Selma Uamusse: "Pensei em deixar a música e voltar a ser engenheira"

Apenas dois anos depois do álbum de estreia em nome próprio, a cantora moçambicana está de regresso com Liwoningo, um trabalho "mais coeso e coerente", em que alarga o seu universo musical a outros territórios, mas sem nunca perder o pé à sua África natal.

Depois de toda uma vida a brilhar nos mais diferentes géneros musicais, com artistas como WrayGunn, Cacique'97, Gospel Collective ou Rodrigo Leão, Selma Uamusse decidiu seguir o seu próprio caminho há cerca de dois anos, com a edição do álbum de estreia Mati. "Um parto difícil", como confessa nesta entrevista ao DN, mas que lhe permitiu encontrar "uma sonoridade e uma forma de comunicar" próprias, inspiradas pelas sonoridades de Moçambique, o país onde nasceu em 1981 e do qual saiu ainda criança, para o redescobrir mais tarde com um olhar de artista.

É essa raiz bem profunda que volta a servir de base ao novo trabalho Liwoningo (significa luz em chope, uma das línguas de Moçambique), recentemente editado e no qual alarga o seu universo musical a outros territórios que porventura até lhe serão mais familiares, como o rock, o afrobeat, o jazz ou a soul. Para juntar todas estas camadas de forma "coesa e coerente", Selma contou com a colaboração do brasileiro Guilherme Kastrup, o produtor premiado com um Grammy pelos álbuns A Mulher do Fim do Mundo e Deus É Mulher, ambos da lendária cantora brasileira Elza Soares. O disco conta ainda com participações dos brasileiros Bixiga 70, Rodrigo Campos e Swami Jr., dos artistas moçambicanos Chenny Wa Gune, Milton Gulli e Lenna Bahule e do korista da Gâmbia Mbye Ebrima.


O primeiro concerto depois do confinamento, na Gulbenkian, que serviu para apresentar este novo álbum, esgotou alguns dias antes. É sinal de que o público estava curioso, concorda?
Ou então que tinha muita vontade de voltar a ver e ouvir música ao vivo [risos]. É certo que o espaço tinha algumas limitações, decorrentes da situação de pandemia, mas fiquei bastante alegre por ter esgotado tão depressa, especialmente porque o álbum anterior teve bastante espaço ao vivo e, para quem me segue, é sempre importante ouvir algo novo.

O que sentiu ao regressar a um palco?
Foi muito comovente. O palco é o meu habitat natural e, portanto, estava num estado emotivo muito forte, com muita vontade de dar o concerto e de o ver acontecer. Dei por mim a pensar que isto é algo que realmente nos une, porque de certa forma todos passámos por experiências semelhantes durante o período de confinamento. Gostamos de ver os outros, de trocar olhares, apesar de ainda não nos podermos tocar. E para mim foi especialmente bom perceber que o meu público também gostou de ouvir as novas canções.

Concorda que Liwoningo acaba por alargar o seu universo musical a outras sonoridades, digamos mais internacionais?
Creio que sim, mas já quando comecei o meu projeto a solo foi sempre a pensar num contexto mais internacional. Não para me tornar rica e famosa, claro, mas porque senti que o que tinha para dizer, a mensagem que queria passar, não deveria ficar só em casa. No fundo, é um álbum no qual consegui acrescentar as diversas camadas que me definiram enquanto artista, como o rock, a soul, o jazz e, claro, os sons de Moçambique.

Foi um processo mais fácil do que o primeiro álbum, Mati, editado em 2018 mas várias vezes adiado?
O primeiro álbum foi muito mais difícil, porque tive de encontrar uma sonoridade e uma forma de comunicar só minha, depois de anos a trabalhar nos mais diversos e diferentes projetos musicais. Esse foi o grande feito do Mati. Tomei a decisão de seguir uma carreira a solo em 2012 e o disco só saiu seis anos depois, portanto não foi um parto difícil, foi um parto de quadrigémeos com fórceps e ainda uma cesariana a seguir [risos]. E chegada a este lugar desconfortável, porque o Mati estava feito e o futuro ainda era uma incógnita, comecei a sentir-me segura para ser mais ousada. E este disco é isso mesmo, um trabalho ousado, mas mais coeso e coerente, em que conseguimos ouvir todas as tais camadas e, nesse sentido, a produção do Guilherme Kastrup foi fundamental.

O que é que ele trouxe ao disco?
Acima de tudo, conseguiu tornar audíveis todas as minhas camadas musicais, o que ajudou a tornar o disco muito mais aberto, na forma como nele se juntam Europa, África e América do Sul. Começámos a trabalhar no Liwoningo ainda antes de lançarmos o Mati, e o Guilherme juntou-se muito cedo a nós, o que também foi muito importante para definir a direção a tomar. Gostámos muito um do outro logo de início e à segunda conversa já nos tínhamos tornado amigos, o que também é muito importante para o trabalho correr bem. É uma pessoa que faz as críticas de forma muito frontal, mas sem nunca deixar de ser simpático. Tal como eu, também tem um lado ativista, que me interessava explorar no disco, mas sem deixar de lado a minha fé e a minha espiritualidade e o Guilherme ajudou bastante a conseguir isso. Passei algum tempo com ele no Brasil, a trabalhar no estúdio que tem em casa, onde estavam sempre a aparecer artistas, como o Chico César e outros. Foi um sonho poder gravar um disco assim.

Foi, portanto, um parto bem mais fácil?
Foi um processo muito mais rápido e direto e, como tal, tudo indicava que seria um parto bastante calmo e sereno, mas depois veio o covid baralhar tudo, porque concluímos o disco em final de 2019 e o plano inicial era editar logo no início deste ano. Entretanto, decidimos adiar para setembro, mas o período de confinamento fez-me perceber que temos de fazer música pelas razões certas, pela mensagem e pelas pessoas e não apenas por critérios meramente comerciais. E decidimos então lançar no final de julho, quando tivemos a sorte de ser brindados com o desconfinamento, o que nos possibilitou dar este passo em frente de voltarmos a tocar ao vivo. Foi uma sensação muito libertadora.

Como é que viveu o período de confinamento?
Inicialmente, com alguma angústia, mas depois aproveitei para descansar. Tive tempo para refletir, pensar, orar e, a dada altura, tive de passar à ação. Comecei a fazer uns lives na internet, mas não é de facto a mesma coisa. Os comentários e as reações não substituem o público e os ecrãs ainda são uma barreira um pouco estranha, especialmente para mim, que sou uma pessoa muito física, que gosta de ir cantar para o meio das pessoas, tocá-las e abraçá-las, durante os concertos. A nível artístico, foi sem dúvida do palco que mais falta senti. Aliás, depois de ter feito o meu primeiro live, dei por mim a pensar que, se fosse para continuar assim, o melhor era deixar a música e voltar a ser engenheira [risos]. Agora a grande questão é a de sabermos quando iremos voltar ao antigo normal...

Vai voltar em breve a atuar ao vivo?
Sim, em Ponte de Lima, no dia 14, e no festival Todos, em Lisboa, a 19 setembro. E para novembro tenho já algumas datas marcadas em França, mas vamos ver o que acontece. Temos de viver um dia de cada vez, porque neste momento o mais importante é o agora e tudo o que aparecer já é uma bênção.

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