionalmente, como a quebra do protocolo com os GOA (claques)". Ou ainda o "aumento propositado do som das colunas, para censurar a crítica", o que incorre "numa violação constitucional do princípio da liberdade de expressão com base no artigo 37.º n.º 1 e n.º 2, bem como do direito de manifestação com base no artigo 45.º n.º 2 da CRP".

"Medidas do programa eleitoral não cumpridas", "violação da tutela de confiança", falta de critério" nas contratações para a equipa de futebol, e "falta de transparência" nos acordos com os clubes que contrataram os jogadores que rescindiram são outras das transgressões apontadas à direção de Varandas, acusada ainda de causar "danos" com a má gestão desportiva.

Godinho saiu antes, Bruno caiu em AG

Esta não é a primeira vez que a ameaça de uma assembleia geral extraordinária destitutiva paira sobre Alvalade. Foi assim, pela porta pequena, que os últimos dois presidentes (Godinho Lopes e Bruno de Carvalho) acabaram por deixar o clube. Em 2013 o movimento Dar Rumo ao Sporting, subscrito por André Patrão e Miguel Paim, levou à saída de Godinho Lopes. Viveram-se dias tensos entre a Mesa da Assembleia Geral, então liderada por Daniel Sampaio (eleito pela lista de Bruno de Carvalho), e a direção do clube, com troca de acusações e incidentes. Os elementos da MAG foram alvo de insultos e arremesso de ovos podres durante uma conferência de imprensa, e a polícia chamada a Alvalade.

Desportivamente, o Sporting vivia a pior época de sempre (acabou em sétimo lugar e teve cinco treinadores) e o líder foi forçado a demitir-se para não passar "a vergonha de ser corrido" em reunião magna. Godinho e os restantes órgãos sociais acabaram por se demitir três dias antes da Assembleia Geral destitutiva marcada para 9 de fevereiro. Pelo meio, o movimento foi acusado de estar a ser instrumentalizado por Bruno de Carvalho, que tinha perdido as eleições em 2011 e acabaria por ser o mais beneficiado com a queda de Godinho.

Foram então marcadas eleições e Bruno de Carvalho subiu ao poder. O clube viveu dias de euforia e vitalidade desportiva nas modalidades, mas o futebol continuou pelas ruas da amargura e os problemas começaram a aparecer. De repente, o nome do clube aparecia nas manchetes ligado a uma investigação do Ministério Público sobre viciação de resultados em jogos de andebol e futebol - foram constituídos sete arguidos, incluindo o team manager do clube, André Geraldes.

Apesar disso, Bruno, que no início era visto como o salvador de um clube em agonia, reinou até 2018. Depois, o ataque de um grupo de adeptos a jogadores eao staff, em plena Academia em Alcochete, que levou nove jogadores a rescindir contrato com o Sporting e ao posterior envolvimento do então presidente, levou Marta Soares a considerar que ele não tinha condições para continuar. O antigo líder da MAG ainda lhe deu a possibilidade de se demitir, mas Bruno de Carvalho recusou e foi a escrutínio dos sócios. E a 24 de junho, cinco anos e três meses depois de ter assumido a presidência e quase quatro meses depois de ser legitimado por mais de 90% dos sócios, Bruno deixou o clube por vontade dos 71,36% dos 14 735 sócios votantes. Foi o primeiro presidente a ser destituído em 112 anos de história!

A nação leonina ficou à nora e recorreu a um antigo presidente para sair da crise financeira, desportiva e de liderança. Sousa Cintra pegou na SAD e Torres Pereira assumiu o clube até haver eleições. Depois apresentaram-se a votos cinco candidatos (Ricciardi, Dias Ferreira, Fernando Pereira, João Benedito e Frederico Varandas). Levou a melhor o antigo médico da equipa de futebol. Varandas sobreviveu ao facto de estar por dentro do clube durante o turbilhão que foi a presidência de Bruno de Carvalho e assumiu a liderança do clube. Não teve vida fácil. Encontrou muitos problemas. Financeiros e desportivos. Segundo o próprio confessou nesta semana numa entrevista ao jornal Record, precisou de 115 milhões de euros para sobreviver e ainda está com a corda na garganta.

A luta de Frederico com as claques

Em outubro do ano passado, Frederico Varandas virou atenções para as claques do Sporting e rescindiu os protocolos celebrados com a Juventude Leonina e Diretivo XXI. Uma decisão tomada na sequência "da escalada de violência" que "culminou com tentativas de agressões físicas a dirigentes e outros adeptos do Sporting", após o jogo de futsal entre a equipa leonina e os Leões de Porto Salvo. O próprio presidente foi obrigado a abandonar o Pavilhão João Rocha sob escolta policial, depois de membros de claques afetas ao clube se terem juntado na bancada central do pavilhão e entoado cânticos a exigir a demissão do presidente leonino.

Clube e claques esgrimiram argumentos na praça pública e o clima de tensão foi subindo de tom. Desde então, os elementos das claques ostentam tarjas contra a direção e assobiam o presidente em cada jogo que passa. Neste sábado passaram das palavras aos atos e organizaram uma manifestação contra a direção, que juntou cerca de três mil pessoas. No mesmo dia, e segundo o clube, dois membros da direção foram agredidos após o dérbi de futsal e antes do jogo de futebol com o Portimonense. A claque negou o envolvimento, mas o presidente aproveitou o momento para reafirmar a sua posição quanto "a um certo grupo de adeptos".

"Após o ataque de Alcochete, a invasão de uma garagem, ao pavilhão, ao arremesso de pedras, hoje dois elementos do conselho diretivo e a filha de um deles sofreu uma emboscada por parte de seis cobardes, em que pontapearam um membro e cuspiram na cara de uma miúda de 16 anos", denunciou Frederico Varandas, lembrando que este é um cenário visto "há mais de dez anos".

"Um episódio como este levou um presidente a demitir-se, mas a direção desta claque mantém-se. E foi esta claque que me insultou quando, na primeira volta, saímos de Portimão na liderança. Estes senhores não têm, nem nunca mais vão ter, os privilégios que tinham. Hoje não está aqui em causa nenhum resultado desportivo, o que está em causa é a soberania do Sporting. Estes senhores julgam que mandam, mas não mandam nem nunca mais vão mandar", assegurou o líder leonino na companhia dos restantes elementos da direção que o acompanhavam.

O futebol e o julgamento em Monsanto

Estabilidade é uma palavra estranha às hostes leoninas. O clube vive um dos períodos mais conturbados de sempre. Todas as semanas o nome do Sporting é enxovalhado no Tribunal de Monsanto, onde decorre o julgamento do processo da invasão da Academia. O ex-presidente está sentado no banco dos réus, acusado de ser o mandatário do crime de terrorismo - assim o classificou o Ministério Público -, depois de ser destituído do cargo de presidente do clube e expulso de sócio.

Enquanto isto, o clube tenta seguir a sua vida desportivamente, mas nem nesse campo as coisas têm sido pacíficas. Apesar do sucesso nas modalidades, com alguns títulos europeus à mistura, o futebol continua sem dar alegrias aos sportinguistas, que já não festejam um título desde 2001-02. E ainda não será nesta época. A equipa está no terceiro lugar do campeonato, a 15 pontos do FC Porto e a 19 do líder Benfica, quando falta jogar quase meio campeonato.

Jorge Silas foi chamado ao comando técnico leonino em setembro de 2019, depois do despedimento repentino de Marcel Keizer, o holandês em quem Varandas tinha apostado quando assumiu a direção, e uma aposta falhada em Leonel Pontes. Mas mesmo com novo técnico a equipa oscila entre boas e más exibições e maus e bons resultados, sempre muito dependente daquilo que Bruno Fernandes conseguisse fazer nos jogos.

Em janeiro a equipa ficou órfã do seu capitão e melhor jogador. Bruno rumou ao Manchester United e deixou nos cofres de Alvalade mais 55 milhões de euros (transferência pode render até 80 milhões). O dinheiro ajudou o clube a fazer face a compromissos financeiros com os bancos, mas ainda falta saber como o Sporting sobreviverá sem ele em campo. Nesta terça-feira tem a palavra Rogério Alves, que na qualidade de presidente da Mesa da Assembleia Geral dos leões irá decidir se haverá lugar ou não à realização de uma Assembleia Geral destitutiva. Caso esta seja uma realidade, caberá aos sócios depois votarem sobre a destituição ou não de Frederico Varandas.

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