"É melhor pôr gente na rua com teste feito e máscara do que manter o país fechado"

Adalberto Campos Fernandes

"É melhor pôr gente na rua com teste feito e máscara do que manter o país fechado"

O ex-ministro da Saúde e professor da Escola Nacional de Saúde Pública explica como podemos voltar ao normal no pós-covid-19, fala da mortalidade que o preocupa, da política das máscaras e elogia o governo. Entrevista a Adalberto Campos Fernandes.

Nos últimos dias tem havido muitos elogios na imprensa internacional à nossa reação. É justo este aplauso geral?
É evidente que é justo, porque essa avaliação é feita em termos comparativos. Este processo é um filme, não é um conjunto de fotografias. Se comentarmos todos a fotografia, corremos o risco de nos enganar no epílogo. É preciso esperar para ver como é que o filme acaba. Mas se comparamos Portugal com os países da EU, estamos efetivamente no primeiro terço dos países que tomaram as medidas no tempo mais adequado, organizaram o sistema e o dispositivo de resposta da forma mais adequada. Acho que é justo. E tendo eu exercido funções governativas e trabalhado com o primeiro-ministro, isto pode ser mal-entendido, no sentido de que estou a ser simpático em causa própria. Mas não estou.

No início fez bastantes críticas, por exemplo, à falta do confinamento naqueles dois ou três dias em que levou à decisão.
Mas não foi ao governo. Prestei, nessa altura, com outros, modestamente, um serviço ao país. Porque nós ficámos de facto surpreendidos, estarrecidos, melhor dizendo, com a posição do Conselho Nacional de Saúde Pública. E foi o primeiro-ministro que, enquanto líder político, tomou a decisão. Quando olhamos para a Europa, para as lideranças políticas... em Espanha as dificuldades são tremendas. O primeiro-ministro Sánchez está com enormes dificuldades em unir o país. Em Itália, o primeiro-ministro tem feito um esforço, mas está ensanduichado entre a pressão dos dois extremos que procuram cavalgar o desastre para, digamos, também tirar dividendos políticos. Em França, o presidente Macron, pese embora o esforço que tem feito, não está propriamente no pico da sua popularidade. O Reino Unido é um caso extremo. A própria Suécia entrou com uma abordagem e mudou. Portanto, se estivéssemos aqui a fazer uma avaliação de 10 /15 países da Europa, o nosso governo esteve não só muito bem como em termos de consistência pode ser comparado, por exemplo, à Áustria ou à Alemanha, que têm tido um processo mais estabilizado e mais contido. Nesse aspeto creio que os comentários que são feitos são justos.

O que é que falhou?
Quando se está sob uma tempestade brutal, a ser fustigado, é impossível ser perfeito. Podemos minimizar os erros, retificá-los rapidamente... Acho que fizemos praticamente tudo aquilo que era necessário fazer no tempo que era necessário fazer. Felizmente fechámos as escolas naquela altura. Aí, iríamos cometer um erro gravíssimo se não o fizéssemos, e já o referi. O que podia ser melhor. Talvez uma política de testes mais agressiva, mais rápida e mais eficaz. Primeiro ponto. Segundo ponto, eu não arrastaria esta polémica sobre as máscaras desnecessariamente. Porque é óbvio que as máscaras têm utilidade, têm interesse, e provaram-no em muitos países. Finalmente, a coisa que compreendo pior é a resistência que existe, a dificuldade de que os dados sejam usados pela comunidade científica. Isso não consigo compreender.

"Não faz sentido para mim, enquanto médico de saúde pública e cidadão, que a senhora que está no supermercado a atender não esteja protegida e não esteja a proteger as pessoas com quem se relaciona."

Não estamos a lidar com a questão das máscaras como devíamos?
A DGS optou por seguir - é uma opção - a atitude um pouco ambígua da Organização Mundial da Saúde. A Organização Mundial da Saúde fala para o mundo inteiro, não fala para Portugal. E quando faz uma recomendação tem de pensar nos países do Terceiro Mundo, onde por exemplo a apropriação de máscaras pela comunidade fazia que os hospitais não tivessem equipamentos. Mas todos os textos da Organização Mundial da Saúde deixam liberdade aos países para as adotarem em função das suas próprias disponibilidades. Portanto, a Áustria, outros países... o Extremo Oriente foi bem-sucedido porque usou máscara...

Já estão habituados a isso, não é?
As máscaras são uma barreira física. Têm naturalmente de se definir grupos-alvo, começar pelos primeiros, que são os profissionais de saúde, e ir por aí abaixo. Não faz sentido nenhum para mim, não só enquanto médico de saúde pública mas enquanto cidadão, que a senhora que está no supermercado a atender não esteja protegida e não esteja a proteger também as pessoas com quem se relaciona. Portanto, há esta ideia de que a própria recuperação da atividade económica beneficiará muito de uma mudança de cultura de que a máscara faz parte do nosso kit de proteção individual.

Que outras mudanças prevê?
Quando voltarmos ao trabalho temos de ser menos físicos na relação social. Manter o distanciamento social. Ter hábitos de lavagem de mãos, provavelmente ainda maior do que aqueles que tínhamos. Perceber que não é bom ter locais de trabalho onde se aglomeram em dez metros quadrados seis ou sete pessoas. E que a máscara faz parte do que será, durante um tempo, o kit de proteção - nosso e dos outros. E isso ajuda a reabilitar a economia. Oiça, é mais efetivo pôr toda a gente com testes feitos e máscara para andar na rua, com cuidado, do que manter um país todo fechado em casa...

Não haverá cifras negras escondidas, nomeadamente no caso dos mortos?
Bom, primeiro, sobre a questão da honestidade, da transparência e do rigor da diretora-geral da Saúde, eu não tenho a mínima dúvida de que é exemplar. E portanto, conhecendo-a como a conheço, não me passaria pela cabeça nunca que ela pudesse conviver com uma situação de menos clareza ou menos transparência. O que pode acontecer é que, muitas vezes, em investigação de dados, a ciência dos dados, há uma expressão que é garbage in, garbage out. Se eu meto lixo dentro da máquina, o que sai da máquina é lixo. E portanto, se a informação, se a recolha dos dados não for suficientemente bem feita, eu posso estar a recolher dados que geram informação errada e produzem conhecimento inadequado. O que é que me parecia ser do interesse nacional? Que, independentemente das equipas técnicas que trabalham na Direção-Geral da Saúde, houvesse, como há em Inglaterra, mais transparência. Baixamos até os indicadores relativos à mortalidade. É isso que eu creio que, mais tarde ou mais cedo, acabará por acontecer. Até porque é uma partilha na comunidade científica que é imperativa e que não se esgota na saúde pública. Abrange outras disciplinas, como a matemática, a estatística, a biologia. Isso faz falta.

Como tem avaliado a ação da sua sucessora e da diretora-geral da Saúde?
Acho que prestaria um mau serviço aos leitores e ao país se me pusesse num papel que que não gostaria que fizessem a meu respeito. Estando em combate, não se deve ser alvo de um comentário ou de uma avaliação. Essa avaliação é feita no fim. Eu faço uma avaliação do conjunto da equipa, do governo, da oposição, do Parlamento. Alguém dizia há tempos que agora somos, do ponto de vista político, seleção nacional. O governo tem estado a fazer tudo o que pode e de uma forma competente e capaz -claro que vai cometer muitos erros, quer no plano da saúde quer no plano económico. A oposição também. O líder da oposição tem tido uma atitude muito adequada, responsável, colaborativa. Todos os partidos e o Parlamento. Neste momento, há duas coisas que não se podem fazer. Uma é o autoelogio... é como um general em campanha estar a comandar as tropas e parar e pôr-se a olhar para o espelho. E também não se deve avaliar. O que eu reconheço é um esforço enorme, uma dedicação, uma capacidade de trabalho e uma vontade de fazer bem que vai para lá de tudo.

Alguma vez pensou que passássemos por uma coisa destas?
Este tipo de eventos são cenarizados, quer do ponto de vista de quem estuda a saúde pública ou as grandes crises e os grandes eventos sanitários, quer do ponto de vista da segurança nacional dos países. Até porque nas últimas décadas o fator biológico e químico como ameaça à segurança da humanidade fez parte da agenda. E países como os Estados Unidos desde há muito tempo que integram as dimensões da saúde pública nos conceitos de segurança nacional. Aliás, há na internet profusa informação, desde o vídeo de Bill Gates até textos mais medievais, que falavam destes cenários.

O que nos trouxe até aqui?
A humanidade resulta de um procedimento crescente de convivialidade, de proximidade. A globalização veio acrescentar risco aos riscos sistémicos com que nos confrontamos. E depois também há aspetos que hoje ninguém discutia há dez ou 15 anos, questões culturais ou hábitos de vida. Por exemplo, hoje ninguém duvida de que a China tem algumas tradições e práticas que representam um risco para a quebra da barreira de espécie, pela proximidade entre a espécie humana e outros tipos de animais com os quais não existem normalmente interações. Portanto, tudo isto, não diria previsível, era uma probabilidade, um cenário, que quem estuda as tendências futuras poderia pôr em cima da mesa. O problema está sempre na fórmula como isto se traduz, se concretiza e se exprime.

"A partir de agora, nenhum país pode deixar de considerar os dispositivos de saúde pública e os sistemas de saúde como elementos estratégicos da sua própria existência."

Fazemos previsões de sismos, de incêndios florestais... Porque é que não estava ninguém - é mesmo ninguém - preparado para uma coisa destas?
Eu não seria tão pessimista em relação a esse grau de preparação.

Então?
Olhando para os países do mundo - temos duzentos e poucos -, isto tem sido uma crise sanitária que tem afetado sobretudo o hemisfério norte e, digamos assim, os países mais ou menos...

Ricos.
E ainda assim os dispositivos globais de saúde pública, nas primeiras semanas, revelaram alguma desarticulação, os países manifestaram algum egoísmo na tentativa assustada de proteger as suas populações. De uma forma ou de outra, foram construindo mecanismos de defesa. O que está em cima da mesa aqui é talvez diferente, e é uma lição para o futuro.

Qual?
É que hoje, a partir de agora, nenhum país pode deixar conscientemente de considerar os dispositivos de saúde pública e os sistemas de saúde como elementos estratégicos da sua própria existência. Quer dizer, os Estados Unidos são a maior economia do mundo. Têm uma das melhores medicinas do mundo, a maior dinâmica de investigação científica. E no entanto não têm um sistema de saúde articulado. Faz que um vendaval epidémico destes destrua grandes faixas da população, sobretudo os mais vulneráveis e os mais pobres.

Ou seja, acha que isto vai mudar a perspetiva de olhar para os sistemas de saúde? Antes de isto tudo começar estávamos a debater PPP, cooperação público-privada, a importância real do SNS no país, etc. Isso tudo vai desaparecer?
Sim. Isso vai desaparecer com a espuma dos dias como, aliás, tenderia a desaparecer e estava já a desaparecer no barco político. Os países têm de ter sistemas de resposta. A opção pelos modelos de resposta que cada país tem é uma opção política. Naturalmente, eu penso que essa resposta deve ser ancorada num pilar público de grande robustez. Porque em situações de crise, por natureza própria do mercado e do setor privado, ele não está preparado nem orientado para esse tipo de resposta. Mas pode ser muito útil, como aliás está a ser em Portugal, mobilizado através daquilo que é o eixo estruturante, que é o Serviço Nacional de Saúde. O sistema público de base, forte, organizado, com profissionais estabilizados, com carreiras reconhecidas, com uma boa medicina, uma boa enfermagem, boas profissões de saúde, faz toda a diferença. E se olharmos para os países da Europa que hoje estão a fazer melhor e que estão até a sair, o que é que encontramos que conjuga as duas variáveis que estão sempre presentes? O bem-estar público, riqueza e rendimento, e sistemas de saúde bem estruturados e organizados.

Está a falar, por exemplo, da Alemanha ou da Áustria?
Claramente. Da Finlândia. Por oposição aos países do sul que, apesar de terem sistemas de saúde de base pública - e até inspirados no modelo inglês -, têm tido muitas dificuldades. O Reino Unido, país onde Portugal se inspirou, deixou, nos últimos anos, degradar muito o serviço nacional de saúde público. Itália a mesma coisa. Espanha também. Portugal também teve problemas de investimento durante muitos anos. Apesar de tudo, Portugal tem sido, talvez pela dimensão do país e pela própria natureza de organização do nosso sistema de saúde, com uma boa saúde pública, um bom dispositivo de vacinação e, passe as dificuldades, com um sistema público forte e um sistema privado que está a ajudar... Portugal nesse aspeto está coberto. Não está coberta a variável da riqueza e do bem-estar.

"O que está a ser gasto nestes meses - e bem - vai ser quase tanto o que no meu tempo do governo teve para investimento no SNS."

Que parte é que, do relativo sucesso que temos tido até agora, pelo menos no atrasar da epidemia, se deve ao Serviço Nacional de Saúde? E que parte é que é simplesmente circunstância?
Começamos por aquilo que eu tenho chamado, aqui nesta nossa conversa, o dispositivo de saúde pública. Uma epidemia é algo que se controla e se confina fora do hospital. Na comunidade. Temos de ter, como Portugal tem, sistemas de vigilância, monitorização, controlo, reconhecimento no terreno e de capacidade de localmente, no domicílio, se tomarem medidas de prevenção do desastre epidémico. Nós temos um tecido profissional nessa área bastante reconhecido. Eu, que sou dessa área, tenho muito orgulho em tudo aquilo que essas pessoas estão a fazer no terreno - não apenas os médicos de saúde pública, mas as equipas de saúde pública. A sinalização dos casos, da sua vigilância, da ação junto do domicílio, dos confinamentos, das cercas sanitárias, esta ação sobre os lares - numa epidemia vale 70% do sucesso. Depois, naturalmente quando as pessoas adoecem precisam de cuidados, que é outra fase do sistema. E isso faz-se nos cuidados primários e nos hospitais. Insisto: pese embora o sofrimento que o nosso sistema de saúde teve.... Em Portugal o sistema de saúde não tinha ainda recuperado totalmente do embate da primeira crise, há dez anos. Daí que seja de valorizar mais ainda o que estamos a fazer, porque... vou dar-lhe uma nota que é curiosa: o que está a ser gasto nestes primeiros meses - e bem - com o reforço de trabalho, horas extraordinárias, compras - às vezes em condições que não são as melhores para o Estado - vai ser quase tanto o que no meu tempo do governo teve para investimento no SNS.

Os hospitais queixaram-se (e queixam-se) de falta de material e etc. Isso também tem que ver com o depauperamento de stocks, de incapacidade de pensar a médio-longo prazo, não é?
Vou citar o António Alçada Baptista: Portugal é um país de poetas e não de romancistas. Não tem, de facto, uma tradição de planeamento. Mas é muito resolutivo quando o problema surge. É fazível. Mas o planeamento é uma coisa que não está muito na natureza dos povos do sul da Europa.

Por não estar na nossa natureza ou porque de facto os hospitais não conseguiam ter os stocks de máscaras, etc?
Eu respondo-lhe assim: reserva estratégica nacional. Alguém discutiu aprofundadamente o que é, onde está e como funciona?

Não.
É um nome que eu diria pomposo. Não há ninguém que não fique impressionado. Mas onde está e como funciona?

E quem é responsável por essa reserva estratégica nacional?
É uma responsabilidade partilhada, tem componentes que dependem da Administração Interna, da Defesa Nacional - equipamentos de proteção individual, de tendas - há muito aspeto que é logístico, que não é medicamento e não é produto farmacêutico. Eu tenho enorme orgulho no sistema de saúde, nos profissionais de saúde, até porque sou da área, mas tenho, também, enorme respeito pelas Forças Armadas portuguesas. Porque quando temos momentos de alguma desorientação, ou de alguma perturbação, quem é que nos ajuda com serenidade e com organização e com exemplo? São as Forças Armadas. São um elemento precioso na resposta a crises civis, como aliás tem acontecido noutras ocasiões em Portugal.

"Há uma devastação da economia que é global, que vai atingir a nossa vida e que não vai deixar de atingir também o setor privado da saúde."

Há pouco disse que os privados na saúde estão a ajudar. Exatamente em quê?
O que nós temos agora na rede privada e social é uma retaguarda preventiva. Camas disponíveis, em stand by e que, esperemos, não tenham de ser utilizadas. Depois há toda a componente da realização dos testes. Nós ainda não chegámos a um ponto de rutura do sistema público e o transbordo - se me permite a expressão - ainda não se deu. Mas repare na questão dos lares e das residências. Essa é verdadeiramente a bomba-relógio que não está desarmadilhada. Eu não tenho uma tranquilidade em relação a essa situação. Pode ser importante para ajudar pessoas que não estejam doentes, que tenham de ser isoladas de outras que estejam infetadas... essa rede eu acredito que vai funcionar. Agora, não vamos ter ilusões. Há aqui também... há uma devastação da economia que é global, que vai atingir a nossa vida, a vida de todos nós, e que não vai deixar de atingir também o setor privado da saúde.

Qual é a sua maior preocupação? Os lares? O que é que especificamente nos lares portugueses os torna tão complexo? É o facto de haver muitos incontrolados, ilegais?
Muito simplesmente é isto: se daqui até ao final de abril tivermos uma surpresa, eu admito que possa vir daí. Até aqui temos tido uma aparente estabilidade e um controlo que nos tem deixado, enfim, mais otimistas. Mas esse risco não está afastado. Eu não sei quando o vírus partiu para a comunidade - nem eu nem ninguém sabe -, qual era o grau de proteção desta população que se estima ser à volta de cem mil pessoas. Muitas delas alojadas em lares que nem esse nome lhes devia ser permitido usar. Porque isto também será uma oportunidade para todos nós pormos a mão na consciência - todos nós sociedade -, porque estamos a ver como se viu em Espanha a forma como os nossos pais, os nossos avós, os nossos idosos vão vivendo. E vão terminando, digamos, a sua vida. Há residências e lares que têm condições deploráveis. Pela concentração de pessoas, pela densidade de residentes, de condições de higiene e também porque muitos dos cuidadores que trabalham nestes lares trabalham em mais do que uma instituição e, portanto, os riscos de contaminação estão lá. Tardou muito a considerar os lares uma área de altíssimo risco. De imediato deveriam ter tido equipamentos de proteção individual, máscaras, higienização - foi bem feita a proibição de visitas. A pergunta é: isto é um incêndio que se está a extinguir ou é um incêndio que está a começar?

E não vamos saber isso enquanto não tivermos os testes...
Mas não podemos desarmar. Temos de testar. Temos de garantir que os cuidadores e os funcionários estão protegidos, como se tivessem funções de um profissional de saúde.

Como se estivessem num hospital
E temos de atuar preventivamente nos casos em que há... casos positivos têm de se isolar e têm de se afastar dos não infetados.

"O número de óbitos não me suscita boas reflexões nem bons pensamentos. Estamos com uma mortalidade preocupante. A nossa mortalidade geral já está perto dos 2%. E a mortalidade nos mais idosos estava nos 11%."

Apesar de haver muitos casos, não há ainda tanta afluência aos hospitais, certo? Os hospitais já estão irreconhecíveis ou ainda se consegue trabalhar neles, neste momento?
Há aqui duas questões. Uma tem suscitado algum debate e que é se devíamos, ou não, ter considerado que alguns hospitais iam ficar isolados do contexto covid para termos uma reserva estratégica nacional para resposta aos outros casos. Outro aspeto é a sobrecarga. Quando olho para as curvas diárias - e tenho, aliás, alguma reserva sobre os comentários à análise das curvas diariamente -, há dois indicadores que têm um maior valor preditivo. Os internados, particularmente em UCI, e o número de óbitos. E este, até aqui, suscita boas reflexões, bons pensamentos. O número de óbitos não me suscita, pessoalmente, boas reflexões nem bons pensamentos.

Então? Especifique lá isso.
Estamos com uma mortalidade que é preocupante. Repare, a nossa mortalidade geral já está perto dos 2%. E a mortalidade nos mais idosos estava ontem, ou anteontem, nos 11%. Por outro lado, o número de mortos, a variação diária, não é, do meu ponto de vista, tranquilizadora. Por outro lado, o número de casos novos... sobre isto não sei se quer falar já agora, mas o número de casos novos pode estar influenciado pelos testes.

De que forma é que o SNS está preparado? Será que vamos conseguir manter esta pressão assim, média, sobre o sistema ou vai haver um boom grande?

Duas partes. Primeiro os não covid. Nós temos todos, na sociedade, de estar muito atentos a sinais que são de elevada preocupação.

A queda da procura.
Embora soubéssemos que grande parte daquela procura era estruturalmente reconhecida como casos não urgentes, os chamados azuis e verdes, foi uma queda brutal. A doença aguda não desapareceu com o covid, o enfarte, o AVC...

Então o que é que está a acontecer? Em linguagem comum?
Não tenho dúvida nenhuma de que há muita gente assustada. Há muitas pessoas, sobretudo mais idosas, que têm medo de ir aos hospitais. E que podem estar ou a desvalorizar os seus sintomas presentes ou a desvalorizar ou controlar os seus sintomas passados. Porque têm medo, com a debilidade que têm, com a idade avançada, de ir ao hospital e ainda ser pior. Isto é um tema sobre o qual nós temos de estar muito, muito atentos. Não só pelo volume de procura que vamos ter a seguir. Teremos o agravamento das listas de espera. Brutal. Num país ideal a linha Saúde 24 devia também monitorizar o doente. Se tivéssemos essa capacidade, eu sugeriria que a Linha de Saúde 24 não se focasse exclusivamente nas suspeitas de casos covid.

O problema é que não se consegue ligar para lá.
Os médicos têm individualmente feito isso. Têm uma enorme preocupação com os seus doentes. Conhecem-nos. Sei que há muitos que interagem por telefone, por outras vias, com os seus doentes. O problema não são esses doentes, que têm a sorte de ter esses médicos. São os que não têm médico, ou que podem estar bem e subitamente têm uma doença que não sabem caracterizar, que é uma doença grave e que passa no radar do diagnóstico.

"A minha sugestão era que procurássemos garantir que os efeitos da crise sanitária são controlados, que a reentrada é feita com inteligência, libertando para o tecido produtivo e para as atividades as pessoas num contexto em que elas estejam controladas."

Ainda não chegou a hora de falar de economia, faz sentido continuar a manter este foco todo na saúde?
Sim. Porquê? Não há economia sem pessoas. E não há economia sem confiança. Pior do do que este sofrimento que estamos a ter e esta devastação económica seria nós fazermos uma reentrada em falso. Era reentrarmos de maneira errada. Nós já percebemos que há aqui um trimestre que está completamente perdido. A minha sugestão era que procurássemos garantir que os efeitos da crise sanitária são controlados, que a reentrada é feita com inteligência, libertando para o tecido produtivo e para as atividades as pessoas num contexto em que elas estejam controladas. E, quando fizermos isso, fazermos uma verdadeira cerca sanitária - passo a expressão, porque é um exagero - aos nossos idosos. Temos de ter uma preocupação - diria que é "a" preocupação com A grande. É garantir que os nossos idosos, todos eles, são considerados população de altíssimo risco. Estejam em nossa casa, estejam no lar ou na residência. Isso permitirá que os ativos, adultos, pessoas que têm atividade, estudantes, possam, progressivamente, regressar às atividades. Mas repensando os espaços. Por exemplo, as escolas têm de melhorar os seus espaços. Algumas empresas têm de trabalhar melhor a sua organização. E mesmo os espaços públicos, comerciais, provavelmente terão de ter um faseamento de lotação e de concentração de pessoas. Mas se nós fizermos isso, se massificarmos os testes - conhecendo bem a situação -, se fizermos estudos de comunidade - como agora os espanhóis vão fazer para perceber a fotografia real do país - finalmente, se formos obsessivos na proteção aos idosos... Eu digo mesmo obsessivos, não tenhamos vergonha de exagerar nas medidas de proteção aos idosos. Os idosos merecem a nossa proteção. Merecem não ser desprezados. E portanto isso significa que a nossa obrigação, enquanto Estado, é não deixar o país morrer economicamente - porque mais 3, 4 meses diz que o país morria -, é reabilitar a economia, preparar um verão que permita que os portugueses possam consumir mais produtos portugueses, encher o país de férias para que o nosso turismo rapidamente recupere. Eu próprio vou fazer isso. E proteger os idosos. É fundamental.

Vamos sair disto mais de esquerda ou vamos sair disto mais liberais?
Acredito que nem uma coisa nem outra. Vamos sair disto mais pragmáticos. E mais centrados naquilo que é verdadeiramente a necessidade de responder às pessoas. Nalgumas medidas as abordagens terão características mais liberais, noutras, claramente, mais sociais-democratas ou mais socialistas. Mas eu, que sou ideologicamente um social-democrata, vejo aqui uma oportunidade para revisitarmos o pensamento que agrega mais as sociedades. Ou seja, criar o máximo de riqueza do lado da economia, libertando as empresas, libertando o empreendedorismo e a criatividade, gerando valor e inovação e, depois, fazer um uso criterioso das vantagens que aí vêm, através de um Estado social que é inteligente, que é protetor e que é sustentado. Daqui para a frente, quem vier falar de sistemas de proteção social, pilares de proteção social - quer na segurança social, nas pensões, quer na saúde - em que o Estado não tenha uma capacidade estratégica de definir não vai ser ouvido.

Tem pena de não estar mais no meio da ação? De ter saído antes de isto tudo acontecer?
Não, de maneira nenhuma. Aliás, se estivesse em ação, faria também aquilo que naturalmente deveria fazer, e faria o meu melhor nessas condições - como estou a dar agora enquanto cidadão e pessoa que participa ativamente na vida social e na vida pública. Acho que aqui não há questões de culto. Teria uma enorme preocupação por, numa circunstância destas, poder não ter as condições ou as capacidades para servir o meu povo. Qual será o julgamento que a história fará de nós todos daqui por alguns anos? Nuns casos será justo, noutros injusto, mas ninguém está preparado para responder a uma coisa destas. Ninguém. E há também o fenómeno Churchill. Se calhar, daqui por seis meses, com a crise económica no seu pico, a maior parte dos governos serão castigados, porque as pessoas terão uma vontade enorme de mudar. A política é, por natureza, injusta.

Não lhe vou perguntar se está otimista ou não porque acho que neste momento não devemos ir por aí...
Mas tenho uma mensagem que gostava de deixar. Não é boa ideia que as autoridades, ainda que pela vontade de passarem uma mensagem positiva - na política ninguém gosta de dar más notícias -, em cima de informação que vem das tais curvas, ainda com a fragilidade que tem, é muito importante não levantar a guarda. Nós temos visto, nos últimos dias, no trânsito... As pessoas estão a interiorizar que isto já está ganho. E o que eu digo é que nós nem aos oitavos-de-final chegámos. Há uns anos vi o Benfica perder um campeonato nos últimos cinco minutos do jogo. E acho que seria dramático se perdêssemos este campeonato da luta pelas nossas vidas porque começámos a deitar os foguetes antes da festa. E isso é muito mau.

Está a falar do Presidente da República?
Não, de todo. O Presidente da República tem sempre uma preocupação enorme que é puxar por nós. Mas é preciso passar para baixo a ideia de que o jogo, de facto, não está ganho. Nós estamos, neste momento, sob uma pressão enorme do adversário e estamos a ser driblados constantemente. E estamos a levar faltas à margem da lei, como se diz na linguagem futebolística. E portanto é melhor esperar pelo apito final do árbitro.

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