Nada está ganho. Mas também nada está perdido

Não devemos iludir-nos com a ideia de que podemos dominar esta batalha. Não podemos. Podemos ir jogando este jogo. Dançando esta dança. Mas só no final poderemos fazer balanços e tirar lições.

Um pequeno desaperto do medo do covid-19 e aí está a curva a subir. O pior dia de contágios verificados foi nesta sexta-feira - embora tenha sempre de se ter em conta que este aumento depende muito do número de testes realizados - e seguiu-se a uma semana de semieuforia, em que nos achámos do lado seguro do problema. Em que fomos citados por todo o lado como um exemplo de sucesso.

Houve, até, quem falasse "do pico" já ter passado. E em que, mais uma vez, saíram da toca os milhares de epidemiologistas instantâneos a mandar bitaites - desta vez sobre o futuro.

O que é que estes números nos trazem? A certeza do costume: sabemos pouco, ou nada, sobre este vírus. E ele, o vírus estranho e poderoso, porque suave e sub-reptício, aproveita. Parece que estamos a vê-lo a esfregar as mãos e, mais uma vez, a perceber as nossas fraquezas para as tornar nas forças dele.

Pensavam que estavam safos? Querem ir para a rua? À terra? Aí estava ele, pronto para atacar numa gotícula desconhecida.

Pode parecer infantil esta metáfora. Pois não é menos do que as narrativas de aspeto mais sério mas que se baseiam no mesmo: desconhecimento disfarçado. A ideia de que devíamos fechar tudo para depois abrir. A de que podemos, de alguma forma, dominar esta batalha. Não podemos. Podemos ir jogando este jogo. Dançando esta dança. Mas só no final poderemos contar a história.

É isso que provam os exemplos no mundo, do Japão à Suécia. E qualquer comparação peca por defeito grosseiro, tendo em conta as inúmeras variáveis de que depende a evolução da doença. Mas não podemos ter a certeza - essa estará nos laboratórios dos que dia e noite tentam encontrar a única solução, a vacina ou um medicamento eficaz. A imunidade da população também poderia ajudar. Mas tendo em conta a imprevisibilidade, esse é um risco que não podemos correr.

Segundo os jornais internacionais, há algumas razões para termos conseguido, em Portugal, algum controlo, apesar dos números terem subido. "Autodisciplina, a reação rápida das instituições públicas e a localização do país no fim da Europa", dizia o Der Spiegel. "Além disso, não houve eventos de massa recentes, como aconteceu em Madrid com a marcha das mulheres de 8 de março." Há jornais que falam de pensamento místico, outros que explicam com a nossa obediência.

Nenhuma explicação estará completamente certa, nenhuma completamente errada. Em todas elas há, no entanto, algo em comum: quase tudo esteve na mão dos portugueses. Houve decisões importantes, claro, das autoridades, do governo, do PR, do Parlamento, da DGS. Houve o fechar as escolas, o estado de emergência, o proibir as visitas aos lares de terceira idade.

Mas até o governo tem liderado pela partilha de responsabilidades. E o sentimento de comunidade, de partilhar objetivos, tem sido o que mais tem levado às decisões individuais - que, mais do que nunca, têm consequências coletivas. É também por isso que é tão importante continuar a ser assim.

Nada está ganho. Mas nada está perdido, também.

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