Exclusivo Iluminações (1)

Stanley Kubrick abandonou o jogo das caves e dos sótãos muito típico da literatura de horror e deu absoluta primazia à horizontalidade e, sobretudo, à lateralidade.

A experiência do confinamento. Depois, o desenlace trágico. A loucura, porém, adivinhara-se muito antes disso, quando iam ainda a caminho. Numa manhã límpida de Outono, eram não mais do que um ponto minúsculo a serpentear no horizonte. A estrada ascendente, rumo à montanha. A câmara fixa-se nesse ponto, no VW Beetle amarelo, acompanha-o sem tréguas, aproxima-se e distancia-se dele como uma ave de rapina no encalço da presa, um deus grego vingativo ou, talvez, um anjo maléfico prestes a irromper numa história humana. Em cortante contraste com a paisagem idílica, radiosa, a música prenuncia a tragédia: composta por Wendy Carlos, baseia-se no trecho da Sinfonia Fantástica em que Hector Berlioz parodiou os hinos em latim das missas, adaptando-os a um sabat de feiticeiras. Dies Irae, assim se chama a peça. A ira divina.

A cena foi filmada no Glacier National Park por uma equipa transportada em helicópteros. Estiveram quase um mês à espera de que a nitidez da atmosfera permitisse ao lago reflectir de modo cristalino e puro, de uma perfeição sem mácula, a montanha envolvente. Todas as noites o produto das filmagens era enviado para a casa do realizador, que morava longe, em Inglaterra, e raramente ou quase nunca saía de casa, em confinamento total.

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